Um estudo divulgado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), divulgado nesta sexta-feira (21), aponta que um vírus ancestral, presente há 5 milhões de anos, está relacionado às mortes de pacientes graves infectados pelo novo coronavírus (Covid-19).
Covid-19 reativa vírus ancestral no genoma e leva a casos mais graves da doença, diz Fiocruz – Foto: Freepik/Divulgação/NDA pesquisa foi realizada entre março e dezembro de 2020, acompanhando 25 pessoas que desenvolveram sintomas graves da doença. A média de idade das pessoas era na faixa de 57 anos.
Nessas pessoas foi constatado uma presença maior do material genético do vírus HERV-K no trato respiratório. O HERV-K é a sigla em inglês para Retrovírus Endógeno Humano da Família K.
SeguirSegundo o estudo, isso não quer dizer que há um novo vírus circulando, mas sim, um microorganismo que, em algum momento da escala evolutiva, infectou ancestrais primatas e deixou parte do código genético nos cromossomos dos seres humanos.
Entre os pacientes do estudo, os em estado gravíssimo tinham um índice do HERV-K 50% maior do que aqueles que estavam em situação menos crítica e 80% maior do que em casos leves da doença e pessoas saudáveis.
“O HERV-K é um retrovírus endógeno, um vírus ancestral que infectou o genoma humano quando humanos e chimpanzés estavam se dissociando na escala evolutiva. Alguns desses elementos genéticos estão presentes nos nossos cromossomos”, diz o estudo.
“Muitos ficam silenciosos durante a maior parte da vida, mas parece que de alguma forma o Sars-CoV-2 reativou esse retrovírus ancestral. O índice de morte em pacientes graves de Covid-19 chega a 50% entre os que apresentam altos níveis de HERV-K”, completa.
Ou seja, conforme a Fiocruz, o Sars-CoV-2 reativa parte desse código, formando uma espécie de “quase vírus”, que é interpretado pelo corpo humano como um “invasor”.
Havendo essa “invasão”, o sistema imunológico sente que está sendo atacado por dois vírus diferentes, gerando uma resposta imunológica exagerada, que é o mecanismo que causa a morte de pacientes com a Covid-19. O corpo, lutando contra a infecção, desencadeia um processo inflamatório intenso.
Pesquisa inédita
A pesquisa é ainda a primeira evidência da presença desse retrovírus no trato respiratório e no plasma de pacientes graves de Covid-19. A presença do HERV-K — que ocorre também em outras doenças, como câncer e esclerose múltipla — pode ser usada como um biomarcador associado à gravidade em casos de Covid-19.
Níveis de HERV-K em porcentagem do viroma total. A coluna NS se refere à coleta em exames PCR de pessoas com Covid leve. As três colunas seguintes apontam os níveis do vírus na traquéia de pessoas que tiveram a doença de forma grave mas sobreviveram (cor verde), de forma grave seguida de morte (cor vermelha) e de pessoas que não tiveram a doença.- Foto: Fiocruz/ReproduçãoSua detecção precoce poderia reforçar o uso de determinadas estratégias, como o uso de anticoagulantes e anti-inflamatórios, comenta o coordenador do estudo, Thiago Moreno, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde.
A descoberta, inédita, é um passo para entender a atuação da Covid-19 no corpo humano e, futuramente, tentar desenvolver um tratamento para a doença.
O estudo
Em um primeiro momento, o estudo buscava apenas fazer uma análise de estrutura infecciosa dos casos gravíssimos da doença.
“Verificamos para ver se algum outro vírus estava coinfectando esse paciente que está debilitado”, afirmou à Agência Fiocruz Thiago Moreno, biólogo que coordenou o estudo.
“A nossa surpresa foi encontrar esses altos níveis de retrovírus endógeno K. É o tipo de pesquisa que parte de uma abordagem completa não enviesada. Isso dá muita força, muita credibilidade ao achado”, disse.
Vacina segue sendo medida mais eficaz contra a doença – Foto: Ivan Rupp/Prefeitura de Balneário Camboriú/DivulgaçãoAinda segundo Moreno, o aumento dos níveis do HERV-K pode ser usado como uma espécie de “medidor” da gravidade dos casos da Covid-19. Para ele, a detecção precoce poderia dar o caminho para o desenvolvimento de um tratamento para a doença com o uso de medicamentos anti-inflamatórios.
Vale ressaltar que, até o momento, não existe um medicamento para a doença. As únicas medidas, cientificamente comprovadas para evitar o vírus são o distanciamento social, vacinas, além do uso de máscara.
* Com informações do Estadão Conteúdo