Após 1º caso confirmado, reinfecção gera dúvidas sobre aplicação de vacinas contra Covid

Especialistas ouvidos pelo ND+ recomendam a imunização das pessoas que já tiveram a doença. Estudos ainda não conseguem precisar quanto tempo dura a imunidade dos infectados e dos novos imunizantes

Bruna Stroisch Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

Febre, tosse seca, cansaço, falta de ar. Após o teste, o diagnóstico: positivo para Covid-19. Por si só, lidar com esse resultado já não é nada fácil, uma vez que a doença é recente e ainda está repleta de incertezas do ponto de vista médico e científico.

Casos de reinfecção geram questionamentos sobre a imunização da população e a dinâmica da Covid-19 – Foto: Anderson Coelho/NDCasos de reinfecção geram questionamentos sobre a imunização da população e a dinâmica da Covid-19 – Foto: Anderson Coelho/ND

Agora, imagine se recuperar do quadro e, algum tempo depois, voltar a sofrer com os mesmos sintomas. Um novo exame é feito e a suspeita se confirma: infecção por coronavírus.

A reinfecção é uma realidade e o primeiro caso no Brasil foi confirmado nesta quinta-feira (10), pelo Ministério da Saúde.

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

Trata-se de uma profissional da área da saúde, de 37 anos, que mora em Natal (RN). Ela teve a doença em junho, se curou, e teve resultado positivo novamente em outubro – 116 dias depois do primeiro diagnóstico.

Como relevou o ND+ no final de outubro, Santa Catarina tem quatro casos suspeitos de reinfecção. De acordo com a Dive-SC (Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina), as amostras foram encaminhadas para análise da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), no Rio de Janeiro. Detalhes sobre a origem, o sexo e a idade só serão informados após a confirmação dos casos.

Esta é a mais uma reportagem da série “Covid-19 em Dados“, uma iniciativa do ND+ com o patrocínio do Google sobre a pandemia do novo coronavírus. Clique aqui e confira a página especial do projeto com todas as reportagens.

A partir disso, surgem os questionamentos: afinal, o que se sabe sobre a reinfecção por Covid-19 e qual o impacto na vacinação?

Ainda que as respostas não sejam definitivas, para especialistas, pesquisas sobre episódios desse tipo ajudam a entender algumas características e a dinâmica do vírus.

Investigação dos casos 

O primeiro caso de reinfecção no Brasil pelo vírus SARS-CoV-2, que é o causador da Covid-19, foi confirmado após sequenciamento do genoma completo viral que identificou duas linhagens distintas.

Esse é uma das formas de obter a confirmação dos casos, de acordo com o infectologista Max Igor Lopes, que coordena um ambulatório dedicado exclusivamente na análise das suspeitas de reinfecção no HC (Hospital das Clínicas) da FM-USP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), em São Paulo. Lá, 33 casos desse tipo estão em investigação.

Lopes explica que a análise identifica o código genético do vírus da primeira infecção e o compara com o código genético do vírus da segunda infecção. Se as amostram apontarem genomas diferentes, tudo leva a crer que se trata de uma nova infecção e não uma continuidade da primeira.

O Ministério da Saúde considera como caso suspeito o paciente com dois resultados positivos de RT-PCR para o vírus Sars-CoV-2, com intervalo igual ou superior a 90 dias entre os dois episódios, independentemente da condição clínica observada neles.

Dificuldades na identificação

Identificar um caso de reinfecção, no entanto, não é tão simples. O infectologista Ricardo Freitas diz que os testes rápidos administrados no início da pandemia podem ter resultado de falsos positivos para Covid-19.

Isso pode gerar uma confusão, segundo o médico. Os testes mais precisos atualmente para diagnosticar a doença são o RT-PCR ou o de antígeno.

Outra dificuldade, dessa vez apontada por Lopes, é que muitas amostras obtidas nos exames na primeira infecção foram descartadas, portanto, não há como fazer o comparativo.

De acordo com a agência de notícias holandesa BNO News, que compila dados globais sobre esse assunto, há atualmente 28 casos confirmados de reinfecção no planeta.

Desses, 26 pacientes se recuperaram bem e apenas um morreu. O site ainda calcula que existam outros 1.673 casos suspeitos de reinfecção em análise.

O primeiro caso de reinfecção confirmado foi registrado no dia 24 de agosto em Hong Kong. Houve ainda casos no Peru, Suécia, Índia, Espanha, Holanda, Estados Unidos e Equador.

