As restrições ou flexibilizações das atividades em Santa Catarina acontecem de acordo com o cenário exibido pela matriz de risco potencial da Covid-19 no Estado. Os resultados dessa matriz são apresentados em um mapa que divide o território catarinense em 16 macrorregiões.
Especialistas apontam falhas na estratégia de controle da Covid-19 em SC – Foto: Arquivo/Flávio Tin/NDMas e se o mapa de risco não corresponder com a real situação da doença no Estado? Como autoridades sanitárias podem basear suas decisões na ferramenta se os dados estiverem desatualizados?
Para responder essas e outras questões, o ND+ conversou com especialistas sobre a estratégia de controle e monitoramento da pandemia adotada pelo Estado.
SeguirPara Josimari Telino de Lacerda, professora do Departamento de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), o mapa de risco nos dá um cenário do passado e não do presente.
“Estamos olhando para trás”
A forma como os dados são calculados não estariam refletindo a realidade, de acordo com Josimari. Ela afirma que a matriz de risco tem um atraso de cerca de 14 dias, que é o tempo médio entre os primeiros sintomas, o diagnóstico positivo para Covid-19 e a entrada desse dado no sistema do Estado.
Mapa de risco divulgado pela SES nesta quarta-feira (4) – Foto: SES/Divulgação/NDQuando esse caso é computado na matriz, no entanto, já é considerado “antigo”. “É como olhar para trás”, diz a professora.
Esse cenário já havia sido relatado pela especialista em Epidemiologia do Coes (Centro de Operações de Emergência em Saúde), Maria Cristina Willemann, e pelo chefe do Departamento de Saúde Pública da UFSC, Fabrício Augusto Menegonen, em entrevista ao ND+ no fim do mês de outubro.
Willemann comentou que o aumento no número de casos no Estado teria sobrecarregado os municípios, que demoraram mais para contabilizá-los.
O biólogo Luiz Almeida, PhD em Microbiologia pelo ICB-USP (Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo) segue a mesma linha. Ele diz que há demora no diagnóstico dos casos e na atualização dos dados.
Isso acaba gerando mais casos positivos e consequentemente, mais internações hospitalares e mortes. Para o biólogo, testes mais rápidos e eficazes poderiam resolver o problema.
Atraso é ainda maior com óbitos
A desatualização dos dados é ainda pior quando se trata dos óbitos causados pela Covid-19. Isso porque, conforme Josimari, o óbito necessita de maior investigação. Testes realizados após a morte, também costumam ser mais problemáticos.
Estudos indicam que no Brasil, apenas 3% dos óbitos são registrados no dia seguinte à ocorrência; 51% dos óbitos são registrados 14 dias depois e 25% são registrados até depois de um mês da data da morte.
Com todo esse atraso, não é possível apresentar dados brutos em uma matriz sem fazer cálculos que ajustem essa defasagem.
Como funciona o mapa
No atual mapa de risco, cores indicam os níveis de gravidade de cada macrorregião com relação ao vírus: vermelho (gravíssimo), laranja (grave), amarelo (alto) e azul (moderado). Além disso, quatro dimensões – preconizadas pela OMS (Organização Mundial da Saúde) – são levadas em consideração na avaliação da matriz de risco:
- Evento sentinela: mede a mortalidade da Covid-19 e aponta se a pandemia continua em expansão;
- Transmissibilidade: mede a variação no número de confirmação e casos ativos;
- Monitoramento: mede os casos investigados e inquérito de síndrome gripal na comunidade;
- Capacidade de atenção: mede a ocupação dos leitos de UTI.
Ajuste de dados
A professora Josimari, que também é membro da iniciativa independente Observatório Covid-19 BR, diz que é preciso ajustar as estimativas de todos os cálculos relacionados à doença.
Para isso, o Observatório utiliza uma ferramenta estatística conhecida como “nowcasting”, que corrige o atraso no sistema de notificação da Covid-19, decorrente da demora no processamento dos exames diagnósticos. A técnica foi, inclusive, adotada pela Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo.
