Mais uma mãe viveu momentos de angústia diante da falta de UTIs pediátricas para o filho, de um ano e seis meses, no Sul de Santa Catarina. A situação aconteceu com a empreendedora e moradora de Içara Cláudia Silvestri.
Criança tem acesso a UTI em SC após quase 2 dias de espera – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/NDEla conta que o filho Aldo passou a necessitar de um leito após cair da cadeirinha, onde lanchava com a família em casa, no sábado (14) e bater a cabeça. O menino acabou desenvolvendo um coágulo e precisou passar por uma cirurgia delicada no fim de semana.
“Foi a partir daí que começou a nossa luta por um leito no Estado, depois de recebermos a notícia que não tinha nenhum disponível no Hospital Materno-Infantil de Santa Catarina (HMCIS) e quatro crianças ainda aguardavam na frente do Aldo”, conta Cláudia.
SeguirA família, então, decidiu se mobilizar nas redes sociais e pedir ajuda a diversas autoridades, mesmo assim a transferência de Aldo para um leito de UTI aconteceu somente nessa segunda-feira (16) à noite. Ele estava internado no Hospital São José, em Criciúma.
“Era quase oito horas quando a ambulância chegou. Foi muita festa. A família estava lá embaixo aguardando. Aldo foi aplaudido. E eu e meu esposo fomos no nosso carro colado atrás da ambulância até o hospital de Tubarão”, lembra Cláudia.
Familiares comemoram transferência – Vídeo: Divulgação/ND
Segundo a mãe, o estado de saúde de Aldo, no momento, é grave. “Ele está entubado e em coma induzido. Está com um dreno na cabeça e respirando com a ajuda de aparelhos”, informa. O pequeno se encontra na UTI pediátrica do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão.
Aldo não é o único em SC
Ao lado dele também está o menino Joaquim, de três anos e cinco meses. Ele sofre de paralisia cerebral e buscava por um leito de UTI desde o fim de semana, quando apresentou problemas respiratórios. O caso iniciou no sábado (14).
A luta de Cristina para salvar o filho – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDNa data, a mãe Cristina Gonçalves, moradora de Turvo, conta que levou o pequeno para Hospital São Sebastião na cidade, onde ele foi consultado e ganhou alta. Contudo, ao retornar para a casa, sofreu uma parada cardíaca e precisou voltar para o hospital, dessa vez, conduzido pelos bombeiros.
Desde esse episódio, Joaquim teve que ficar internado na unidade hospitalar. “Foi aí que começou a nossa luta, porque o hospital não tem estrutura para manter uma criança lá. É um hospital só de pronto-atendimento”, comenta Cristina.
Na manhã seguinte, o garoto teve uma nova parada cardíaca e precisou ser entubado na emergência do local. “Depois disso tentamos transferência para todo e qualquer tipo de hospital de Santa Catarina e nenhum disponibilizava de leito de UTI“, afirma.
A família de Joaquim, então, decidiu acionar uma advogada já conhecida para conseguir uma judicialização de leito. “Porque é um direito de todos terem vaga de leito e não estavam cumprindo com isso”, revela a mãe.
O pedido foi feito junto ao Ministério Público da comarca, contudo, o recurso acabou sendo negado. O apelo, então, foi parar no Ministério Público Federal que autorizou, por meio de liminar, a internação em, no máximo, um dia. Entretanto, os problemas continuaram.
Um hospital particular de Criciúma chegou a ofertar uma vaga de leito na UTI. “Ficamos eufóricos. O Joaquim começou a se estabilizar e nós começamos a arrumar o quadro dele para poder fazer uma possível transferência de helicóptero ou ambulância. Quando estava tudo pronto, o hospital retirou a oferta”, conta a mãe.
Mesmo como uma liminar em mãos, a família de Joaquim não conseguia um leito de UTI. O jeito foi mobilizar amigos e conhecidos para cobrar amparo do Estado. “A gente que é mãe quando mexem com o nosso filho, a gente faz o possível e o impossível”, declara Cristina.
Joaquim acabou sendo transferido às 22h deste domingo (15) para o hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão, onde segue internado na UTI em estado grave.
Mãe escancara falta de UTIs no Estado
Assim como Cláudia e Cristina, a maquiadora e influenciadora digital Marilia Gabriela Furlan também viveu momentos de desespero em Criciúma, no Sul do Estado, após o filho Caetano, de dois meses, precisar ser internado em uma UTI pediátrica por apresentar quadro de bronquiolite.
Mãe que gastou R$ 10 mil diários para internar bebê em SC escancara falta de UTIs pediátricas – Foto: Internet/Reprodução/NDInicialmente, Marilia buscou no sábado (14) atendimento no HMISC (Hospital Materno-Infantil de Santa Catarina), mas diante da fila de espera resolveu levar o pequeno até um hospital particular da cidade, onde ele precisou ser internado imediatamente.
