O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta pessoas de todos os gêneros e raças. Como o autismo é um transtorno do espectro, nem todo mundo experimenta da mesma maneira. O que acontece é que alguns sinais precoces podem até ser negligenciados ou diagnosticados erroneamente em mulheres.
Isso significa que as meninas autistas se comportam de maneira diferente? Novas pesquisas sugerem que o diagnóstico dos homens seja mais realizado, não por um menor predomínio mas, sim, porque os padrões comportamentais em meninas e mulheres podem ser diferentes e muitas vezes não reconhecidos.
Transtorno atinge cerca de 1% a 2% da população mundial – Foto: Polina Kovaleva/Pexels/Divulgação/NDO TEA (Transtorno do Espectro do Autismo) é uma condição que afeta a maneira como as pessoas se comportam, socializam e se comunicam com os outros. Estima-se que, atualmente, o Brasil tenha cerca de 2 milhões de autistas, com aproximadamente 407 mil somente no Estado de São Paulo.
SeguirDe acordo com dados da OMS (Organização Mundial de Saúde), estima-se que 1 a cada 160 crianças em todo o mundo tenha TEA, e junto disso há uma enorme disparidade nos diagnósticos por gênero.
Um estudo de 2013 envolvendo quase 2.500 crianças autistas sugere que muitas vezes o transtorno é subdiagnosticado em mulheres. O que poderia explicar por que autismo é cerca de quatro vezes mais comum em meninos do que em meninas.
A pergunta é: os sintomas do autismo e sua gravidade podem diferir entre os sexos?
Sintomas
Os sintomas do autismo geralmente aparecem na primeira infância, antes dos 2 anos de idade. Por exemplo, os bebês podem não fazer contato visual. Em alguns casos, eles podem mostrar indiferença em relação aos pais.
Segundo a neuropsicopedagoga Rachel Tellis Zimerfeld, entre os sintomas estão: “preferência em excesso por determinados objetos, texturas, cores e jogos; seletividade de alimentos; podem demorar para engatinhar, andar, falar e até mesmo regressão da fala entre 1 e 2 anos”.
“São caracterizados por pouca interação social e dificuldades no sono; parecem não ouvir quando chamados; dificuldade de interação social, comunicação e comportamentos restritos e repetitivos”, pontua.
Ainda assim, o autismo é um transtorno do espectro, e nem todas as crianças autistas apresentam esses sintomas.
Meninas esforçadas, calmas e bem-comportadas não chamam a atenção de professores e médicos – Foto: Pró Autismo Floripa/Reprodução/NDAlgumas meninas com autismo têm sintomas claros, como comportamentos auto estimulantes ou problemas extremos de fala e linguagem. Seus problemas com a comunicação social ou desafios cognitivos são óbvios, e geralmente são encaminhados para ajuda e diagnosticados em uma idade jovem.
Mas o autismo em meninas cujo sintomas são sutis, ou cuja inteligência permite mascarar os sintomas, podem só ser observados na adolescência ou fase adulta. “O que diferencia é que pessoas do sexo feminino teriam comportamentos menos estereotipados, restritivos e repetitivos”, explica Rachel.
Como é o caso da assistente de faturamento Renata Medeiros Lima, de 30 anos, que teve seus sintomas disfarçados desde cedo. Ela conta que de início, começou o tratamento psicológico com 14 anos, devido uma perda na família.
“O meu diagnóstico sempre foi de depressão profunda e ansiedade. Nisso, eu tomei vários tipos de remédio, aí tinha alta, parava e depois de alguma recaída eu tinha que voltar. Sempre senti que os remédios não funcionaram pra mim, ou se funcionavam era por um curto período de tempo”, relembra.
Renata foi diagnosticada aos 29 anos – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/NDEla entrou na faculdade com 18 anos, mas nunca conseguiu se interessar ou finalizar. Renata lembra que trocou muitas vezes de curso e constantemente tinha crises de ansiedade e ataques de pânico que a impossibilitavam de ir à aula. Até que em 2014 ela começou a frequentar o apoio psicológico da universidade.
O diagnóstico
Rachel explica que o processo do diagnóstico é essencialmente clínico, dado a partir das observações da criança, entrevistas com os pais e a aplicação de instrumentos específicos. A questão, porém, é que os critérios foram desenvolvidos com base nas populações predominantemente masculinas.
Renata lembra que a psicóloga cogitou que ela poderia ser autista com altas habilidades, porém ela não acreditou. “Eu achei isso loucura, nem dei bola para o que ela falou. Até porque na época, eu fazia estágio e trabalhava com crianças autistas, então quando ela disse, eu logo pensei: ‘nunca!’”.
O assunto ficou adormecido até 2021, quando foi atrás novamente de terapia, e após os 20 primeiros minutos de consulta, o médico perguntou se ela já havia ouvido falar sobre o Transtorno do Espectro Autista.
