Pesquisador da Fiocruz explica alerta para SRAG em Florianópolis e novo risco da Covid-19

Pesquisadores da Fiocruz observam tendência de aumento desde meados de julho; se o cenário se concretizar, podemos reviver picos de 2020: "não podemos colocar tudo na conta da vacina"

Foto de Felipe Bottamedi

Felipe Bottamedi Florianópolis

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Florianópolis tem grande probabilidade de aumento nos casos de SRAG (síndrome respiratória grave) nas próximas semanas, segundo a Fiocruz. “A ampliação dos casos indica, sobretudo, que a tendência de queda nos casos de Covid-19 acabou”, avalia o pesquisador Marcelo Gomes.

As estimativas são uma bandeira vermelha. Se a previsão se concretizar, a Capital corre risco de enfrentar um cenário semelhante aos dois picos da pandemia registrados em 2020, avalia o pesquisador.

Capital enfrenta tendência de alta nos casos de SRAG – Foto: Leo Munhoz/NDCapital enfrenta tendência de alta nos casos de SRAG – Foto: Leo Munhoz/ND

Gomes coordena o Infogripe, projeto da Fiocruz que classificou na sexta-feira (13), Florianópolis como a única Capital brasileira com forte tendência de aumento. Os cálculos ocorreram em cima dos casos notificados nas últimas seis semanas, e consideram o atraso normal nos registros de SRAG. “Entre os primeiros sintomas e a data da digitação leva um bom tempo. Em alguns Estados, passa de um mês”, explica.

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O agravo é caracterizado por sintomas como a dificuldade em respirar, sensação de peso no peito, menor oxigenação no sangue; pode ser provocado por diferentes vírus (influenza, adenovírus, vírus sincicial, etc). Entretanto, o principal responsável é a Covid-19. Em 2021 até então, 82,2% dos casos da síndrome em Santa Catarina foram provocados pelo coronavírus, segundo a Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica).

A SRAG é o primeiro sinal de fogo do problema. Isso porque, quando ocorre um aumento nos casos de Covid-19, o primeiro indício é justamente o aumento nos sintomas iniciais. Confirmação e internações “vão se mostrar em duas semanas. Já os óbitos aparecem após três ou quatro semanas”, explica Gomes.

Evolução da SRAG em Florianópolis. O pontilhado mostra a “tendência de aumento” registrado pelos pesquisadores – Foto: Fiocruz/Divulgação/NDEvolução da SRAG em Florianópolis. O pontilhado mostra a “tendência de aumento” registrado pelos pesquisadores – Foto: Fiocruz/Divulgação/ND

Projeção aponta pico semelhante aos registrados em 2020

A taxa azul é a média móvel de casos, enquanto a linha preta são os casos informados. O pontilhado representa as expectativas, enquanto a taxa cinza ao redor é a margem de erro. “Ajustamos uma reta na curva das últimas seis semanas e nas últimas três semanas. Com base nela, vemos a declividade: se está crescendo, diminuindo ou está reta, e vemos se os casos estão crescendo ou diminuindo”, explica o pesquisador.

Considerando as últimas três semanas, a probabilidade de crescimento é de 75%. Se considerarem seis semanas, sobe para 95%. A tendência começou na segunda quinzena de julho. “Aí que começou a tendência de crescimento. Mas não está claro se a retomada do aumento vai se sustentar ou é apenas uma oscilação”, pondera Gomes.

Mesmo que a projeção se confirme, ainda estaremos longe do pico de casos que ocorreu em março deste ano – o pior de toda pandemia. “Mas nos aproxima do que foi registrado em novembro e julho do ano passado, os piores picos do ano passado”, alerta o pesquisador.

Situação em Santa Catarina mostra mudança do perfil da doença com a vacinação – Foto: Fiocruz/Divulgação/NDSituação em Santa Catarina mostra mudança do perfil da doença com a vacinação – Foto: Fiocruz/Divulgação/ND

Aumento não se compara a março, mas preocupa

O último mês de março, quando Santa Catarina chegou a perder 210 moradores em um único dia, foi traumático. O medo pode nos impelir a ver conforto em meio ao caos. Mas na verdade o Estado, e Florianópolis, ainda está longe do que pode ser considerado o “melhor momento da pandemia”, que foi o mês de agosto de 2020.

“Seria o ‘menos pior’, mas ainda não chegamos lá. E agora surge esse risco de retomada. Mesmo que a projeção não se confirme, e seja apenas um crescimento, ela nos mantêm em um patamar muito elevado que exige muita cautela”, ressalta.

A Secretaria de Saúde de Florianópolis preferiu não se manifestar, pois não tem acesso ao banco de dados e as metodologias adotadas pela Fiocruz.

Situação em Santa Catarina

O pesquisador atribui a piora às flexibilizações, como a liberação das atividades e volta das aulas presenciais. “Se a comunicação de cuidado e cautela não é bem-feita, é comum que as pessoas tenham descuidos quanto ao uso de máscara e outros fatores que facilitam a transmissão do vírus. É o que explica a mudança de tendência”, explica.

O boletim aponta que as demais microrregiões de Santa Catarina estão em tendência de estabilidade ou queda tanto em curto como em longo prazo. As microrregiões do Sul, Vale do Itajaí e Grande Oeste estão no último grupo.

A vacina, como mostra o segundo gráfico, diminui drasticamente o número de internações, mas não é 100% eficaz. “Se aumento muito a exposição, aumento muito o número de casos e as internações, consequentemente, vão aumentar. Não podemos colocar tudo na conta da vacina. Se negligenciarmos o resto, não dá. Nesse momento não dá, a transmissão ainda é muito alta”, concluí.

Notificações de SRAG em Florianópolis

MAIO

  • 1 a 10 de maio: 713 novos casos;
  • 10 a 19 de maio: 88 novos casos;
  • 19 a 24 de maio: 103 novos casos; e
  • 24 a 31 de maio: 70 novos casos.

JUNHO

  • 31 de maio a 7 de junho: 62 novos casos;
  • 7 a 21 de junho: 44 novos casos; e
  • 21 a 28 de junho: 45 novos casos.

JULHO E AGOSTO

  • 28 de junho a 7 de julho: 62 novos casos; e
  • 12 de julho a 10 de agosto: 214 novos casos.