Os brasileiros estão comendo cada vez mais ultraprocessados – é o que diz a pesquisa publicada na Revista de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo) em 2023. O estudo concluiu que, em média, 19,7% das calorias consumidas pelos brasileiros em um dia vêm de alimentos ultraprocessados.
Quanto mais jovem, mais alta a taxa de consumo: produtos com aditivos artificiais representam 29% do que adolescentes comem. As pessoas com mais de 60 anos, por outro lado, se alimentam melhor, com apenas 15% de ultraprocessados em suas dietas.
Raulino Brüning procura evitar os ultraprocessados e priorizar feiras aos supermercados – Foto: Jullia GouveiaRaulino Brüning, 74, frequenta há mais de 40 anos a Feira Orgânica. Todas as sextas-feiras pela manhã, o aposentado escolhe frutas e vegetais frescos, que são preparados por sua esposa, Valéria.
“Eu tenho esse privilégio, minha esposa gosta e tem tempo de cozinhar. Para quem trabalha fora de casa o dia inteiro e depende de supermercados e lanches rápidos, fica difícil se alimentar bem,” afirma.
Apesar disso, Brüning reflete que, mesmo em sua juventude, as pessoas se alimentavam melhor do que hoje: “Eu não tinha nem geladeira em casa. Não havia consumismo, não se comprava mais do que íamos comer. Era feijão, abóbora, carne, comida de verdade, saudável.”
As nutricionistas da UFSC confirmam essa perspectiva, explicando que existem cada vez mais supermercados e menos feiras, deixando o consumidor com opções limitadas.
Sueli Viana, 73, faz o possível para se alimentar de produtos naturais e frescos. Freguesa há 15 anos da Feira Orgânica da Praça Governador Celso Ramos, na Beira-Mar, em Florianópolis, a aposentada preza por produtos de qualidade para cozinhar em família, com o marido e a filha. Processados, apenas milho e palmito em conserva.
Sua preocupação com a alimentação cresceu nas últimas décadas, mas não apenas por conta da idade: “Depois que me aposentei, tenho mais tempo para cuidar da saúde.”
A falta de tempo, o estresse e as longas jornadas de trabalho são apontadas como as principais causas de uma alimentação pouco saudável na atualidade, segundo as nutricionistas Natália Fogolari e Ana Carolina Fernandes, pesquisadoras da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).
Aliadas à crescente propaganda e disponibilidade de ultraprocessados no mercado e às informações equivocadas sobre nutrição “repassadas por influenciadores digitais ou até mesmo profissionais que não utilizam evidências científicas para embasarem suas práticas”, esses fatores tornam cada vez mais difícil ser saudável no Brasil.
Ao mesmo tempo em que os ultraprocessados crescem, a preocupação com a saúde também aumenta: uma pesquisa da Organis descobriu que o consumo de orgânicos cresceu 63% em 2021, e 57% dos atuais consumidores desses produtos iniciaram o hábito entre 2018 e 2023.
A feirante Miraci Gomes, 40, que oferece produtos naturais, como castanhas, grãos e farinhas integrais, afirma que, apesar dos compradores de mais de 60 anos serem maioria na Feira Orgânica da Beira-Mar, há clientes de todas as idades.
Feira Orgânica da Beira Mar – Foto: Jullia Gouveia“As pessoas estão percebendo que, quando investem em alimentação, vão gastar menos com farmácia e médico no futuro,” explica.
As nutricionistas orientam que a divisão de tarefas entre a família e o planejamento de refeições com antecedência podem otimizar tempo gasto no preparo e ajudar a comer melhor.
Outra recomendação é tentar aprimorar as habilidades culinárias e transformar essa tarefa num momento de diversão. Já quando se come fora de casa, o melhor é dar preferência para locais que servem refeições feitas na hora, como bufês por peso.
Ultraprocessados são tendência mortal
Outro estudo desenvolvido pela USP, publicado em 2023 na revista científica American Journal of Preventive Medicine, estima que alimentos ultraprocessados são responsáveis por 57 mil mortes prematuras por ano no Brasil.
À medida que o consumo de produtos como refrigerantes e lanches altos em sódio aumenta, o risco para a saúde dos brasileiros fica cada vez maior.