Os testes mais precisos atualmente para diagnosticar a doença é o RT-PCR ou o de antígeno – Foto: Marcelo Martins/Prefeitura de Blumenau/Divulgação/NDOs testes mais precisos atualmente para diagnosticar a doença é o RT-PCR ou o de antígeno – Foto: Marcelo Martins/Prefeitura de Blumenau/Divulgação/ND

Sintomas em uma 2ª infecção

Pacientes que já tiveram Covid-19 e se curaram podem enfrentar sintomas mais graves no caso de uma segunda infecção.

Lopes relata que a primeira infecção, de modo geral, tende a ser leve. Nesse caso, a doença gera uma resposta imunológica mais fraca, com uma produção menor de anticorpos.

Quando o paciente encara uma segunda infecção com uma quantidade de vírus maior, os sintomas acabam sendo mais severos. A gravidade dos sintomas é diretamente proporcional à quantidade de vírus com o qual a pessoa se infecta.

Uma quantidade menor de vírus causa uma doença leve, com poucos sintomas, e gera uma resposta imunológica mais fraca.

Em contrapartida, uma quantidade maior de vírus causa sintomas mais agressivos e maior produção de anticorpos. Características como essa podem medir a dimensão dos sintomas.

Por esse ponto de vista, uma pessoa que apresentou sintomas mais graves em uma primeira infecção está menos suscetível à reinfecção, pois a defesa do corpo teve que reagir com mais força.

Quanto aos mais suscetíveis a novos episódios, estão os profissionais de saúde que lidam todos os dias com pacientes infectados pela Covid-19. Mais a fundo estão os profissionais que fazem parte de grupos de risco, como idosos, diabéticos, hipertensos e obesos.

“O ideal seria que esses profissionais estivessem na retaguarda. Mas em um cenário tão crítico da pandemia no Brasil, não há como permitir que um profissional da saúde hipertenso, por exemplo, fique em casa. Infelizmente, toda a força de trabalho é necessária”, lamenta Freitas.

Data de validade imprecisa

A presença de anticorpos no organismo vai caindo com o passar do tempo. “É esperado que a pessoa perca um pouco da defesa depois da primeira infecção e possa estar novamente exposta a uma segunda infecção por Sars-Cov-2. Isso é natural”, diz Freitas.

Segundo ele, a comunidade médica tem considerado a pessoa imune ao vírus por até seis meses após o primeiro teste positivo.

Para Max Lopes, o coronavírus tende a gerar uma imunidade mais fraca, mas ainda não se sabe ao certo quanto tempo ela dura. Ele diz que todos os casos suspeitos de reinfecção em acompanhamento no HC desenvolveram novos sintomas de três a seis meses após o primeiro diagnóstico.

Quanto tempo dura a imunidade contra a Covid-19, portanto, ainda é uma incógnita. Freitas, contudo, descarta uma onda de casos de reinfecção. Para ele, considerando que as reinfecções não são comuns, o alto número de casos de Covid-19 atualmente está relacionado a novos casos.

Vale ressaltar que o Sars-CoV-2 é recente e ainda requer amplo estudo. Acredita-se que o primeiro caso da doença tenha sido registrado no dia 17 de novembro de 2019, na cidade de Wuhan, província de Hubei, na China.

Sendo assim, a ciência tem pouco mais de um ano de experiência com esse vírus e suas consequências.

Vacina: uma única vez ou várias vezes na vida?

A perspectiva de reinfecção impacta no gerenciamento da pandemia e na busca por imunizantes. Ainda não se sabe se o produto vai induzir uma imunidade duradoura. Ricardo Freitas acredita que a vacina contra a Covid-19 será como a da gripe.

“Se pensarmos em reinfecções frequentes, a vacina fica comprometida. Além disso, pode abalar a população, que já está cansada de ficar fugindo da doença. Por outro lado, se uma segunda infecção pelo novo coronavírus for mais branda, não há com o que se preocupar. Mas não temos essa resposta ainda”, diz.

Perspectiva de reinfecção impacta no gerenciamento da pandemia e na busca por vacina – Foto: Arquivo/NDPerspectiva de reinfecção impacta no gerenciamento da pandemia e na busca por vacina – Foto: Arquivo/ND

No caso, a vacina da gripe é aplicada mais de uma vez porque o vírus tem a capacidade de acumular muitas mutações, escapando do sistema imunológico.

Não é o caso do Sars-CoV-2, por exemplo. O novo coronavírus acumula poucas mutações, porém o estímulo à criação de anticorpos é baixo.

O infectologista Max Lopes, contudo, prevê que a vacina contra a Covid-19 será aplicada uma única vez na vida. Ele entende que o vírus vai continuar circulando e, consequentemente, causando novas infecções, algo típico de vírus respiratórios. No entanto, a situação não é tão alarmante quanto parece.

“O que vai acontecer é que não teremos mais casos graves. Ou as pessoas vão criar anticorpos ou vão se expor a quantidades pequenas do vírus, justamente porque as pessoas já vão ter criado defesas mais fortalecidas contra ele”, projeta. “Será uma rede de proteção”.

