Cientista da UFSC avalia os prós e contras da vacina contra Covid-19 anunciada pela Rússia

Oscar Bruna Romero, do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia, que estuda vacinas há mais de 30 anos, explica como é feita a vacina e a importância de se cumprir todas as fases

Raquel Schiavini Schwarz Joinville

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Após o anúncio da vacina anti-Covid-19 pela Rússia e a polêmica a respeito da falta de publicação de estudos e conclusão dos ensaios clínicos da fase 3, o nd+ conversou com um cientista da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O professor Oscar Bruna Romero, do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia, do Centro de Ciências Biológicas da UFSC, é especialista em saúde pública e pesquisa vacinas há mais de 30 anos.

Oscar Romero, cientista da UFSC – Foto: Arquivo pessoalOscar Romero, cientista da UFSC – Foto: Arquivo pessoal

Ele participa das decisões e colabora com a universidade catarinense nas pesquisas em relação às vacinas e acompanha de perto as inovações científicas acerca do novo coronavírus desde o início da pandemia.

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Nesta entrevista, o cientista analisa o anúncio da vacina pela Rússia, explica a importância de se cumprir todas as fases para garantir a eficácia de proteção em massa, explica como é feita a vacina, cita os eventuais efeitos colaterais e conclui dizendo que, como cientista, seu único interesse é acabar com uma pandemia que está matando muita gente.

Confira a entrevista, na íntegra:

nd+: Após o anúncio da vacina pela Rússia, houve reações da comunidade internacional. A OMS diz que não vai recomendá-la sem os resultados dos ensaios clínicos das fases 1, 2 e 3. O que o senhor pensa a respeito desse anúncio da Rússia? Precipitado, ousado ou apenas uma tentativa de acelerar algo esperado globalmente?
Oscar Bruna Romero:  a vacina foi feita usando um veículo (vírus) que já conhecemos, levamos vários anos testando. Porém, não conhecemos com exatidão até onde ela vai dar problemas ou não e isso é necessário em qualquer tratamento terapêutico, como uso da cloroquina, por exemplo. Não podemos improvisar e achar que sem teste prévio vai funcionar. A vacina é a mesma coisa: há vários passos a serem cumpridos em seu desenvolvimento.

Não é conveniente aprovar nada antes da finalização da última fase, nem que isso seja previamente conhecido.

Então, conhecemos o formato da vacina russa razoavelmente bem, mas certamente temos de aguardar finalizar os ensaios de fase 3. Isso não quer dizer que ela não tenha todos os pré-requisitos ou que ela não vá funcionar. É uma medida de precaução para ver os efeitos adversos se tiver, o grau de proteção, se terão grupos de população onde a vacina será mais ou menos eficiente. Mas isso não quer dizer que não seja um excelente candidato vacinal, a priori.

nd+: O fato de não ter cumprido todas essas fases e a vacinação já estar sendo anunciada para dezembro na Rússia, seria um risco aplicar na população?
Romero:
no mundo, somos diversos. A cultura da Rússia é diferente, o que não quer dizer que seja malfeito, tanto que eles são uma potência em nível científico. Eles seguem alguns padrões parecidos aos nossos e outros que não acham razoável esperar tanto tempo e, por isso, avançam mais rápido. Mas, pelos padrões da OMS e dos países ocidentais, deveríamos esperar até a finalização da fase 3. Entretanto, a Rússia entende que já passou pela fase 1 – que provou que a vacina não tem efeitos adversos na população -; já estudou nos animais previamente; já passou pela fase 2, sabendo que induz anticorpos muito bem e agora estamos discutindo se  tem de finalizar a fase 3 ou não, que é a fase que indica o nível de proteção e se existirão efeitos adversos quando testamos em uma população muito grande. Então, certamente, pelos padrões ocidentais, deveríamos aguardar.

nd+: O que diferencia a fase 2 da fase 3?
Romero
: falta o teste em massa na Rússia. A diferença entre as fases 2 e 3 é o número de pessoas. É preciso deixar essas pessoas que já foram imunizadas na fase 2 viverem suas vidas normalmente para ver se elas se infectam ou não. Elas já entram para contar para fase 3, porém o número é reduzido (pouco mais de 100). O fato é que a fase 3 exige uma amostra maior de indivíduos porque há casos excepcionais que só aparecem quando se aumenta o número. Então, para nossos padrões, não podemos liberar nenhum remédio, nenhuma vacina, sem ter certeza que os benefícios superam de longe qualquer problema adverso que o remédio/a vacina possa causar. Já a Rússia acredita que o risco de estar com a doença é mais prejudicial comparado ao eventual prejuízo da vacina.