No Brasil, os padrões de consumo de ultraprocessados são similares aos de outros países da América Latina, como Chile e Colômbia, onde as pessoas com maior poder econômico comem mais ultraprocessados. Em países como os Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, essa lógica se inverte: como lá, os alimentos frescos são mais caros, é a população pobre quem consome mais produtos artificiais.
O Alimentando Políticas, projeto de pesquisa do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), estima que, até 2026, os produtos processados possam ser mais baratos que os alimentos naturais no Brasil.
Essa tendência se baseia na intensificação de incentivos fiscais para indústrias de alimentos processados e o enfraquecimento de políticas voltadas para a agricultura familiar.
Para evitar esse futuro, a ONU (Organização das Nações Unidas) sugere que alimentos ultraprocessados tenham uma taxação de 20%, como acontece com a indústria do tabaco e de bebidas alcoólicas.
Essa recomendação pode ser colocada em prática com o Imposto Seletivo Federal, previsto na Reforma Tributária aprovada na Câmara de Deputados em julho e atualmente discutida no Senado Federal. Essa taxa visa desestimular o consumo de bens e serviços prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, nos quais se enquadram os ultraprocessados.
ULTRAPROCESSADOS MAIS CONSUMIDOS NO BRASIL
Por participação do total de calorias diárias
Margarina: 2,68%
Biscoitos salgados e salgadinhos: 2,41%
Biscoitos doces: 1,66%
Frios e embutidos: 1,71%
Chocolate, sorvete e sobremesas industrializadas: 1,48%
Refrigerantes: 1,4%
Cachorro-quente, hambúrgueres e sanduíches: 1,18%
Alimentos in natura
Alimentos sem adição de substâncias consumidos como estão na natureza, como frutas e vegetais.
Nesse grupo, também se adicionam os minimamente processados, que só são alterados por processos que não afetam suas propriedades, como cozimento, moagem ou congelamento.
É o caso de farinhas, castanhas, leite pasteurizado e carnes resfriadas ou congeladas.
Alimentos processados
Alimentos com preservantes naturais, como sal, açúcar e óleo. Podem passar por métodos como fermentação não alcoólica, enlatamento ou engarrafamento para aumentar sua durabilidade e torná-los mais atrativos.
Além de conservas, aqui também se encontram pães e queijos frescos e carnes curadas.
Alimentos ultraprocessados
Produtos com poucos ou nenhum alimento integral e aditivos artificiais, como corantes, saborizantes e emulsificantes.
Envolvem vários processos e frequentemente possuem alta adição de açúcar, gorduras ou sódio.
Neste grupo estão os refrigerantes, embutidos e doces industrializados.
Decifre antes de devorar: rótulos podem ajudar a escolher produtos saudáveis
Desde 2022, foram adotadas duas mudanças nas embalagens alimentícias para informar o consumidor com mais clareza e transparência.
A primeira foi exigir que apenas produtos com 30% ou mais de ingredientes integrais em sua composição pudessem se intitular “integrais” – antes dessa medida, não havia porcentagem mínima.
A segunda foram as lupas de alto teor, sinalização na frente dos produtos que deve indicar se possuem alto teor de açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio.
Além desses indicativos, Natália e Ana Carolina explicam que ler o rótulo dos alimentos pode ajudar a descobrir se são ultraprocessados.
“A lista de ingredientes é descrita de forma decrescente, ou seja, iniciando pelo ingrediente que está em maior quantidade no alimento, e finalizando com o ingrediente que está em menor quantidade.
Como exemplo, ao ler a lista de ingredientes de uma barra de cereal, alimento que é comumente considerado saudável, vemos que três dos ingredientes são açúcares e ainda há adição de corantes e aromatizantes,” explicam.
Elas esclarecem que, em geral, alimentos menos processados têm menos ingredientes e nenhum aditivo artificial.
Para tornar esse processo mais acessível, o aplicativo Desrotulando permite que se escaneie o código de barras de um produto para obter informações detalhadas e simplificadas sobre seu valor nutricional.
O aplicativo avalia os alimentos com notas de 1 a 100; quanto menor a nota, mais ultraprocessado e menos saudável é o alimento.
Também fica mais fácil para pessoas com restrições alimentares identificarem quais produtos têm ingredientes que não podem consumir, como glúten, lactose ou derivados animais.