Os casos ativos de Covid-19 voltaram a crescer em Santa Catarina nesta última semana, após quase dois meses e meio de melhora. O agravamento é visto em todas as regiões, exceto a Foz do Itajaí e o Sul. Mesmo com um quarto dos moradores vacinados com as duas doses, número ainda tímido, a situação expõem a necessidade de medidas para conter a propagação do vírus. E que não sejam somente a imunização.
Aliado a vacinação, medidas como máscara, isolamento e álcool gel devem ser mantidos- Foto: Leo Munhoz/NDPor dia, cerca de 1427 moradores catarinenses contraíram o vírus e 23 morreram entre 6 e 13 de agosto – foram 9987 casos e 162 mortes no período. Considerando todas as infecções do período, o número de casos ativos é de 12.599, uma taxa 5% superior ao da semana anterior, mostra o boletim da Covid-19 do Necat (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense da UFSC), divulgado no sábado (14).
Há bem menos pessoas com o vírus do que o registrado em março deste ano, pior momento da pandemia, quando quase 39 mil moradores estavam infectados simultaneamente. Mesmo assim, agora temos mais pessoas doentes do que tivemos em qualquer um dos meses março (de 2020) e outubro do ano passado, por exemplo.
SeguirChapecó é onde a situação é mais grave, pois os casos ativos aumentaram 57% em uma semana – passaram de 654 para 1029. A situação é séria também em Florianópolis, onde pesquisadores da Fiocruz identificaram tendência alta para aumento dos casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave). O sintoma inicial é uma sentinela do aumento nas infecções de Covid-19.
Avanço do número de casos ativos por região, desde outubro de 2020. Alta no número de casos ativos ocorre após mais de dois meses em queda – Foto: Necat/Divulgação/NDVacinação é fundamental, mas não pode ser isolada
Considerando o período de 14 dias, os dados mostram estabilidade. Ou seja, pode ser agravamento da pandemia ou apenas oscilação. “Mesmo diante deste cenário, o governo estadual recentemente flexibilizou praticamente todas as medidas restritivas, passando a apostar apenas no avanço da vacinação como estratégia de controle da pandemia”, problematiza Lauro Mattei, professor responsável pelo o boletim.
Eventos de grande porte liberados em todos os níveis de risco, diminuição do distanciamento entre as mesas das escolas e volta do serviço presencial nas repartições públicas são algumas das liberações que ocorreram nas últimas semanas. A vacina, apesar de ser responsável pelo fim das filas para leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), o que ocorreu em meados de julho, ela não é 100% efetiva.
“Não podemos por tudo na conta da vacina para nos proteger. Se depositarmos todas as nossas fichas de cuidado na vacina e não fizermos o resto, como usar máscara, evitar aglomeração e manter os ambientes arejadas, não vai dar. A transmissão ainda é muito alta. Se depositarmos tudo na vacina e negligenciarmos todo o resto, vamos ver a retomada de crescimento”, ressalta Marcelo Gomes, pesquisador da Fiocruz.
Exemplo internacional
O erro de investir apenas na imunização como medida de defesa já foi atestado no exterior. Agora Israel, por exemplo, cogita a adoção do lockdown, mesmo com mais de 80% da população adulta vacinada, por conta de um novo surto de Covid-19. Além das aberturas, parte da responsabilidade é da variante Delta, que também preocupa a Secretaria de Saúde de Santa Catarina.
Estados Unidos e Inglaterra são dois outros exemplos. O primeiro lida com o forte movimento antivacina, assim como com a propagação da variante indiana. “Para aumentar a adesão da vacina, tiraram a obrigatoriedade da máscara. O que levou a explosão do número de casos”, explica Gomes.
“Esses países estão com cobertura vacinal bem maior que a nossa. Mas baixaram a guarda demais e sofreram um revés. A sorte é que, com a vacina, não foi tão dramático. Mas não deixou de ser ruim”, afirma o pesquisador. “Mostra que ainda não alcançamos o momento de fazer realmente uma flexibilização ampla e segura. Até podemos fazer. Mas não vai ser seguro”.