Com a vacinação contra a Covid-19 avançando e cidades de Santa Catarina registrando queda na taxa de letalidade, a volta à normalidade é um assunto que, a cada dia, ganha mais força nas ruas.
Não é para menos. Segundo o vacinômetro da SES (Secretaria de Estado da Saúde), com dados atualizados nesta sexta-feira (16), cerca de 44% da população catarinense aplicou a primeira dose do imunizante – um número que parecia distante no começo do ano.
O otimismo, no entanto, abre brecha para o compartilhamento de mitos sobre o uso ou não de máscaras. Afinal, pessoas vacinadas podem abrir mão delas? Quando poderemos abandoná-las?
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Uso de máscaras deve continuar mesmo com vacinação – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo/NDPara responder a estas e outras perguntas, a reportagem do ND+ conversou com a médica infectologista Ana Paula Bertuol, que atua na Dive/SC (Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina). Ela destaca que a mudança não é assim tão simples.
Informações obtidas a partir de pesquisas da Fiocruz ( Fundação Oswaldo Cruz) e de entrevista feita diretamente com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) complementam as respostas.
1) Se fui imunizado com a segunda dose, posso ficar sem máscara ao sair com a família?
De acordo com Bertuol, a imunização não torna possível sair de casa sem o uso de máscara.
“Nenhuma vacina tem 100% de eficácia, e ainda temos alta circulação viral, dessa forma ainda não é seguro sair sem máscara”, ressaltou.
2) Em caso de máscaras de pano, ainda preciso lavá-las após o uso, mesmo após ter sido imunizado?
Os cuidados com as máscaras devem ser os mesmos de antes da vacinação. “Você pode estar protegido pela vacina, porém a máscara continua com mesmo risco de contaminação. Principalmente no contexto de alta circulação viral atual”, comenta.
Vacinação tem avançando em Santa Catarina – Foto: Carlos Jr/Arquivo/NDDe fato, segundo boletim da Fiocruz divulgado na quarta-feira (14), “a taxa de positividade dos testes permanece alta, o que mostra a intensa circulação do vírus“. A fundação levou em conta dados nacionais.
3) Qual a importância das máscaras agora que as mortes por Covid-19 estão em queda?
Um estudo divulgado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) neste mês sinalizou que, embora a circulação do vírus esteja alta no país, “o número de casos e de óbitos vêm caindo há três semanas em cerca de 2% ao dia”.
Porém, a infectologista adverte que o uso das máscaras continua essencial. “Primeiro, por que a porcentagem da população vacinada ainda é muito baixa. Segundo, a máscara funciona para nos proteger e proteger ao próximo”, explica.
Manutenção das máscaras é uma recomendação dos profissionais de saúde mesmo após vacinação – Foto: Leo Munhoz/NDEla esclarece que, se a pessoa estiver vacinada e, mesmo assim, for contaminada, ela pode até não apresentar sintomas, “porém ainda dissemina o vírus ao ambiente e ao próximo”.
A pesquisa da Fiocruz vai ao encontro da informação. Ela mostrou, por exemplo, que máscaras de pessoas infectadas apresentavam partículas do vírus apenas na parte interna, sugerindo bloqueio de transmissão.
O resultado foi verificado tanto nas máscaras cirúrgicas como nos modelos de pano com duas ou três camadas.
Questionada pelo ND+, a própria Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) alertou que os estudos de vacinas conduzidos até o momento estão mais focados na redução das complicações e no agravamento da doença. “Não há dados conclusivos em relação às vacinas atuais no que diz respeito a transmissibilidade do vírus”, concluíram, em nota.
4) Ainda preciso usar máscaras para fazer atividades físicas?
Justamente por causa da alta circulação viral e dos casos assintomáticos, as máscaras continuam necessárias inclusive para a prática de esportes. A recomendação segue para ambientes internos e externos. Este também é um alerta da Fiocruz desde 2020.
As novas variantes, segundo Ana Paula Bertuol, também acendem um alerta, implicando na necessidade de ainda mais cuidado. “Elas têm altíssimo potencial de contaminação, o que torna completamente inviável e perigoso o abandono das máscaras”.
5) Afinal, o que é preciso para que não tenhamos mais que usar máscaras?
Conforme a infectologista da Dive, para considerar a possibilidade do não uso de máscara é necessário que cerca de 80% da população com mais de 18 anos esteja devidamente imunizada – ou seja, vacinada com duas doses ou com vacina de dose única.
Mas não é só isso. Deve haver, ainda, “uma importante redução nas taxas de infecções, taxa de internações e números de mortes”. Bertuol enfatiza que “somente com vacinação em massa, distanciamento social e uso de máscaras, conseguiremos controlar a pandemia”.