“Como não tinha leito no SUS, internamos na UTI aqui mesmo particular. Quando surgiu a possibilidade de um leito, preferimos não transferir para preservar o tratamento dele. Não seria interessante ele sair daqui. Nesse momento pouco importava valores, só a vida dele”, revela Marilia ao ND+.
Para custear três diárias de internação no hospital, ela precisou fazer um empréstimo e desembolsar R$ 22 mil. O total daria cerca de R$ 30 mil, mas a instituição aceitou o valor.
Abalada e revoltada com a situação, Marilia compartilhou em seu perfil o que estava vivendo junto com os seguidores e amigos. Logo, eles se mobilizaram no fim de semana e cobraram uma atitude do Estado, além disso, criaram uma vaquinha para custear o tratamento de Caetano.
Ainda no domingo (15), veio a boa notícia: a SES (Secretária de Estado Saúde) confirmou, por meio de nota, que iria arcar com os custos de internação do bebê até que seja realizada a transferência dele para o sistema público.
“Agora estou aguardando o Estado entrar em contato, não sei como isso funciona. Tem uma amiga me ajudando, porque estou sempre com o Caetano aqui na UTI e muito abalada emocionalmente, mas resolvendo tudo conforme possível”, diz Marilia.
A vaquinha feita pelos amigos da influenciadora, até esta segunda-feira (16), já havia arrecadado mais de R$ 40 mil. O valor, caso o Estado não arque com os custos, será destinado para o tratamento de Caetano e para outras mãe que estariam vivendo a mesma situação no Estado.
Neste momento, Caetano continua hospitalizado em Criciúma. “O quadro dele ainda é grave. Ele segue entubado com medicação para manter o coração e máquina para oxigênio, mas já está melhor”, comenta a mãe.
Marilia agora torce pela recuperação do filho. “Eu choro muito, me culpo, me questiono, mas enxugo as lágrimas para conversar no ouvidinho dele e dizer que vai ficar tudo bem, Deus está cuidando da gente por meio de tanto amor que estamos recebendo e de nos permitir ter acesso a uma equipe médica tão competente”, declara a maquiadora.
Sul de SC com um leito pediátrico
Segundo dados do boletim epidemiológico do coronavírus, publicado nessa segunda-feira (15), o Sul catarinense registra 75% de ocupação em leitos pediátricos. De quatro disponíveis no momento, apenas um está livre.
Já Santa Catarina contabiliza 98% de ocupação, com 96 leitos pediátricos sendo utilizados. Há dois disponíveis apenas na Região de Foz do Rio Itajaí e no Sul catarinense. Já a ocupação na UTI neonatal é menor: 96,6%, com sete leitos disponíveis no Estado.
O que diz o Estado?
Conforme a SES (Secretaria de Estado da Saúde), nessa segunda-feira (16) houve uma reunião para determinar diversas frentes de trabalho buscando, principalmente, ampliação da oferta de leitos de UTI pelo SUS.
Entre as iniciativas, a SES destacou ações preventivas para as doenças respiratórias sazonais – responsáveis pela maioria dos atendimentos – e o mapeamento e aquisição de leitos.
Em paralelo, a pasta afirmou que o Estado vem garantindo o atendimento a todos os catarinenses, seja por meio de compra de leitos na rede privada, seja por transferência para outras unidades de federação quando identificada a necessidade e viabilidade.
“Não estamos medindo esforços para qualificar ainda mais os atendimentos pediátricos. Nós, como Secretaria de Estado da Saúde, estamos debruçados sobre o tema. Hospitais já foram mapeados na busca de ampliar esses leitos à disposição”, explica o secretário Aldo Neto.
Vacinação
A secretaria também alertou sobre a importância da vacinação infantil contra a gripe (influenza). As crianças de 6 meses a 9 anos têm direito à dose no Sistema Público. No entanto, na campanha de vacinação deste ano, apenas 20,3% desse grupo foi imunizado até o momento em Santa Catarina.
“A vacinação é fundamental, precisamos urgentemente que os pais levem suas crianças para serem imunizadas. Além disso, é importante que os familiares estejam atentos as condições clínicas e as acompanhem até as unidades básicas de saúde. Se a criança for rapidamente diagnosticada e medicada, nós evitamos um agravamento do quadro e que ela venha a necessitar de uma UTI”, complementa o secretário.
Ampliações já em desenvolvimento
Nessa segunda-feira (16), o HIJG (Hospital Infantil Joana de Gusmão), de Florianópolis, também reativou nove leitos de internação. Nos próximos dias, serão mais quatro unidades. O espaço estava dedicado ao acolhimento de pacientes com Covid-19.
Com a reativação, a unidade abre espaço para receber crianças que chegam na Emergência com necessidade de internação. Nos últimos 30 dias, o HIJG já havia aberto outros oito leitos no intuito de minimizar a lotação das unidades de internação. .