Como estão as crianças que enfrentaram a fila de espera por leito de UTI em SC

13/06/2022 às 16h01

A história delas ganhou repercussão e mostrou a fragilidade no atendimento público de saúde a crianças e adolescentes no Estado

Foto de Richard Vieira

Richard Vieira Criciúma

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Aldo, Caetano e Joaquim foram algumas das crianças que enfrentaram a fila de espera por um leito de UTI no Sul catarinense e escancararam o grave problema de saúde pública no Estado. Sobreviventes, hoje eles se encontram com a família em casa, onde seguem com o tratamento, e os pais se recuperam do susto.

Joaquim, Aldo e Caetano são algumas das crianças que enfrentaram a fila de espera por um leito em SC – Foto: Divulgação/NDJoaquim, Aldo e Caetano são algumas das crianças que enfrentaram a fila de espera por um leito em SC – Foto: Divulgação/ND

Dos três, o pequeno Aldo, de um ano e seis meses, foi o primeiro a ganhar alta. Ele retornou para casa, em Içara, no último dia 23, após oito dias internado em UTI pediátrica no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão, sendo quatro deles em coma.

Segundo a mãe, Cláudia Silvestri, o filho ainda teve que esperar quase dois dias por um leito de UTI. “Enquanto aguardávamos, ele permaneceu na mesma sala em que fez a cirurgia, o estado dele era gravíssimo e a transferência para uma UTI, urgente”, lembra.

Aldo precisou passar pela cirurgia após cair da cadeirinha, onde lanchava com a família em casa, e desenvolver um coágulo. “Os médicos nos deram 50% de chances de sobreviver, e 99,99% de sequela, mas Deus agiu e permitiu que o nosso menino voltasse para nós, do jeitinho que ele sempre foi, e eu serei eternamente grata!”, revela Cláudia.

Na volta para casa, Aldo ganhou uma surpresa do Corpo de Bombeiros de Içara, onde o pai é bombeiro comunitário. “Estavam em carreata com balões e foto do Aldo no caminhão. Durante toda angústia e luta por um leito, tivemos o apoio de colegas e amigos do batalhão. E foi muito linda a recepção de toda guarnição, junto com familiares e amigos”, conta.

Bombeiros, familiares e amigos fizeram uma recepção para Aldo – Foto: Divulgação/NDBombeiros, familiares e amigos fizeram uma recepção para Aldo – Foto: Divulgação/ND

Vídeo mostra a felicidade do pequeno com a homenagem – Vídeo: Divulgação/ND

Recuperação

Hoje, o garoto já retirou os mais de 40 pontos da cirurgia e está em casa  em tratamento contra a gripe. “As noites estão sendo longas, o Aldo ficou gripado, desde que saiu do hospital, e está se recuperando. Estamos tratando com remédios, e controlando a temperatura corporal dele”, comenta a mãe.

Aldo agora se recupera em casa – Foto: Divulgação/NDAldo agora se recupera em casa – Foto: Divulgação/ND

Segundo ela, Aldo ainda não está andando e precisa de cuidados 24 horas. “É por ele que sigo forte, passei pela maior dor que poderia passar, vi meu filho esticado sobre uma maca de hospital lutando pela vida e aguardando um leito de UTI que parecia que nunca ia chegar”, recorda.

Cláudia conta que o filho é conhecido por esbanjar simpatia, apesar da pouca idade. “Ele está sempre sorrindo e fazendo as pessoas rirem, e eu não conseguia acreditar que uma criança tão cheia de vida estava lá lutando bravamente pra continuar conosco! Ele foi mais forte que eu, que meu marido e toda nossa família juntos, porque nós vivenciamos um pesadelo e ficamos sem chão”.

Mãe recorre à UTI particular para salvar filho

O mesmo episódio de terror foi vivenciado pela mãe de Caetano, a maquiadora e influenciadora digital Marilia Gabriela Furlan. Ela precisou recorrer a uma UTI particular em Criciúma para salvar a vida do filho de dois meses. O pequeno ficou internado por 12 dias e retornou para a casa no último dia 30.

Mãe que gastou R$ 10 mil diários para internar bebê em SC escancara falta de UTIs pediátricas – Foto: Internet/Reprodução/NDMãe que gastou R$ 10 mil diários para internar bebê em SC escancara falta de UTIs pediátricas – Foto: Internet/Reprodução/ND

“Fiquei extremamente emocionada quando saí do hospital, principalmente em ver a alegria dos profissionais, até as meninas da recepção estavam felizes pelo Caetano. Nos despedimos com um: ‘até nunca mais’ em tom de brincadeira”, lembra.

O caso do Caetano ganhou repercussão no Estado no último mês. Milhares de pessoas se comoveram com a história dele, após o pequeno apresentar um quadro de bronquiolite e não conseguir uma vaga em leito de UTI pelo SUS para ser internado.