Por essa lógica, se os casos mais graves se tornarem mais raros, não há motivo para aplicar a vacina mais vezes. Isso porque o próprio imunizante injeta o vírus na corrente sanguínea através de uma injeção intramuscular, forçando o corpo a desencadear uma resposta à altura.

Quem já teve Covid-19 pode ficar de fora da vacinação?

Para os infectologistas a resposta é “não”. Todos deveriam ser imunizados, mesmo aqueles que já testaram positivo para Covid-19.

A possibilidade de essas pessoas ficarem fora da fila de vacinação foi mencionada pelo secretário de Estado da Saúde de Santa Catarina, André Motta Ribeiro, em reportagem publicada pelo ND+ no dia 4 de dezembro.

O Estado ainda aguarda orientação do Governo Federal se os recuperados da Covid-19 serão considerados imunizados e descartados do plano de vacinação. O motivo é a crença de que esse grupo já teria produzido anticorpos contra o coronavírus.

Os especialistas, contudo, rebatem. “Não se pode excluir aqueles que já tiveram a doença, porque não há garantia da imunização. Na falta de informações precisas, o correto seria vacinar todos”, defende Freitas.

“Do ponto de vista da saúde pública, são pessoas que têm menor vantagem em tomar a vacina porque muitas delas já podem ter uma proteção maior, mas nem todos. Entendo que os casos de reinfecção mostram que existem muitas pessoas que ainda são suscetíveis à doença, mesmo que já infectadas antes”, argumenta Lopes.

Além disso, o infectologista do Hospital das Clínicas destaca a dificuldade de se conhecer com exatidão todos aqueles que já foram infectados pelo vírus.

“Teria que ter acesso a todos os resultados de todos os laboratórios do Estado. Pode-se até recomendar que quem já teve a doença, tenha anticorpos, mas não há garantias. Acredito que a vacina é importante para todos porque é um cenário que não há muitas informações”.

Em meio às dúvidas, uma coisa é certa: a prioridade na fila da vacinação é das pessoas que fazem parte dos grupos de risco e daquelas que estão na linha de frente do combate à Covid-19.

“Os profissionais de saúde têm que ser os primeiros ao lado dos indígenas, idosos,  principalmente, os que vivem em asilos por conta da alta mortalidade, e dos profissionais de segurança, como bombeiros, policiais e Defesa Civil”, aponta Freitas.

Em busca das respostas

O tempo de durabilidade das vacinas, seus efeitos colaterais e eficácia ainda não estão 100% definidos.

Ainda não há um grande contingente de pessoas no mundo que tenham sido vacinadas e acompanhadas para que se possam preencher as lacunas em aberto. Porém, Max Lopes enxerga as pesquisas sobre os casos de reinfecção com otimismo.

“Acho que ajuda a entender um pouco melhor as características do vírus. É nítido que o coronavírus não é muito eficaz em desencadear proteção a partir da infecção. A ideia de imunidade boa de rebanho, por exemplo, não é bem assim”, revela.

O infectologista do HC julga que a reinfecção ajuda a revisitar a doença, compreender a dinâmica da transmissão e relacionar essas descobertas com a vacina, criando uma perspectiva de futuro mais promissora.

Se as dúvidas continuam, as medidas de proteção também

Os casos de reinfecção até podem ser pouco frequentes, mas já deixam uma lição. As pessoas já diagnosticadas com Covid-19 não podem se considerar “super-humanas”, de acordo com Freitas.

O médico destaca a importância de continuar adotando medidas preventivas, mesmo após uma primeira infecção. Primeiro, porque ainda não se tem respostas definitivas sobre o quadro da imunidade depois do episódio.

Pessoas que já foram diagnosticadas com Covid-19 e se curaram não devem deixar de lado medidas de proteção contra a doença como o uso de máscaras- Foto: Anderson Coelho/NDPessoas que já foram diagnosticadas com Covid-19 e se curaram não devem deixar de lado medidas de proteção contra a doença como o uso de máscaras- Foto: Anderson Coelho/ND

O segundo ponto é pensar no próximo e seguir cumprindo as regras sanitárias que evitam o contágio, como o uso da máscara, a adoção ao distanciamento social e a higienização das mãos.

“Não há como dizer para uma pessoa que nunca tenha sido infectada usar a máscara, e dizer para outra, que já tenha passado pela Covid-19, não usar. Não há como ‘carimbar’ as pessoas.  No coletivo, todos somos responsáveis. A pessoa deve ter uma atitude coletiva de respeito ao próximo, mesmo que já tenha sido infectada”, conclui Freitas.

Tópicos relacionados