Corrigir os últimos dias e estimar os números reais dos casos é possível porque, apesar de ser uma doença nova, a forma como se manifesta já é conhecida. Sabe-se o tempo médio que a doença leva entre o sintoma e o registro.
Na estimativa feita pelo Observatório, por exemplo, a região da Grande Florianópolis, sobretudo, a Capital, já estava em uma situação gravíssima há mais tempo.
Ainda assim, a região só entrou no nível vermelho na última atualização do mapa de risco, divulgada pelo Governo do Estado nesta quarta-feira (4).
Alternativas de monitoramento
Pela plataforma Social Good Brasil, o Engin (Laboratório de Engenharia da Integração e Governança do Conhecimento) do Departamento de Engenharia do Conhecimento da UFSC criou a matriz GUTAI Covid-19.
O objetivo desse produto de dados, especificamente, é auxiliar os responsáveis pelo combate à pandemia a tomar decisões de acordo com fatos e evidências. A matriz trabalha com cinco critérios e cinco níveis de gravidade.
Nesta matriz, Florianópolis encontra-se no nível gravíssimo para o índice que mede a ocupação de leitos de UTI do SUS, o índice de urgência de leitos clínicos para Covid-19 e o índice de abrangência territorial de contaminação.
Gestão deve eleger prioridades
É pela matriz de risco que o poder público se baseia no momento de restringir ou flexibilizar um serviço. Eventos sociais, por exemplo, foram liberados em regiões de nível alto (amarelo).
Mas e se determinada região nesse nível apresentar, na verdade, um cenário mais grave do que o indicado na matriz? Sendo assim, as medidas de prevenção ao coronavírus estariam sendo baseadas em dados antigos.
Para Josimari, flexibilizações devem ser feitas com segurança, responsabilidade e a partir de dados precisos.
Além disso, é necessário ter cautela e eleger as prioridades, ou seja, aqueles serviços que são realmente essenciais. Ela cita o caso da Europa que, após o aumento do número de casos, voltou a restringir serviços.
Neste sentido, a precisão da matriz de risco quanto aos casos se torna de extrema importância, pois, conforme Josimari, “à medida que os dados não são ajustados, fornecem uma informação equivocada à gestão e a consequência disso é a manutenção da doença, aumento de casos e óbitos que poderiam ter sido evitados”.
O biólogo Luiz Almeida também defende o fechamento de serviços não essenciais. “Por mais que a gente saiba que é difícil para o comerciante, manter pessoas circulando em bares, restaurantes e shoppings não é ‘essencial’”. Para ele, a reabertura só será feita com total segurança quando existir uma vacina.
“Terceirização” prejudica
O governo de Santa Catarina adotou a regionalização das restrições em maio. Com isso, os prefeitos têm autonomia para endurecer medidas criadas por decretos estaduais.
Para Almeida, essa “terceirização” da responsabilidade sobre a pandemia, acaba prejudicando a população, que não sabe que regras seguir e a quem escutar. Josimari acredita que em uma pandemia, deve existir um alinhamento entre os níveis de gestão federal, estadual e municipal.
Sendo assim, a professora diz que a divisão da matriz de risco em macrorregiões é desfavorável. Isso porque dentro dessas regiões, há diferenças entre os municípios.
“A matriz diz que a gestão deve se ambientar pela região, com o argumento que a doença é transmissível e todos têm que tomar as mesmas medidas. Se o mapa diz que uma região é grave, mas certo município dessa região tem situação gravíssima, é preciso adotar medidas específicas para controlar a expansão da pandemia”, afirma.
Em um mês, testes represados crescem 1.022%
Um fator importante para monitorar a Covid-19 é diagnosticar os doentes. Em Santa Catarina o número de testes represados pelo Lacen (Laboratório Central de Saúde Pública) cresceu 1.022% em outubro. No dia 1º daquele mês, 255 exames aguardavam resultado, enquanto no dia 30, o total era de 2.863 represamentos.
