O novo decreto divulgado pelo governo do Estado nesta quarta-feira (14) agradou alguns setores, mas também trouxe preocupação a especialistas que acompanham de perto os dados da Covid-19 em Santa Catarina desde o início da pandemia.
Com casos e mortes ainda altos, liberação de medidas em SC gera crítica de especialistas – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/NDEntre as mudanças mais significativas do documento, estão a extinção da restrição do horário de funcionamento de serviços e atividades, como bares e restaurantes e a volta ao trabalho presencial nas repartições públicas estaduais.
Artigo publicado pelo Necat/UFSC (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense da Universidade Federal de Santa Catarina) nesta sexta-feira (16) traz indicadores que embasam a crítica à estratégia do Estado de flexibilizar medidas de combate à pandemia.
Seguir“A nosso ver, esse é um equívoco que poderá cobrar seu preço mais adiante, como aconteceu com o famigerado decreto de dezembro de 2020, o qual flexibilizou um conjunto de atividades visando atender interesses de setores preocupados com a temporada de verão que se avizinhava”, argumenta o coordenador do Necat, professor Lauro Mattei.
Média semanal móvel de casos
De acordo com o Necat, desde o final do mês de março, o número de casos da Covid-19 vem se mantendo em um nível estável, porém bastante elevado. Isso fez com Santa Catarina assumisse a segunda maior taxa de incidência da doença no país a cada 100 mil habitantes.
“Por mais que nas últimas semanas tenha sido observada uma tendência de queda desse indicador, o patamar de 2.296 novos casos diários registrado em 9 de julho ainda pode ser considerado bastante grave”, alerta o boletim.
Média semanal móvel do número de casos diários em SC em datas selecionadas do ano de 2021 – Foto: Boletim NECAT-UFSC/Reprodução/NDO documento aponta que o melhor comportamento da curva de contágio durante toda a pandemia foi verificado no mês de setembro de 2020, quando a média semanal móvel ficou ao redor de 900 casos diários.
Média semanal de óbitos
Com relação às mortes causadas pela Covid-19, o Necat mostra que o patamar registrado no dia 9 de julho é superior aos números contabilizados em janeiro até meados de fevereiro.
“Isso revela que o indicador de 43 mortes diárias ainda é produto de um processo elevado de contágio existente no Estado”, afirma.
O boletim destaca que, mesmo que a média semanal móvel de óbitos tenha apresentado uma tendência de queda recentemente, o atual patamar do indicador ainda é extremamente elevado quando comparado com períodos anteriores que registraram valores abaixo de 10 mortes por dia.
Média semanal móvel do número de óbitos diários em SC em datas selecionadas do ano de 2021 – Foto: Boletim NECAT-UFSC/Reprodução/NDTaxa de transmissão
Em 5 de julho, a taxa de transmissibilidade da doença no Estado estava em 0.99. O boletim explica que esse número de reprodução (Rt) é o indicador que mede a taxa de transmissão do vírus na população.
Quando o Rt é igual ou maior que 1, significa que o vírus continua circulando com força e que o cenário ainda é de gravidade.
Evolução da taxa de transmissão do vírus (Rt) no estado de SC em datas selecionadas de 2021 – Foto: Boletim NECAT-UFSC/Reprodução/NDPara o boletim, isso justificaria a adoção de medidas restritivas capazes de achatar a curva de contágio e estabelecer as condições para reduzir a incidência da doença e a própria mortalidade.
Evolução dos casos ativos
Atualmente, há em torno de 18 mil casos ativos da Covid-19 em Santa Catarina. Considerando que ao final do mês de junho o indicador apontava 21 mil registros ativos, houve um pequeno recuo em julho.
Evolução dos casos ativos em Santa Catarina entre 21.05.2020 e 09.07.2021 – Foto: Boletim NECAT-UFSC/Reprodução/NDContudo, mesmo com as reduções registradas recentemente, para o Necat, o patamar atual continua indicando a alta contaminação da população catarinense e a possibilidade de novas sobrecargas no sistema de saúde.
Vacinação e leitos de UTI
O Estado flexibilizou algumas medidas de controle da pandemia sob a justificativa de que a campanha de imunização está avançada em Santa Catarina. “A vacinação abre espaço para mais um passo em direção à normalidade”, disse o governador Carlos Moisés, um dia antes da publicação do decreto em vigor.
O artigo do Necat, no entanto, rebate os argumentos do Estado. Para o Núcleo, dificilmente SC alcançará a cobertura vacinal completa de 30% da população catarinense até o final do mês de julho.
Isso porque, após cinco meses de vacinação, 15% da população catarinense está imunizada com as duas doses da vacina ou com a dose única, conforme o Vacinômetro. “Em grande medida, essa letargia está atrelada às faltas constantes de vacina que impedem um processo de imunização mais célere”, diz o Necat.
A ocupação dos leitos de UTI também é mencionada no artigo, que diz que somente após quatro meses o sistema estadual de saúde conseguiu por fim à lista de espera por leitos de Covid-19.
Com isso, a situação mais confortável de SC nesse quesito “não parece ser um argumento adequado, pois na eminência de um novo surto decorrente da variante Delta, essa disponibilidade poderá sumir rapidamente”.
O Núcleo da UFSC reforça que ainda não era o momento de flexibilizar e deixar de lado medidas restritivas de atividades econômicas e sociais. Segundo o artigo, apostar todo o controle da Covid-19 no plano de imunização poderá “se revelar em mais um grande equívoco” diante da forma como o processo tem ocorrido até o momento.
O que diz o Estado
O ND+ entrou em contato com a Secretaria de Estado da Saúde para comentar sobre o artigo. De acordo com a pasta, Santa Catarina está com pouco mais de 200 leitos vagos de UTI Covid.
Além disso, oito regiões saíram do nível gravíssimo na última semana, “o que significa que metade das regiões do estado tiveram melhora significativa nos indicadores, com desaceleração na taxa de incidência há pelo menos 15 dias de forma consistente.”
A Secretaria também destaca que a taxa de letalidade de Santa Catarina é uma das mais baixas do país, junto com Amapá e Roraima que também apresentam 1,6%.
Com relação a cobertura vacinal, a pasta afirma que Santa Catarina está, no momento, com 19,78% da população acima de 18 anos vacinada com duas doses ou com dose única e que até o final desta sexta a expectativa é chegar aos 20%.
“O Estado e os municípios catarinenses estão trabalhando para vacinar toda a população vacinável o quanto antes”, conclui.