Covid-19: médico intensivista conta como é a luta diária para salvar vidas em Joinville

Intensivista há 25 anos, Glauco Westphal fala sobre os desafios dentro de uma UTI, o trabalho multidisciplinar, a troca de informações entre os médicos, os protocolos e a estabilização da doença

Raquel Schiavini Schwarz Joinville

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Um trabalho integrado, focado em salvar vidas diante de uma pandemia que tem desafiado a ciência, os gestores de saúde e os profissionais que estão na linha de frente dos hospitais.

Médico intensivista há 25 anos, Glauco Westphal é um desses profissionais que tem se dedicado a gerir e a salvar pacientes da Covid-19 que apresentam as formas  mais graves da doença em Joinville.

Westphal  é responsável pelas residências de terapia intensiva do Hospital São José e da Unimed e coordena as UTIs da Unimed e do Hospital Bethesda.

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Além do trabalho de gerenciamento das unidades de terapia intensiva, ele também atua na linha de frente. Em uma conversa com o Grupo ND, Westphal admite que a pandemia tornou-se um grande desafio, não só para ele, que coordena as UTIs, mas para todos os profissionais de saúde. 

O primeiro obstáculo foi prover mais leitos de UTI e conseguir força de trabalho para operá-los. Segundo ele, Joinville conta com um número restrito de médicos intensivistas e todos com agendas bastante comprometidas, mas que, imediatamente, concordaram em dobrar a carga de trabalho neste período.

Glauco Westphal é responsável pelas residências de terapia intensiva do Hospital São José e da Unimed e coordena as UTIs da Unimed e do Hospital Bethesda – Foto: Divulgação NDGlauco Westphal é responsável pelas residências de terapia intensiva do Hospital São José e da Unimed e coordena as UTIs da Unimed e do Hospital Bethesda – Foto: Divulgação ND

“Todos entenderam a necessidade de contribuição. Além, claro, de todos os profissionais da saúde, os intensivistas da cidade têm feito um trabalho magnífico, não só em termos técnicos, mas também no sentido de entrega, de doação de si mesmos, assumindo um número bem maior de horas. Há colegas trabalhando mais de 500 horas por mês na linha de frente”, assinala.

Lado a lado com o paciente

Dentro de uma UTI, são vários momentos desafiadores, conta o médico intensivista. O primeiro deles é a própria doença que, em sua forma mais grave, é extremamente complexa, em que o paciente corre, de fato, risco de vida, especialmente pelo fato de não assimilar oxigênio suficiente para os diferentes órgãos do organismo.

“Então, nossa primeira missão é ofertar oxigênio suficiente para garantir a sobrevivência do paciente e isso pode ser feito com diferentes técnicas que variam de acordo com a gravidade do paciente”, explica.

Westphal comenta, inclusive, que usualmente os profissionais intensivistas têm utilizado os ventiladores mecânicos em seus recursos máximos em razão da gravidade de acometimento do pulmão.

No entanto, além da respiração, há uma série de outras ações que são realizadas, como o monitoramento dos sinais vitais dos órgãos do paciente de forma contínua. Esses pacientes também precisam receber alimentação para não haver desnutrição e, às vezes, são necessárias pequenas cirurgias.

Alguns pacientes, continua Westphal, ainda necessitam da artificialização das funções dos órgãos, não só dos pulmões, mas dos rins, por exemplo. E em alguns pacientes, onde a situação, mesmo com o respirador, fica extremamente grave, é preciso colocar o paciente em um pulmão artificial.

“Esse não é um trabalho solitário. Não é um trabalho só do médico intensivista, mas de uma equipe multidisciplinar.”

“Não trabalhamos como médicos isolados dentro de uma UTI. É fundamental o trabalho associado dos enfermeiros, dos técnicos de enfermagem, da fisioterapia, da nutrição, da terapia ocupacional, enfim, de toda uma equipe que interage, além de psicólogos e farmacêuticos”, frisa.