nd+: Qual, então, seria um prazo seguro para se ter uma vacina passível de aplicação em massa?
Romero: no caso da Rússia, são duas doses com intervalo de três, quatro semanas. Em um mês, estaria todo mundo vacinado. O problema é que, uma vez vacinadas, é preciso acompanhar essas pessoas para saber se elas vão pegar Covid-19 ou não em relação ao resto da população. Esse acompanhamento é o que leva mais tempo. Tem de dar a chance de ficar doente e isso pode levar meses. A Universidade de Oxford, por exemplo, já está na fase 3 há semanas e agora está aguardando para ver se as pessoas vacinas vão ou não pegar a doença. Por isso, a universidade não concluiu nada a respeito da proteção. Então, leva um tempo, pelo menos três meses, em uma área que tenha doença ativa, como, por exemplo, Santa Catarina.

O Estado de SC seria um ótimo alvo para testar qualquer vacina porque temos a infecção
ativa aqui.

O prazo seguro, portanto, para uma vacina tem de ser definido pelos resultados que ela teve, se foi bem documentada, se ela protege e qual porcentagem de proteção, se as análises imunológicas foram feitas bem como os efeitos adversos.

ESTRUTURA PARA DESENVOLVER A VACINA

nd+: Falando de Santa Catarina, o que temos hoje de estrutura no Estado para eventualmente fazer um acordo e desenvolver a vacina, já que o  Estado vizinho Paraná já anunciou parceria com a Rússia?
Romero: Não por culpa de SC, mas pelo cenário nacional, o investimento nos últimos anos em pesquisa e desenvolvimento não tem sido grande. Por isso, temos um entrave maior aqui no Estado em relação ao Paraná, que está adiantado em bioprocessos, necessários para fabricar a vacina. Mas eu sou professor da UFSC e dediquei 30 anos da minha vida a fazer esse tipo de vacina. Tenho patentes e registradas no Brasil com o mesmo tipo de veículo (vírus) que a Rússia está testando agora. A minha vacina era contra malária, mas o veículo é idêntico, ou seja, seria aplicável ao coronavírus, mas neste País não financiaram as pesquisas e não consegui fazer ensaios em seres humanos.

nd+: Pode explicar como é desenvolvida a vacina?
Romero: 
ela é feita por meio de um vírus comum, inofensivo. Mas  são colocados dentro dele as proteínas do coronavírus. E, através de uma injeção e inalação pode imunizar o ser humano. É como um vírus inativado da gripe. Ele entra em nós, mas não é capaz de causar a infecção, só causa a resposta imunológica.

nd+: E quanto à segurança da vacina, falta de publicação de estudos comprovando resultados, qual sua visão?
Romero: este veículo (vírus base do qual parte o desenvolvimento vacina) a gente pega ao logo da vida, não é mortal. Então, a princípio, o veículo (vírus) não deveria gerar problemas e menos ainda porque ele está inativado. Então é um veículo bem conhecido e estudado há décadas. A maior novidade são as proteínas do coronavírus que estamos colocando dentro desse veículo. A princípio, as proteínas escolhidas também não deveriam causar problemas de toxidade, mas é conveniente sempre testar o conjunto independentemente das partes. Então, precisamos aguardar a fase 3 para ficarmos completamente tranquilos e sabermos os limites dos benefícios dessa vacina.

nd+: que tipos de efeitos colaterais já se conhecem?
Romero: deste veículos (vírus) em particular, sabemos que causa febre em alguns pacientes porque o organismo está criando uma resposta imunológica. Inflamação também pode ocorrer, em doses muito altas. E também pode haver interação com outros adenovírus (que causam doenças respiratórias) que as pessoas possam estar sendo infectadas agora no inverno, por exemplo. Pode ocorrer recombinação entre os dois vírus e sair uma nova doença.

nd+: Houve precipitação da Rússia, ao seu ver. Até onde isso pode ser benéfico ou maléfico?
Romero:
como cientista, o meu único interesse nesse momento é acabar com uma pandemia que está matando muita gente. Portanto, a vacina que demostrar que está funcionando eu vou usar, não importa a origem.

Não olho países nem ideologias políticas, só olho a vacina que tenha completado todos os estudos e que demonstram sua eficácia e segurança. Isso é o que move como cientista.

nd+: Como estão os estudos da UFSC em relação a vacinas?
Romero:
há várias linhas de pesquisa em andamento. Tenho colegas de departamento que estão desenvolvendo vacina baseada na vacina da tuberculose, colocando dentro proteínas do coronavírus. É um tema importante no mundo inteiro e a UFSC não ficará de fora.