Florianópolis não começou o ano de 2021 com o pé direito com relação à pandemia da Covid-19. Isso porque os casos ativos da doença na Capital catarinense aumentaram 120% após o feriadão de Ano-Novo.
Aglomerações foram registradas na Praia dos Ingleses, no Norte da Ilha, nos últimos dias de 2020 – Foto: Anderson Coelho/NDAlém disso, a região da Grande Florianópolis voltou ao nível gravíssimo (vermelho) da Covid-19 no mapa de risco estadual, divulgado na última quinta-feira (7).
Nesta segunda-feira (11), Florianópolis contabiliza 1.609 casos ativos da doença, segundo os dados do covidômetro da prefeitura municipal. A taxa de ocupação dos leitos de UTI está em 71.91%.
SeguirO número de casos é reflexo de aproximadamente duas semanas atrás, uma vez que, conforme especialistas, os primeiros sintomas da doença aparecem de 7 a 14 dias após a infecção. É o chamado período de incubação do vírus.
Vale ressaltar que nem todas as pessoas infectadas desenvolvem sintomas da Covid-19. Contudo, a Organização Mundial de Saúde afirma que mesmo os assintomáticos podem transmitir a doença.
Confira os casos ativos por data em Florianópolis:
- 21 de dezembro de 2020: 1.628 casos ativos
- 28 de dezembro de 2020: 1335 casos ativos
- 04 de janeiro de 2021: 730 casos ativos
- 11 de janeiro de 2021: 1.609 casos ativos
Para Lúcio Botelho, epidemiologista e professor da UFSC (Universidade Federal do Estado de Santa Catarina), o aumento de casos é fruto de um “desgoverno” no nível municipal e estadual.
O motivo do agravamento do quadro da pandemia seria a liberação de atividades e espaços que causam aglomeração, tais como baladas, restaurantes e praias. O professor também cita a liberação de 100% na taxa de ocupação dos hotéis.
“Aglomerou, não usou proteção individual, não tem como, o vírus está circulando ainda com intensidade gigantesca. Para mim, a grande questão é que ainda vamos ficar no gravíssimo por muito tempo. O afrouxamento é consequência da ausência de governo”, disse Botelho.
Na visão do especialista, se passou a responsabilizar, sobretudo, o comportamento das pessoas no que diz respeito ao aumento de casos, mas “não é assim que funciona”.
“Autorizar a reabertura de quase todas as atividades, como foi feito no Estado, a meu ver, equivale a autorizar o motorista a dirigir bêbado. As autoridades sabiam que iam expor as pessoas à infecção e à morte pelo vírus”, destaca Lúcio.
Aglomerações mantêm curva de contágio alta
Com os constantes registros de aglomeração, é difícil enxergar um cenário menos grave no futuro.
O epidemiologista diz que as aglomerações são grandes focos de transmissão da doença. Várias pessoas acabam contaminadas em uma única aglomeração.
Reflexo disso é a alta taxa de transmissão da Covid-19. A taxa de transmissão serve como uma estimativa de como a doença se espalha entre a população.
Assim, quando esse número é menor ou igual a 1, espera-se queda no número de casos. E, quando maior que 1, espera-se um aumento no número de casos.
Botelho explica que quando a taxa de transmissão aponta 1.3 ou 1.4, pode-se interpretar que cada 10 pessoas podem infectar outras 14. Essas, sentirão os primeiros sintomas de 7 a 14 dias depois. E a tendência é que a continuidade dos registros de aglomeração gere ainda mais casos de Covid-19.
“Se as aglomerações não pararem – como estamos vendo – a curva de contágio vai continuar alta e os números de casos também. Gera uma cadeia que sabemos como começa, mas não sabemos como termina. É um fenômeno coletivo de massa”, diz.
A contínua taxa alta de transmissão da doença mantém o pico em platô. Isso significa que a taxa se estabilizou em um nível alto. É por essa razão que Botelho afirma que o Brasil nunca saiu da primeira onda da Covid-19.
“Somos o único país do mundo que manteve a taxa de transmissão da doença em platô. A taxa sempre foi alta, nunca diminuímos a curva. Nunca entramos em uma segunda onda. Continuamos na primeira porque não zeramos a curva, não tivemos uma queda brusca de casos. As pessoas continuam se contaminando”, comenta.
O que diz a prefeitura
Questionada sobre o aumento de casos ao longo da primeira semana de janeiro de 2021, a prefeitura de Florianópolis, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, informou que em dezembro houve menor procura por parte da população para realização de testes para a doença.
Isso quer dizer que os dados de dezembro podem estar subestimados e o aumento não seja tão brusco como o observado.
A Secretaria também disse que, nos últimos dias, foi observado aumento da procura pelos testes, facilitando o diagnóstico.
Há também o efeito de aglomerações. Com mais pessoas circulando na cidade, a Secretaria considera que a manutenção do distanciamento é mais difícil. A Prefeitura atende denúncias para contê-las.