Consumo consciente de álcool vira tendência entre jovens e influencia mercado de bebidas

Normalização da sobriedade tem chamado atenção para saúde e relações interpessoais

Karol Pires Florianópolis

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Você já se questionou sobre o seu consumo de álcool? Pessoas em todo o mundo iniciaram um movimento de reflexão sobre como a bebida pode afetar o comportamento e as relações interpessoais. ‘Mindful drinking’, ou bebendo conscientemente, é a tendência que busca chamar atenção para uma relação mais saudável com o álcool.

Normalização da sobriedade vira tendência entre os jovens – Foto: Divulgação/Hawaii Floripa/NDNormalização da sobriedade vira tendência entre os jovens – Foto: Divulgação/Hawaii Floripa/ND

De acordo com a psiquiatra formado pela UFMS (Universidade Federal de Santa Maria) Julia Trindade, o impacto do álcool nas relações interpessoais é direto.

“O álcool tem um efeito inicialmente de euforia, mas depois ele é um depressor do sistema nervoso central. Muitas vezes a pessoa não consegue trabalhar no dia seguinte, começa a perder eventos ou evita ir nesses eventos pela questão do álcool”, destaca.

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Entre as ações que buscam estimular o consumo consciente de álcool está o desafio “Dry January”, ou Janeiro Seco. A ideia é se abster do álcool por 30 dias com o objetivo de se recuperar das festas de fim de ano, além de economizar dinheiro e aprender a ter controle sobre o consumo de bebidas alcoólicas.

A psiquiatra destaca que o primeiro passo é entender a relação que existe com a bebida. “Por que eu não consigo ficar sem beber ou qual a minha relação com o álcool?”, questiona a psiquiatra.

O engenheiro de dados Luiz Guarinello, 25, bebia pelo menos quatro vezes por semana, sozinho ou com amigos. Sua decisão de diminuir o consumo de álcool aconteceu há alguns anos quando percebeu que o álcool “cobra muito do corpo”.

“Tu bebe e no dia seguinte tu acorda mal, desidratado, com dor de cabeça, o dia seguinte que você bebe é sempre um dia perdido”, destaca.

Existem também aquelas pessoas que preferiram largar completamente o hábito de beber álcool. Um estudo realizado pela Mintel em 2018 revelou que 17% dos brasileiros com idade entre 27 e 41 anos trocaram as bebidas alcoólicas pelas zero álcool.

A jornalista Julia Ferron, 26, sóbria há pouco mais de dois anos, conta que bebia “apenas por pressão social”, e decidiu abolir o álcool da sua vida em 2020 quando percebeu que “queria estar presente em todos os momentos da vida, fossem eles bons ou ruins, tendo uma saúde física e mental tranquila”.

Depois que parou de beber, Ferron conta que seus hábitos de vida mudaram.

“Comecei a treinar, acordar mais cedo, me alimentar melhor e passar mais tempo de qualidade com as pessoas que eu amo. É muito bom lembrar de todas as suas escolhas e ter certeza de que tomou atitudes 100% presente naquela situação”, destaca.

Quando parou de beber, Julia Ferron criou a página Livre do Álcool, um espaço de apoio e diálogo sobre a normalização da sobriedade para pessoas que desejam diminuir ou cessar o consumo de álcool.

“As pessoas veem o ato de parar de consumir álcool como chato ou entediante. Eu queria trazer os benefícios reais e a vida incrível que você pode viver sem interferência desse vício”, conta a jornalista.

No perfil que já soma pouco mais de mil seguidores, ela mostra os benefícios, a rotina e tudo que é possível ser feito depois que se decide viver sóbrio. “O projeto ainda é algo pequeno, mas as pessoas são reais e leais, e se eu ajudei uma pessoa, tudo isso já valeu a pena”, comenta.

O novo comportamento das pessoas com relação ao consumo de álcool tem feito mudanças também nos negócios. Grandes marcas como a Heineken lançaram recentemente versões de cerveja sem álcool, e a AB InBev, dona da Budweiser e da Brahma, firmou um compromisso de fabricar 20% de seus rótulos com pouco ou nenhum álcool até 2025.

O Hawaii, bar em Florianópolis, cultiva a ideia de oferecer bebidas sem álcool desde sua inauguração, em 2020. “Acreditamos em um estilo de vida saudável, com boa alimentação. Quando iniciamos nossa operação, colocamos tudo que acreditamos para unir com nossos propósitos”, disse o responsável pela comunicação do espaço, Eduardo Lopes.

No bar é possível encontrar uma carta de drinks sem álcool que busca tornar o ambiente democrático para aqueles que querem ou não consumir álcool.

A ideia é oferecer opções de drinks para todos os gostos e idades, sem excluir quem não bebe e até crianças, que, segundo a bartender do local, Ana Giulia Penha, sempre ficam curiosas e pedem aos pais para provar as “bebidas coloridas”.

Bar em Florianópolis oferece carta de drinks sem álcool – Foto: Divulgação/Hawaii Floripa/NDBar em Florianópolis oferece carta de drinks sem álcool – Foto: Divulgação/Hawaii Floripa/ND

A psiquiatra Julia Trindade aponta um estudo que mostra a comparação de liberação de dopamina em usuários de cerveja com álcool e sem álcool. “Foi visto que, especialmente em pessoas que já têm uma tendência a ter alteração no circuito do sistema de recompensa, havia liberação da dopamina mesmo com o uso da cerveja sem álcool”.

A especialista destaca que pela diminuição do risco de amnésia, especialmente em pessoas que não tem problema de dependência, as bebidas zero álcool podem ser uma ideia para quem gosta de desfrutar do gosto de uma cerveja, por exemplo.

Já pessoas que têm histórico de dependência alcoólica devem sempre buscar uma ajuda especializada antes de tirar a bebida da rotina, ressalta Trindade, “para poder determinar se é só o alcoolismo ou se tem alguma comorbidade, como depressão e ansiedade”, explica.

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