Os dados são dos boletins diários sobre a Covid-19 divulgados pela SES (Secretaria de Estado da Saúde). O gráfico a seguir também utiliza essa base de dados.
Mesmo com a divulgação de números sobre infectados, mortos e recuperados não foi possível localizar informações sobre o represamento de testes no dia 31 de outubro. Assim, a reportagem considerou os dados do dia anterior para o cálculo.
Ao longo do mês de outubro a quantidade de testes represados chegou a superar o computado nas mesmas datas em agosto e setembro. No dia 25 de outubro foi registrado um pico, enquanto nos dois meses anteriores houve uma queda no número de testes em espera. Naquela data, 3.208 testes aguardavam resultado no Lacen.
O número alto se manteve por dois dias até apresentar uma queda de 1.840 testes no dia 28. Contudo, o represamento voltou a subir no dia seguinte.
Recorde de 11 mil represamentos
Em junho, o Lacen reconheceu que a falta de um reagente provocou o represamento de cerca de 1 mil testes. A justificativa à época era de que o desabastecimento era temporário e acontecia em todo o país.
A falta do kit de extração levou o Estado a priorizar a testagem de casos graves e pacientes internados. Casos leves seriam testados quando os insumos chegassem.
Lacen já chegou a ter 11 mil testes represados – Foto: PMB/Divulgação/NDMesmo com a chegada de 5 mil kits para a realização de testes, o número continuou subindo, atingindo a pior marca em 26 de julho quando 11.456 exames ficaram represados na unidade.
No mês de julho aconteceu o que é considerado o primeiro pico da pandemia no Estado. No dia 31, a SES havia computado 84.073 infectados, número 219% maior do que o total de casos de junho.
Municípios fazem mais testes rápidos
Além da defasagem outra questão é qual o tipo de teste aplicado na população. Segundo dados da SES, municípios como Joinville tem mais testes rápidos notificados do que os tipo PCR. São 43.545 do primeiro grupo, contra 38.041 do segundo.
Membro do observatório Covid BR, Josimari Telino de Lacerda, alerta que o teste rápido pesquisa se a pessoa teve contato com o vírus, mas não informa se ela está doente ou não.
“Numa doença transmissível é importante identificar as pessoas que estão com o vírus no corpo ainda, para tomar uma decisão. E isso quem informa é o PCR”, diz professora.
Ao realizar um teste do tipo PCR e confirmar o diagnóstico, explica Josimeri, é possível isolar o doente até que o vírus não esteja mais ativo. Quando se trata do teste rápido, o vírus não é identificado e não é mais possível fazer uma medida de controle.
“É muito mais um apelo industrial do que necessariamente uma medida adequada para a saúde pública”.
Além de Joinville, municípios como Itajaí, Criciúma, Brusque, Xanxerê, Lages e Navegantes também notificaram mais testes rápidos do que PCR ao Estado. Um dos casos que mais chama atenção é o de Videira, no Oeste. Lá, foram feitos 6 mil testes rápidos contra 1 mil PCR.
Contrapontos
Sobre a ferramenta nowcasting, a reportagem conversou na manhã desta sexta-feira (6), com Maria Cristina Willemann, especialista do Coes. Ela disse que a ferramenta está sendo estudada pela equipe, sobretudo, para o acompanhamento de casos.
No entanto, Willemann destacou que a implementação do modelo matemático na matriz de risco requer mais debate e validação por dois motivos.
O primeiro é que os dados computados pelo Estado são encaminhados pelos municípios, que conferem essas informações para evitar divergências. Como a ferramenta nowcasting faz um ajuste na estimativa de dados, a possibilidade de conferência é perdida.
O outro motivo tem relação com o intervalo de confiança adotado pela ferramenta. O dado produzido por esse intervalo pode divergir da informação prestada pelo município.
“A ferramenta é válida, mas ainda está em negociação entre municípios, estados e todas as equipes envolvidas na matriz. Pode ser que aconteça em breve, mas ainda não batemos o martelo”, afirmou Willemann.