A mãe que teve a cabeça de sua filha cortada após o parto na maternidade Darcy Vargas, em Joinville, disse que ao chegar no quarto foi questionada sobre “como deixou” fazerem isso com sua filha. Segundo ela, o questionamento veio de um enfermeiro.
Criança teve a cabeça cortada durante parto em Joinville – Foto: Divulgação/Nappy/NDPara a mãe, o fato de ser uma mulher negra, pobre e vivendo com HIV contribuiu para que ela não fosse tratada de forma adequada dentro da unidade.
“Tiveram nojo pela minha cor, pela minha pele. Não são humanos. Me trataram como quem dissesse: ‘essa daí tanto faz’”, relata.
SeguirSegundo o relato, em todos os momentos ela sentiu que por ser uma mulher preta vivendo com HIV, foi negligenciada.
A mãe descobriu a doença em 2017, mas desde então faz uso de remédios antirretrovirais. Agora, segundo ela, sua carga viral está indetectável. Na prática isso significa que pela regularidade do tratamento, ela não transmite mais o vírus HIV.
Neste ponto é importante lembrar que AIDS é a doença e HIV é o vírus. Sendo assim, todas as pessoas que fazem tratamento correto vivem com HIV e não têm AIDS. O conceito é inclusive explicado pela Unaids (ONG das Nações Unidas que trata do assunto) e pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
Pesquisadora explica
De acordo com a professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Francis Solange Vieira Tourinho, doutora em Saúde da Criança e do Adolescente e membro do grupo de trabalho de Equidade e Diversidade da Sociedade Brasileira de Qualidade do cuidado e Segurança do paciente, é preciso falar mais sobre o tema.
“Quando pensamos em racismo e como este foi criado na sociedade brasileira, precisamos primeiro pautar o mito da democracia racial, uma vez que este conceito por anos favoreceu a negação da existência do racismo no Brasil”, conta.
A doutora explica ainda que as diferenças em saúde entre os grupos raciais podem ser encontradas nas mais diversas esferas: menor expectativa de vida na população negra; mais mortes por causas violentas, especialmente entre os jovens, sendo as taxas de homicídio e feminicídio crescentes entre a população negra e decrescentes entre a população branca nos últimos 10 anos; mais mortes por causa materno-infantil, desnutrição infantil e doenças infecto parasitárias; e mais mortes por HIV/AIDS.
A professora explica ainda que a chance de pré-natal inadequado, ou seja, que não segue as recomendações do Ministério da Saúde para número mínimo de consultas, exames complementares e orientações adequadas à gestante, é maior na população negra.
O que diz a SES
Em nota, a SES/SC (Secretaria do Estado da Saúde de Santa Catarina) afirma que não pode se posicionar sobre procedimentos médicos adotados.
Confira a nota completa:
A Maternidade Darcy Vargas informa que o evento está em investigação pela Gestão de Risco da unidade, e o caso também está sendo apurado pela Polícia e seguirá os trâmites inerentes a situação. A Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina (SES/SC), seguindo orientação do Conselho Federal de Medicina (CFM), não fornece o estado de saúde e não comenta informações de pacientes atendidos, internados ou que venham a óbito na rede de assistência estadual.
Preconceito contra pessoas vivendo com HIV
Quando descoberto, o HIV foi um dos maiores temores mundiais. Na década de 80, por exemplo, culminaram notícias erradas sobre a doença pois a crença era de que ela afetava mais homens gays.
No entanto, é sabido que a doença hoje pode infectar qualquer pessoa que não use preservativo, mas ainda persistem preconceitos, de acordo com o Ministério da Saúde.
Taurinho explica que o Ministério da Saúde descreve que o estigma e a discriminação são problemas diários para as pessoas infectadas e afetadas pelo HIV. Um estudo da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) aponta ainda que seis em cada 10 pessoas que vivem com HIV afirmam que já sofreram algum tipo de discriminação pelo menos uma vez na vida.
O termo “interseccionalidade” permite compreender melhor as desigualdades e a sobreposição de opressões e discriminações existentes na sociedade, para que se possa combatê-las e reconhecer que algumas opressões são mais dolorosas.
Muitas mulheres ou grupos, apenas por pertencerem a essas “categorias” vulnerabilizadas, são submetidas a uma série de discriminações, preconceitos e opressões, como de classe, HIV, deficiências, de gênero, de geração, situação de rua, de raça/etnia indígenas, negras e quilombolas) e de orientação sexual.
Violência obstétrica é maior em mulheres negras – Foto: Divulgação/Nappy/NDAfinal, os profissionais estão preparados?
Desde 2009 existe no Brasil a PNSIPN (Política Nacional de Saúde Integral da População Negra) que deveria ser um instrumento de promoção da equidade no âmbito da saúde brasileira. Além disso, as diretrizes dos cursos de graduação em saúde reiteram a importância das questões étnico-raciais e da história das culturas afro-brasileira e indígena na formação profissional.
“Esses elementos, em diálogo com a Política Nacional de Atenção Integral à População Negra e às demais Políticas de Promoção da Equidade em Saúde, deveriam ser abordados nos cursos, mas sabemos que ainda não é uma realidade. E por isso ainda precisamos avançar na formação de profissionais da saúde capazes de promover um cuidado em saúde equânime e antirracista, garantindo uma formação humanista, crítica, reflexiva e ética”, diz a professora.
Para ela, isso não cura a dor, não cessa a violência e também não muda radicalmente uma cultura de séculos, mas nosso futuro está na educação dos profissionais de saúde que virão.
Violência obstétrica está relacionada com a cor da pele
Em abril, a Comissão Especial sobre Violência Obstétrica e Morte Materna debateu o tema com representantes de todo o país, entre eles, a secretária de Saúde de Santa Catarina, Carmen Zanotto.
“As mulheres negras morrem mais que as brancas, mesmo tendo a mesma escolaridade e o mesmo acesso ao pré-natal. Está comprovado que nós profissionais da enfermagem dedicamos menos tempo na assistência pré-natal à mulher negra que à mulher branca”, disse na época.
O caso da mãe relatada nesta matéria, que é uma mulher negra, soma-se a uma infinidade de mulheres negras que sofreram violência obstétrica no Brasil. Um estudo publicado na Biblioteca Nacional de Medicina, por exemplo, relaciona o racismo ao atendimento médico dado às mulheres negras no país.
“No Brasil, mulheres negras são desproporcionalmente negadas ao acesso a cuidados oportunos e ficam vulneráveis à morte por causas obstétricas evitáveis. No entanto, elas não têm estado no centro de iniciativas recentes para melhorar a saúde materna”, descreve o estudo.
Para realizar a pesquisa, os pesquisadores analisaram a implantação da Rede Cegonha na Bahia, entre 2012 e 2017.
Confira o estudo clicando aqui.