A mãe conta que, inicialmente, buscou atendimento no HMISC (Hospital Materno-Infantil de Santa Catarina), mas diante da fila de espera resolveu levar o pequeno até um hospital particular da cidade, onde ele precisou ser internado imediatamente.

“O trajeto entre internação no pronto atendimento e UTI eu simplesmente não lembro, apaguei da memória. Só consigo me lembrar de estar acordando com muito barulho e a equipe falando “urgente”, “urgente”. Ali eu levantei, saí andando e chorando, caí e fui socorrida por uma enfermeira. Eu achei que meu filho estivesse morrendo”, relembra Marilia.

Caetano agora se encontra em casa se recuperando – Foto: Internet/Reprodução/NDCaetano agora se encontra em casa se recuperando – Foto: Internet/Reprodução/ND

Para preservar a vida de Caetano, a influenciadora fez um empréstimo e pagou R$ 22 mil para custear três diárias do filho em um leito de UTI no hospital particular.

Ao relatar a situação nas redes sociais, em que acumula mais de 50 mil seguidores, diversas pessoas se revoltaram com a situação e cobraram uma atitude do Estado. Além disso, criaram uma vaquinha para custear o tratamento de Caetano.

A união surtiu efeito. Em cerca de 24 horas, a SES (Secretaria de Estado da Saúde) anunciou que cobriria todos os custos de internação, e a vaquinha arrecadou mais de R$ 43 mil para auxiliar crianças na mesma situação no Estado.

“O nosso choro é de cansaço”

Além de Aldo e Caetano, outro caso que gerou revolta em Santa Catarina foi do Joaquim. O pequeno de três anos e cinco meses, que sofre de paralisia cerebral, precisou aguardar quase dois dias por um leito de UTI, após apresentar problemas respiratórios e ter duas paradas cardíacas.

Joaquim é mais um dos sobreviventes – Foto: Divulgação/NDJoaquim é mais um dos sobreviventes – Foto: Divulgação/ND

A mãe Cristina Gonçalves conta que, mesmo como uma liminar do Ministério Público Federal em mãos, não conseguia um leito de UTI para o filho. O jeito foi mobilizar amigos e conhecidos para cobrar amparo do Estado.

Com a repercussão do caso, foi disponibilizado um leito de UTI no hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão, para tratamento do garoto, onde ele permaneceu por 14 dias, sendo quatro deles entubado. A alta veio no último dia 26.

“O nosso choro é de cansaço, de indignação, porque tudo o que mais precisamos é que olhem por eles, por quem não tem voz. E vamos continuar em cima, lutando por cada direito de viver dos nossos filhos”, afirma Cristina.

Segundo ela, essa não é a primeira vez que isso acontece. Há cerca de dois anos, o menino teve meningite e precisou de um leito de UTI. A luta foi a mesma.

“É uma situação que vem sendo escondida pelo governo há anos. É triste demais, saber que os profissionais estão dando o seu máximo, mas eles chegarem na tua frente e dizer que não podem fazer mais nada, porque não tem uma cama pra colocar teu filho, que faltam insumos, falta estrutura, falta tudo”, critica.

Joaquim, no momento, está se recuperando em casa, em Turvo. Seu quadro de saúde requer cuidados.

“Ainda não temos certeza do que realmente levou à gravidade do caso. Estamos em isolamento, porque a imunidade dele está bem baixa, começamos o acompanhamento com cardiologista, pneumologista e otorrino para investigar tudo o que aconteceu”, conta a mãe.

A família também criou uma vaquinha para ajudar no custeio do tratamento do garoto após internação. A meta é arrecadar R$ 80 mil. Até o momento, mais de R$ 13 mil já foram doados. Saiba como ajudar.

Denúncia da Sociedade de Pediatria sobre o descaso

A SCP (Sociedade Catarinense de Pediatria) se manifestou recentemente e pediu medidas urgentes na rede de atendimento às crianças e adolescentes catarinenses.

Em nota, a entidade destacou a superlotação dos pronto-atendimentos, das emergências e dos leitos hospitalares pediátricos e o aumento de casos de doenças respiratórias.

Segundo a SCP, há uma carência de atendimento especializado para as crianças e adolescentes no Estado, como exemplo a Grande Florianópolis, que dispõe apenas de serviços no Hospital Infantil Joana de Gusmão e no Hospital Universitário, além de duas unidades de pronto atendimento.

A entidade também destacou o fechamento da Emergência Pediátrica do Hospital Homero de Miranda Gomes, em São José, que seria temporário por conta da pandemia, mas deixou muitas famílias desassistidas, sobrecarregando ainda mais as outras emergências na região. Esse serviço atendia de 3 mil a 5 mil crianças mensalmente.

