Atendimento pode demorar 7 horas nas Upas de Florianópolis

Pacientes na Upa Sul, do Rio Tavares, esperam deitados ou sentados fora da unidade, que sente pressão por surtos de Covid-19 e gripe

Nícolas Horácio Florianópolis

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Valter Dutra de Souza e Cibele Aparecida de Paula foram com Gabriela Aparecida de Souza para o médico às 8h50 de terça-feira (4). Eles moram no Rio Tavares, em Florianópolis, e levaram a menina na Upa (Unidade de Pronto Atendimento) Sul de onde saíram somente por volta das 16h. Foram sete horas de sofrimento. Gabriela sentia dor de cabeça e febre há dois dias.

Família esperou 7 horas por atendimento na Upa Sul terça-feira (4) – Foto: Leo Munhoz/NDFamília esperou 7 horas por atendimento na Upa Sul terça-feira (4) – Foto: Leo Munhoz/ND

Segundo relato da mãe de Gabriela, ela não tinha problema respiratório e a família ficou à toa perto de pacientes com Covid-19. Questionada sobre como estava se sentindo, Gabi foi econômica: “Cansada”.

“Ficamos preocupados e trouxemos ela cedo, pensando em ir embora cedo também, mas terminou só agora”, disse o pai. Chateado com a demora, reclamou da falta de estrutura da Upa e disse que viu muita gente exposta à chuva, na frente do local, aguardando ser chamado. Também relatou que a lotação era visível desde a manhã.

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De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a Upa Sul tem 11 profissionais afastados, mas a equipe médica está mantida e houve algum prejuízo na equipe de enfermagem em alguns plantões. “Estamos recompondo com nova chamada de RH e acionamento de sobreaviso quando necessário”, informou a secretaria em nota.

“Demanda triplicou”, diz funcionário

Surtos de Covid-19 e gripe explicam as lotações nas unidades de saúde de Florianópolis. O volume de atendimentos na Upa Sul triplicou, segundo um funcionário da unidade que preferiu não se identificar. Ele disse que nunca viu tanta gente na fila de espera. Na tarde daquela terça, por volta das 16h, cerca de 60 pessoas aguardavam atendimento fora da Upa.

Outra funcionária, que também preferiu não se identificar, disse que a demanda de terça não foi das maiores, comparada a dos últimos dias. Para quem estava na fila, dor, cansaço e espera, muita espera.

Muitos pacientes resolveram esperar deitados em frente a Upa Sul na terça – Foto: Leo Munhoz/NDMuitos pacientes resolveram esperar deitados em frente a Upa Sul na terça – Foto: Leo Munhoz/ND

Foi o caso da idosa Selma Chiesorin, 61 anos, que chegou na Upa às 9h com a filha. Professora no Paraná, passa férias em Santa Catarina na casa da filha. “Não sei se estou com Influenza ou Covid-19. Sinto prostração, dor de cabeça muito forte, garganta trancada. Febre não tive”, relatou Selma, com os sintomas há três dias.

A filha dela desistiu do atendimento por volta das 11h e recorreu ao plano de saúde. No meio da tarde, vencida pelo cansaço, Selma usou a bolsa de travesseiro e o gramado na entrada da Upa de cama. “A última vez que eu estive ali na recepção tinha 30 pessoas na minha frente. Sinceramente, acho um absurdo, uma tristeza”, lamentou.

Letícia também esperou horas por atendimento na Upa Sul terça-feira – Foto: Leo Munhoz/NDLetícia também esperou horas por atendimento na Upa Sul terça-feira – Foto: Leo Munhoz/ND

A gaúcha Letícia Franco da Rocha também está com sintomas e não sabe se tem Covid ou gripe. Ela esperava encostada numa placa. “Cheguei aqui eram 11h. Estou esperando há mais de quatro horas. Não me disseram nada, só passaram na triagem e pediram para esperar”, disse Letícia, que tem um quadro de tosse e febre. Ela não sabe se teve contato com alguém infectado. Procurou atendimento por causa do mal-estar.