“Na hora eu comecei a rir e contei sobre o caso de 2014 e ele me perguntou se eu fosse, se eu gostaria de saber. Eu disse que sim. E, conforme a gente foi conversando, ele viu que era realmente o caso”
Ela se sentia diferente mas não sabia o porquê – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/NDAssim que a possibilidade de ser autista surgiu, Renata lembra que começou a ler e entender mais como funcionava a cabeça de alguém com o transtorno. Ela diz que foi “como se algo se iluminasse” e ela passou a compreender certas atitudes que tinha.
Ela conta que as características vão desde olfato apurado até brincadeira de enfileirar coisa quando mais nova. “Quando eu saía com meus amigos para alguma balada, mesmo que eu estivesse super feliz, não conseguia demonstrar”, diz.
Sintomas em mulheres
Os sintomas do autismo nas mulheres não são muito diferentes dos dos homens. No entanto, pesquisadores acreditam que mulheres e meninas são mais propensas a camuflar ou esconder seus sintomas. Isso é particularmente comum entre as mulheres no extremo de alto funcionamento do espectro do autismo.
Formas comuns de camuflagem incluem:
- forçar-se a fazer contato visual durante as conversas;
- preparar piadas ou frases com antecedência para usar na conversa;
- imitar o comportamento social dos outros;
- imitar expressões e gestos.
Entre outras características de Renata estão o hábito de comprar várias coisas iguais quando gostava, dificuldade em socializar e também o hiperfoco.
“Eu tinha, mas nunca soube o que era. Houve uma época que eu era fascinada pela Sandra Bullock, e daí eu precisava ler tudo sobre ela e saber de tudo, ter várias fotos, ver todos os filmes. Só que na época eu achava que isso era normal, porque é normal uma menina gostar de alguma atriz”, explica.
Meninos são diagnosticados com autismo quatro vezes mais que as meninas – Foto: Mikhail Nilov/Pexels/Divulgação/NDDepois disso, Renata procurou médicos e especialistas no caso e, com 29 anos, ela conseguiu o diagnóstico concreto. “Eu não fiquei chateada, pra mim foi praticamente um alívio. A única coisa que me chateia é eu não ter descoberto antes, para poder entender as minhas atitudes e sentimentos”, diz.
Após o diagnóstico
Ela explica que só contou sobre o diagnóstico para as pessoas mais próximas de si. Renata alega ter receio de alguns familiares, amigos e companheiros de trabalho duvidarem, apesar dos que sabem, a aceitarem e apoiarem.
Agora, Renata tem pesquisado e buscado compreender os sinais e características, lendo e conversando com pessoas com o espectro. “Isso também é muito importante, fazer parte de um grupo com pessoas que me entendem e passam por isso também”.
Ela diz estar em processo de evolução como pessoa, se descobrindo e otimista sobre o futuro.
“Eu comecei a me reparar mais e a tentar não me controlar tanto, embora seja mais complicado porque foram 30 anos escondendo como eu era. Nem eu mesma sei, ainda, como eu sou, mas acho que a parte mais difícil já passou que foi conseguir o diagnóstico e entender a razão de eu ser assim”, finaliza.
Lara foi diagnosticada com apenas 2 anos – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/NDDiagnóstico precoce
É estritamente necessário diagnosticar o autismo precocemente, pois sem identificação, muitas áreas da vida podem ser incompreendidas, angustiantes e desconcertantes, como foi o caso de Renata.
Uma vez diagnosticado, o jovem pode se entender melhor e perceber que não esta sozinho na forma como se sente, e seus pais e profissionais podem aprender a melhor forma de ajudá-los.
A neuropsicopedagoga explica, que é através do diagnóstico precoce que se iniciam as terapias multidisciplinares – com profissionais de diferentes áreas – necessárias e o desenvolvimento das habilidades comunicativas e sociais. “Dessa maneira, a criança tem os estímulos necessários para seu desenvolvimento”, diz Rachel.
Os sintomas nas meninas podem passar despercebidos – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/NDNo caso de Lara Saori, de 6 anos, o diagnóstico veio quando ela completou 2 anos. A designer e mãe de Lara, Carolina Maldonado da Costa, conta que a pequena tinha sinais clássicos de autismo, mas que passaram despercebidos, no primeiro momento, por falta de conhecimento dos pais.
Foi através de uma vídeo chamada com uma prima e pedagoga, que ela pontuou algumas características clássicas e os orientou a buscarem um profissional.
“Assim que assistimos o vídeo que a minha prima encaminhou, sobre os sinais de autismo, nós desabamos. Foi ali que percebemos que a Lara poderia sim ser autista”, relembra Carol.
Carol conta que Lara não falava até os 2 anos de idade e não possuía nenhuma brincadeira funcional. Segundo a mãe, a pequena enfileirava os carrinhos, desarrumava e os enfileirava novamente.