Aumento de casos de doenças respiratórias

Segundo a SCP, com a chegada do outono e o retorno das crianças sem máscara às escolas, ainda houve um aumento na predisposição a infecções respiratórias causadas por diferentes tipos de vírus.

O número habitualmente cresce neste período do ano, porém, o isolamento provocado pela pandemia de Covid-19 em 2020 e 2021 causou uma saturação nos serviços de atendimento de urgências em todo o Estado.

Por fim, a entidade pediu “investimento a curto, médio e logo prazos para a abertura de novos leitos pediátricos de UTI e de atendimentos de emergência em todo o Estado” e a “garantia da presença do pediatra na rede básica de saúde, permitindo uma maior resolutividade no atendimento”.

Superlotação em leitos de UTI

A SES informou que na manhã desta segunda-feira (13) haviam nove crianças e oito bebês aguardando por um leito de UTI pelo SUS em Santa Catarina. Segundo a pasta, “todos estariam sendo plenamente assistidos”.

Os dados da CERIH (Central Estadual de Regulação de Internações Hospitalares) mostram que dos nove pacientes que aguardam leitos pediátricos, oito deles apresentam problemas respiratórios e um necessidade de serviço especializado para outra doença.

Eles estão divididos em seis regiões do Estado, sendo três na Serra, dois deles no Sul, um no Vale do Rio Itajaí, um no Planalto Norte e Nordeste, um no Meio-Oeste e outro no Grande Oeste Catarinense .

Já com relação aos leitos de UTI neonatal há oito bebês aguardando transferência. Desses, três apresentam problemas respiratórios e cinco complicações por conta de outras doenças.

Os pacientes estão divididos em cinco regiões do Estado, sendo dois no Sul, dois na Foz do Rio Itajaí, dois no Grande Oeste Catarinense, um no Vale do Rio Itajaí e um no Planalto Norte e Nordeste.

Quais medidas serão tomadas?

A Secretaria confirmou na semana passada a abertura de seis novos leitos de UTI neonatal e oito de cuidados intermediários pediátricos. Esses são os primeiros dos 82 leitos anunciados pelo governo estadual, entre pediátricos e neonatais que farão parte dos atendimentos do serviço único de saúde.

Os novos leitos estão divididos entre a Grande Florianópolis, o Meio-Oeste e Serra. São cinco UTIs neonatal no Hospital Hélio dos Anjos Ortiz, em Curitibanos, e um leito de UTI neonatal no Hospital Infantil Joana de Gusmão, que também recebeu oito leitos de cuidados intermediários pediátricos.

Segundo a SES, as tratativas com as unidades hospitalares seguem acontecendo e, nesse sentido, foram acrescentados 14 leitos de atendimentos infantis aos 68 anunciados anteriormente.

Ainda conforme a pasta, os 71 leitos de UTIs estão divididos entre neonatal e pediátrico, além de 11 leitos de retaguarda, totalizando 82. Há ainda a possibilidade de ampliação desse número.

Confira onde vão ficar os novos leitos

  • Hospital Pequeno Anjo, em Itajaí – 6 leitos de UTI pediátrica;
  • Hospital e Maternidade Jaraguá do Sul – 6 de UTI pediátrica;
  • Hospital Azambuja, em Brusque, – 10 de UTI neonatal e 2 de UTI pediátrica;
  • Hospital Seara do Bem, em Lages – 5 de UTI pediátrica;
  • Hospital Governador Celso Ramos, Florianópolis – 4 UTI adulto;
  • Hospital Regional de Araranguá – 5 de UTI neonatal;
  • Hospital e Maternidade Carmela Dutra, Florianópolis – 3 leitos intermediários cangurú;
  • Hospital Infantil Jesser Amarante Faria, em Joinville – 10 de UTI pediátrica;
  • Hospital Regional Alto Vale, em Rio do Sul – 4 de UTI neonatal;
  • Hospital Materno Infantil Santa Catarina, em Criciúma – 7 de UTI neonatal;
  • Hospital Regional de São José – 10 de UTI neonatal e 1 de UTI adulto.

Este movimento de ampliação, de acordo a Secretaria, faz parte da estratégia adotada para enfrentamento da sobrecarga do sistema de saúde frente às doenças respiratórias, características desta época do ano, bem como da Covid-19 e da dengue.

Desde o dia 1º de junho também já está valendo o decreto de emergência em saúde que possibilita a ampliação de leitos com as unidades hospitalares, bem como prevê um aporte financeiro aos municípios.

Esse incremento de verba deverá ser utilizado em estratégias de campanha de vacinação, ampliação dos horários de atendimento da rede básica de saúde e combate ao mosquito da dengue.