Preocupado com as mudanças no atendimento do HU-UFSC (Hospital Universitário), o Comitê Floripa Pela Vida divulgou nesta terça (22) uma carta pública na qual pede o restabelecimento imediato do serviço completo para gestantes, suspenso no início de setembro. De acordo com o documento, a unidade é referência nesta especialidade, e restrições podem afetar atendimentos em outros hospitais da Grande Florianópolis.
Hospital foi criticado pelo comitê após suspender atendimentos a gestantes em setembro – Foto: Divulgação/HU-UFSC/ND“Solicitamos providências imediatas de solução para reabertura urgente dessa valorosa maternidade, que representa um orgulho para sua população e comunidade acadêmica”, diz trecho da carta.
Desde 5 de setembro deste ano, a maternidade do HU-UFSC recebe apenas casos de gravidez de alto risco e passou a funcionar em regime de referenciamento, ou seja, os demais pacientes são encaminhados para outras unidades de saúde via NIR (Núcleo Interno de Regulação).
SeguirA restrição foi duramente criticada pelo Comitê Floripa Pela Vida, formado por profissionais da saúde de Florianópolis e que tem como objetivo principal a prevenção do óbito materno, infantil, fetal e transmissão vertical de Florianópolis.
Na carta pública emitida no dia 16 de novembro, a organização demonstra a preocupação com a vida das gestantes e dos bebês.
“Se por um lado compreende-se a grande dificuldade e sobrecarga que enfrentam os profissionais de saúde e serviços em geral, por outro lado nos preocupa o legítimo acesso da gestante ao cuidado. Assim como os profissionais devem ter carga de trabalho e remuneração dignos, as gestantes devem ter garantido seu atendimento, conforme suas necessidades. Assim, é preocupante exigir encaminhamento em situações óbvias de risco, tais como sangramento, perda de líquido e diminuição de movimentação fetal. O tempo investido em conseguir um burocrático “papel” pode custar a vida de seu bebê, quando não a sua própria”, destaca trecho da carta pública.
Além das críticas ao não atendimento, o Comitê questiona também a qualidade de ensino que será repassada aos estudantes que atuam na entidade e utilizam o HU-UFSC para formação acadêmica profissional.
“Adicionalmente, no que se refere ao serviço de ensino, compreende-se que a sobrecarga pode diminuir sua qualidade. Porém, a atual ausência de atendimento gineco-obstétrico certamente comprometerá a formação dos estudantes e residentes, que já quase não realizam partos nas últimas semanas. Que tipo de treinamento terão?”, complementou o documento.
Procurada, a Ebserh, administradora do HU-UFSC, informou ao ND+ que “não vai manifestar-se no momento”.
Confira a carta do Floripa Pela Vida na íntegra
Carta aberta à população e à imprensa sobre o atual atendimento Obstétrico e Ginecológico de urgência e emergência na Maternidade do Hospital Universitário (HU) Polydoro Ernani de São Thiago em Florianópolis – SC
No dia 05 de setembro de 2022, foi noticiada a necessidade de encaminhamento prévio para atendimento gineco-obstétrico de urgência. Os motivos citados foram sobrecarga de partos e atendimentos, regulação das demandas, dificuldades de recursos, adequação às condições de ensino, dentre outros. A única possibilidade de uma gestante ser atendida seria se “chegasse ganhando seu bebê”, o que preocupou este Comitê.
Se por um lado compreende-se a grande dificuldade e sobrecarga que enfrentam os profissionais de saúde e serviços em geral, por outro lado nos preocupa o legítimo acesso da gestante ao cuidado. Assim como os profissionais devem ter carga de trabalho e remuneração dignos, as gestantes devem ter garantido seu atendimento, conforme suas necessidades. Assim, é preocupante exigir encaminhamento em situações óbvias de risco, tais como sangramento, perda de líquido e diminuição de movimentação fetal. O tempo investido em conseguir um burocrático “papel” pode custar a vida de seu bebê, quando não a sua própria.
Mais recentemente, a situação se agravou, com a notícia do fechamento da emergência obstétrica. Os motivos não foram comentados. Esta situação configura extrema gravidade, pois essa maternidade é referência de parto humanizado e qualificado. Na angústia de uma urgência, se uma gestante procurar socorro em nosso querido e corajoso Hospital, não o encontrará. Embora haja outras maternidades muito boas na região, que em conjunto são as responsáveis por nossas gestantes, todas se encontram sobrecarregadas, fato citado pelo próprio HU. Com a redução destas vagas, as gestantes procurarão outras maternidades e as encontrarão já superlotadas, agravando ainda mais o problema. Ou precisarão buscar assistência em outros municípios, atrasando seu atendimento e aumentando os riscos.
Adicionalmente, no que se refere ao serviço de ensino, compreende-se que a sobrecarga pode diminuir sua qualidade. Porém, a atual ausência de atendimento gineco-obstétrico certamente comprometerá a formação dos estudantes e residentes, que já quase não realizam partos nas últimas semanas. Que tipo de treinamento terão?
Finalmente, a indisponibilidade de atendimento na emergência obstétrica significa risco claro de danos irreversíveis. Apesar das situações obstétricas serem em geral de pouca gravidade, quando há sintomas de risco, a necessidade de atendimento especializado obstétrico é primordial, com uma equipe qualificada, saudável, bem remunerada e disponível. Significa a chance única de salvar a vida de uma criança e, por vezes, de sua mamãe. Não podemos abrir mão dessa oportunidade. Ela não voltará. Em razão de todo o exposto, solicitamos providências imediatas de solução para reabertura urgente dessa valorosa maternidade, que representa um orgulho para sua população e comunidade acadêmica.
Florianópolis, 16 de novembro de 2022.
De forma atenciosa, Comitê Floripa pela Vida.