Carol diz que Lara evoluiu muito com o tratamento – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/NDLidando com a descoberta
Carol relembra que toda a gravidez de Lara foi planejada. Eles escolheram o mês que ela iria nascer e iniciaram a suplementação antecipada do ácido fólico. Quando descobriram sobre a possibilidade da pequena ser autista, ela conta que, “foi um choque”.
“Meu marido se sentiu muito culpado. Ele achou que foi culpa dele por conta do remédio do TDH, mas nós também não tínhamos conhecimento”, lembra a designer.
Ela pontua os 5 estágios do luto que muitos pais têm ao descobrir: 1 – negação; 2 – raiva; 3 – barganha; 4 – depressão; e 5 – aceitação.
“No dia que a gente assistiu o vídeo eu chorei muito, mas no outro já estava correndo atrás dos especialistas, procurando consulta urgente para a Lara. Pouco tempo depois ela teve o diagnóstico fechado de autismo moderado”, conta.
Segundo a neuropsicopedagoga Rachel Tellis Zimerfeld, atualmente o autismo é classificado em três níveis, de acordo com o DSM-V (Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais):
“Nível 1 – Leve; Nível 2 – Moderado; e Nível 3 – Severo. O que define os níveis é a quantidade de apoio e suporte que o indivíduo precisa, e não pela ‘gravidade dos sintomas’”, diz.
Assim que Lara foi diagnosticada, o pai e marido de Carol, Dilson Takeyama, também foi diagnosticado com autismo.
Cuidados após o diagnóstico
Depois desse primeiro momento, Carol procurou se inteirar da situação e entender a condição de cada um.
Carol e Lara – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/ND“Pra mim, tudo mudou. Assim que eu comecei a estudar e entender, eu mudei a forma como enxergava. Agora que eu já entendo, eu preciso me manter como uma pessoa precipitada. Eu tenho que precipitar uma crise, estar sempre alerta, não posso ir em qualquer lugar”, explica.
Carol construiu sua rotina com base na de Lara. Ela entendeu que no caso da filha, ela é bastante “rígida”, no sentido de criar um hábito. “Eu estou sempre me precipitando exatamente para não criar essa rigidez”, diz.
“Se a Lara visita um lugar e compra um chocolate, toda vez que ela for novamente lá, ela precisa comprar o mesmo chocolate. Outra coisa também é que eu não posso tirar ela da rotina sem antes prepará-la. Tudo é um cuidado”, conta a mãe.
Formas de tratamento e apoio familiar
Lara faz natação, vai à escola e tem acompanhamento especializado rotineiramente. Antes o nível de autismo na pequena era moderado, agora, após os anos de terapia, ele se tornou leve.
Embora não haja cura, existem muitos tipos de terapias físicas, ocupacionais e de fala que podem ajudá-lo a interagir melhor com o mundo ao seu redor e gerenciar seus sintomas.
“Eu principalmente tentei entender a condição da minha filha. Cada um é diferente. Isso eu considero um acerto como mãe. Não comparei o desenvolvimento de Lara com outros autistas. Eu conheci, entendi e direcionei, sem forçar. Respeitei o tempo dela”, explica.
Lara agora já fala e está aprendendo a escrever – Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/NDA Presidente do Instituto Pró Autismo, Laryssa Smith, ressalta a importância da intervenção precoce, com terapias especializadas. “O tratamento precoce faz toda a diferença, mas ainda é inacessível para grande parte da população, pelo alto custo”, diz.
A Pró Autismo é um projeto social, com apoio da prefeitura e iniciativa privada, que atende crianças e adolescentes autistas em Florianópolis. Atualmente são atendidas 950 crianças com terapias gratuitas, essenciais para o desenvolvimento e busca de qualidade de vida.
“Os projetos voltados para o autismo são importantes para famílias que não conseguem pagar um tratamento privado, ou pela alta demanda, também não conseguem vaga em entidades como as APAEs (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), onde atualmente seria a única forma de tratamento gratuito”, explica.
A conscientização e estudos sobre o autismo em mulheres veem crescendo – Foto: Pró Autismo Floripa/Reprodução/NDEmbora isso seja promissor para as gerações futuras, as mulheres adultas que pensam que podem ser autistas ainda enfrentam desafios para obter um diagnóstico e encontrar apoio. Renata frisa que, ela, por ter descoberto mais velha, não encontrou muito suporte para o autista adulto.
“Há muitas entidades voltadas para crianças, porém, muito poucas – quase inexistentes – voltadas para o adulto. E isso não é uma queixa só minha, só em Florianópolis. Nos grupos que eu participo, várias pessoas de São Paulo e Rio de Janeiro, também reclamam”, complementa.
No entanto, à medida que cresce a conscientização sobre o autismo e suas muitas formas, crescem também os recursos disponíveis.