Baixa vacinação de crianças contra a poliomielite traz risco de volta da doença ao Brasil

Enquanto o ideal seria vacinar 95% do público-alvo, a cobertura no país atinge apenas 50% em 2022

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Fernanda Silva Joinville

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Após mais de 30 anos sem registrar novos casos de poliomielite, a baixa cobertura vacinal faz com que o Brasil volte a figurar como um país com grande potencial para a volta da doença. Enquanto o ideal seria vacinar 95% do público-alvo, a cobertura no país atinge apenas 50% até o momento, o que preocupa especialistas.

Baixo índice de vacinação pode contribuir para a volta da poliomielite ao Brasil – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/NDBaixo índice de vacinação pode contribuir para a volta da poliomielite ao Brasil – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/ND

“Aqui no país, nós temos um risco de reintrodução [do vírus] com esse cenário de baixa cobertura vacinal”, destaca Caroline Gava, assessora técnica do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Programa Nacional de Imunizações.

Em Santa Catarina, as taxas não são tão diferentes do cenário nacional. Foram vacinadas 65,5% da meta total de 391.034 crianças. Cidades da região Norte do Estado, como Joinville e São Francisco do Sul, imunizaram 42,8% e 36,6% do público-alvo.

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Por conta das baixas taxas de vacinação, há alguns anos o Ministério da Saúde vem alertando para um possível retorno da doença. Enquanto em 2022 menos de 50% do público-alvo foi vacinado até o momento, em 2015 a taxa era de 98%, aponta o Instituto Oswaldo Cruz. Portanto, pode ocorrer com a poliomielite o que aconteceu com o sarampo.

Segundo o Instituto Oswaldo Cruz, campanhas de vacinação levaram o país a receber o certificado de eliminação da doença em 2016. Três anos depois, porém, o país perdeu o reconhecimento após não conseguir controlar um surto iniciado na região Norte em 2018, que se espalhou para os demais estados.

Possíveis causas para a baixa vacinação

Para a infectologista Luiza Helena Falleiros Arlant, da Núcleo Assessor Permanente da Slipe (Sociedade Latinoamericana de Infectologia Pediátrica), as causas para a queda das coberturas vacinais são multifatoriais.

Elas envolvem desde o treinamento dos funcionários nas unidades básicas de saúde para não perder oportunidades de vacinar e falar sobre vacinação sempre que as famílias passam pelos postos até as condições de vida dos responsáveis pelas crianças que precisam ser vacinadas.

“Os postos têm que abrir, de preferência, de 7h às 19h, porque hoje você depende do trabalho como nunca e perder um dia de trabalho hoje é perder um prato de comida na mesa. Você não pode exigir que os trabalhadores deixem de ganhar dinheiro para sustentar uma família com o básico para ir ao posto de saúde. E ainda chegar lá e descobrir que a vacina acabou ou que a vacina não veio e ter que voltar no dia seguinte”, argumenta.

O pesquisador do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos Akira Homma lembra que, na década de 1980, havia dias nacionais de vacinação que contavam com a participação de toda a sociedade brasileira e voluntários em milhares de postos de saúde, vacinando 18 milhões de crianças abaixo de 5 anos em dois ou três dias.

“Não sei se conseguiríamos outra vez aquela mobilização, porque os momentos são diferentes, as prioridades são diferentes. Mas a gente tem que buscar uma mensagem, porque a mensagem que está sendo transmitida não está chegando na população, não está tocando a população”, diz o pesquisador.

A própria erradicação da pólio, na opinião do cientista, fez com que a população perdesse o medo e o interesse pela doença, que já foi motivo de pavor de famílias ao redor do mundo ao longo do século 20. “A população hoje pensa que já está protegida, mas não está”, avisa.

Saiba quais são as vacinas disponíveis no SUS

O Sistema Único de Saúde disponibiliza dezenas de vacinas que tem como público-alvo desde crianças a adolescentes, adultos, idosos e gestantes. Cada imunizante possui uma indicação diferente de aplicação, por isso, o SUS possui uma tabela com o nome das vacinas e quais são as faixas etárias para receber cada uma delas.

Poliomielite

A poliomielite pode causar paralisia infantil e registrar casos de óbito, sendo que chegou a ser uma das doenças mais temidas no mundo. Com a vacinação, o Brasil deixou de apresentar casos da doença em 1989 e cinco anos depois, recebeu um certificado de eliminação da doença.

No entanto, com a baixa cobertura vacinal e problemas relacionados à vigilância epidemiológica e condições sociais, o Brasil voltou a figurar como um país de grande potencial para a volta da doença.

“Em uma avaliação de risco feito nas Américas e no Caribe pela Opas [Organização Pan-Americana de Saúde], considerando variáveis como cobertura vacinal, vigilância epidemiológica e outros determinantes de saúde, o Brasil aparece em segundo lugar, como de altíssimo risco para a reintrodução da pólio, só antecedido pelo Haiti”, disse a infectologista Luiza Helena Falleiros Arlant.

*Com informações da Agência Brasil

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