Aumenta também a procura por testes da Covid-19

Também na terça, a partir das 14h, uma funcionária da Prefeitura de Florianópolis, técnica de enfermagem, repetia a todos que procuravam testes gratuitos para Covid-19: “Os testes acabaram, só teremos mais amanhã [nesta quarta-feira, 5] a partir das 8h30”.

Fila na Sead-UFSC na terça-feira (4) – Foto: Leo Munhoz/NDFila na Sead-UFSC na terça-feira (4) – Foto: Leo Munhoz/ND

Ela estava à frente da Sead (Secretaria de Educação a Distância) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), na rua Dom Joaquim, centro de Florianópolis. No local, a prefeitura realiza testes em assintomáticos, mas isso vai mudar. Dezenas de pessoas saíram dali na terça com a promessa de reabertura apenas no dia seguinte.

“Quem tem sintomas precisa fazer agendamento, passar em Upa, posto, ou ligar para o Alô Saúde”, disse a funcionária. Segundo ela, muitas pessoas procuraram testes pela exposição nas festas de fim de ano. Foi o caso do professor Marco Antônio Machado.

“Tentei em algumas farmácias, mas no Santa Mônica e Trindade não tinha nenhuma fazendo e decidi vir aqui. Sabia que tinha fila, mas consegui fazer”, disse o professor. Ele chegou às 11h40 na Sead e saiu às 14h50, felizmente, com o resultado negativo para Covid-19.

O professor Marco Machado com o resultado que significa alívio para ele – Foto: Leo Munhoz/NDO professor Marco Machado com o resultado que significa alívio para ele – Foto: Leo Munhoz/ND

“Alívio! É muito bom ter esse serviço. Uma pena que já fechou e que tenha começado tão tarde. Essa política da testagem deveria ter começado mais cedo na pandemia”, enfatizou.

Henrique Amorim Vilani teve contato com pessoas que testaram positivo e quis fazer o teste por segurança. Até o resultado do exame, que deu negativo, foram três horas de espera.

“É chato. Ninguém gosta de ficar todo esse tempo esperando, mas é necessário”, ressaltou Vilani. Ele estava com a irmã, Isabela Amorim Vilani, que também foi ao réveillon com pessoas infectadas. Para ela, mais um teste com resultado negativo.

Henrique e Isabela receberam resultado negativo no teste da Covid-19 – Foto: Leo Munhpz/NDHenrique e Isabela receberam resultado negativo no teste da Covid-19 – Foto: Leo Munhpz/ND

A estudante da UFSC, Gabriela Morais não teve a mesma sorte na busca pelo teste, pois não chegou a tempo. “Um amigo meu que vi há dois dias deu positivo e achei melhor testar. Mas disseram que só amanhã, porque superlotou. Eu vou voltar”, disse Gabriela.

Medidas para enfrentamento

Na tarde de terça, o secretário municipal de Saúde, Carlos Alberto Justo da Silva, disse que o prefeito Gean (Dem) convocou uma reunião para definir como será o enfrentamento da Covid-19 na Capital. Justo elencou as medidas que serão adotadas.

“Testar maciçamente e isolar; fiscalizar esse isolamento; divulgar a continuidade do uso de máscara, higienização, evitar aglomerações; continuar vacinando; chamar a população que ainda não tomou todas as doses e aumentar a capacidade de atendimento”, explicou o secretário.

Deitado, sentado ou em pé, esperar sempre é uma agonia – Foto: Leo Munhoz/NDDeitado, sentado ou em pé, esperar sempre é uma agonia – Foto: Leo Munhoz/ND

Justo também informou que haverá mudança no local de testagem dos assintomáticos. Em vez de seguir fazendo testes na Sead-UFSC, a prefeitura fará em dois ginásios, um no Norte da Ilha e outro no Centro.

Em relação ao aumento na capacidade de atendimento, o secretário disse que será para aumentar o número de pessoas que fazem testes nos pacientes sintomáticos e a capacidade de atendimento nas Upas e centros de saúde.

O secretário pontuou que a pressão maior é no Norte da Ilha, que o auditório do centro de saúde dos Ingleses será transformado em três consultórios. O horário de atendimento será estendido para 22h no bairro.

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