Ele faz questão de dizer que só com o trabalho de todos esses atores é possível uma terapia intensiva de qualidade a ponto de poder atender pacientes tão complexos quanto os com Covid-19.

Para mostrar a gravidade do novo coronavírus, o intensivista faz, inclusive, uma relação com outras doenças: antes da pandemia, em uma unidade de dez leitos de UTI, havia um, dois, no máximo, três pacientes em situação de gravidade.

“A Covid mudou esse cenário. Hoje, temos unidades com dez leitos e dez pacientes internados e todos igualmente graves. A todo o momento, há novas intercorrências. É uma característica diferente, que acaba exigindo bastante da equipe.”

Quanto à troca de informações, ela é constante, confirma. O exercício da medicina na terapia intensiva é feita, normalmente, em grupo. São equipes de médicos que atendem pacientes e, dado o grau de complexidade das intervenções, é importante que haja uma constante troca de pontos de vista entre os profissionais, frisa Westphal.

“É algo fundamental. Não só entre os intensivistas, mas entre as demais profissões. E, mais do que isso, há troca de informações entre hospitais da cidade e de outras unidades de saúde do País. É importante para que tenhamos um balizamento e uma uniformidade de atuação”, complementa.

Sobre os protocolos de medicamentos, o gestor defende uma lógica única balizada pela medicina de evidências.

“Além da troca de ideias entre os médicos, buscamos seguir as orientações da Associação de Medicina Intensiva Brasileira e da Sociedade Brasileira de Medicina, claro, modificando os protocolos e a terapêutica proposta, de acordo com novas evidências que venham a surgir ao longo dos dias”, destaca. Isto porque o próprio conhecimento da Covid-19 vem se desenvolvendo.

Para Westphal, o fundamental é seguir os preceitos da medicina baseados em evidências, porque isso diminui as chances de erro e de fazer mal às pessoas.

“Quando adotamos um protocolo, assumimos que o tratamento será usado em um grande número de pessoas. Então, há de se ter muito cuidado quando aplicamos protocolos sobre os quais pairam dúvidas”, alerta.

Falta de medicamentos

Sobre a falta de medicamentos, o intensivista disse que alguns específicos realmente faltaram, mas sempre houve a possibilidade da substituição por  similares. Admite, no entanto, que foi um desafio para os gestores de saúde porque esses medicamentos faltaram tem todo o território nacional. Um dos exemplos de remédios que faltou por um período foi o anestésico Fentanil, que foi substituído pela morfina, em doses equivalentes.

“Mas, no geral, a cidade ficou bem abastecida. Ninguém chegou a ficar desassistido. Sempre houve opção, tanto em hospitais públicos quanto privados”.

Escassez de leitos

Em Joinville, felizmente, coloca Westphal, a equipe também não precisou fazer escolhas entre um paciente e outro por um leito de UTI, embora a equipe já estivesse preparada para situações como essa, como aconteceu em diversas partes do mundo.

“Sempre conseguimos encontrar leitos disponíveis, isto por conta da cooperação com outros municípios, que possibilitaram transferências, e, principalmente, pela abertura de novos leitos aqui na cidade.”

Estabilização da doença

A demanda por vagas de UTI tem diminuído, confirma o intensivista. A cidade chegou a estar com lotação plena da capacidade instalada na rede pública, mas, nesse momento, há uma relativa folga em relação ao número de leitos (80% de ocupação) nas diferentes UTIs, tanto na rede privada quanto na pública.

Nem por isso, os cuidados devem ser deixados de lado, alerta Glauco Westphal, que encerra a entrevista deixando um apelo à população:

“A Covid-19 é um problema real, não é uma invenção, tem um potencial grande de gravidade e coloca muitas pessoas em risco. Portanto, é fundamental que as pessoas atendam o pedido de isolamento social e a orientação de uso de máscaras.  Não há remédio milagroso neste momento.”

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