A legislação brasileira estabelece a prefeituras, estados e a União atribuições bem definidas em termos de saúde pública. Cada ente tem uma competência, desde a atenção básica até ao atendimento de alta complexidade. Mas, no enfrentamento à pandemia de Covid-19, as esferas têm uma responsabilidade comum.
O professor Fabrício Menegon, do Departamento de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) explica que “a atribuição da gestão do sistema de saúde é impositiva do ponto de vista legal, mas é solidária”.
Entenda as responsabilidades do governo federal, estadual e das prefeituras em temas como a vacinação e nas ações de enfrentamento à pandemia em SC – Foto: Julio Cavalheiro/Secom/ND“Os entes federativos podem contribuir entre si. Esse discurso que a gente tem ouvido, um delegando a responsabilidade ao outro, isso não existe. Eles são corresponsáveis”, afirma o professor.
SeguirSegundo ele, como são agentes públicos, que atuam por políticas, devem conversar e chegar a consensos no enfrentamento à pandemia. Para Menegon, esse é o grande desafio.
“Em situação de pandemia, as decisões e ações têm que ser mais rápidas, esperávamos que essa estrutura consolidada de entendimentos fosse usada. O que vimos foi uma distorção, um apontar de dedos. Ninguém quer tomar decisões difíceis”, ressalta o especialista em saúde pública.
Ele também salienta que as decisões em uma pandemia não são simples, mas devem ser tomadas pelo poder público. E quando o poder público não as adota, o cidadão também não vai adotar.
O conselheiro estadual da OAB-SC (Ordem dos Advogados do Brasil em Santa Catarina), Rogério Duarte, ajuda a compreender o funcionamento dos decretos restritivos.
Na quarta-feira (10), o governador Carlos Moisés (PSL) e secretários de Estado se reuniram com prefeitos. Entre as medidas dessa reunião para o enfrentamento à pandemia, por exemplo, ficou mantido o lockdown nos finais de semana em Santa Catarina.
Essa decisão foi possível porque, no ano passado, o STF (Supremo Tribunal Federal) definiu que estados e municípios poderiam restringir atividades não essenciais.
O cenário após o “lockdown parcial” em Chapecó era esse: ruas desertas e lojas do centro da cidade fechadas – Foto: Willian Ricardo/ND“Com o caos que se instaurou em abril de 2020, o Supremo entendeu que estados e municípios poderiam adotar medidas sanitárias e de distanciamento social restritivas. Em tese, os municípios podem ser mais restritivos do que os estados nessas medidas”, explica Duarte.
Ele lembra, em seguida, que Santa Catarina está adotando a regra de restrição das atividades nos finais de semana, mas o município de Chapecó, no Oeste, por exemplo, adotou lockdown mais severo, em razão da sua realidade.
Todos pela vacina
Conforme o PNI (Plano Nacional de Imunização), a vacina é de competência do Ministério da Saúde. “O PNI ordena aquisição e distribuição de vacinas para estados e municípios. Mesmo no contexto de pandemia, o correto seria que o plano fizesse essa estratégia. Nesse sentido, a responsabilidade pela aquisição de vacinas, em primeiro nível, é do governo Federal”, aponta.
O professor avalia que o governo Federal não se movimentou para a aquisição de vacinas e por isso a possibilidade da compra de imunizantes foi descentralizada para estados e municípios.
Para Rogério Duarte, a possibilidade de estados e municípios comprarem as doses não é solução tão simples, pois quando a União negocia uma compra, tem um peso maior, perante grandes laboratórios internacionais.
“Uma coisa é o Brasil falar com a Rússia, outra é a Fecam [Federação Catarinense dos Municípios] falar com a Rússia”, pontua o conselheiro da OAB-SC.
O conselheiro afirma que o governo Federal é responsável principal pela compra de vacinas. “Por mais que existam desvios, como o caso dos respiradores em Santa Catarina, a vacinação insuficiente, e a não adoção das medidas de distanciamento partem de uma atitude, a meu ver, errônea do governo Federal”, afirma Rogério Duarte.
Santa Catarina recebeu novo lote com 86 mil vacinas nesta quarta-feira (10); elas foram para a central de distribuição da Secretária de Estado da Saúde, em São José – Foto: Maurício Vieira/Secom/NDPara ele, com a saída de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde – em abril de 2020 – acabou a convergência de ação entre estados e governo Federal.
Execução de políticas públicas
Além de promover medidas adequadas de enfrentamento à pandemia, por exemplo, a interrupção de atividades não essenciais, os estados têm uma série de atribuições.
Para falar sobre eles, Menegon destaca novamente a corresponsabilidade dos três entes. “O SUS, as leis orgânicas da saúde, preveem a responsabilização dos três entes. Existe uma questão de centralização de algumas ações. O Estado seria responsável pela execução da política pública de saúde”.
Fabrício Augusto Menegon, professor do departamento de saúde pública da UFSC há quase uma década, avalia que políticos nas três esferas fogem das decisões mais difíceis – Foto: Divulgação/NDA habilitação de leitos de UTI, por exemplo, é de responsabilidade dos estados. O Ministério da Saúde, entretanto, pode cofinanciar a habilitação, mas a responsabilidade é dos estados.
Estados também gerenciam hospitais, compram equipamentos e contratam equipe. São responsáveis, ainda, pela aquisição de insumos, entre eles, medicamentos e oxigênio usados nos hospitais.
Também são atribuições do Estado estruturar as equipes para o monitoramento epidemiológico, a compra de testes rápidos, a contratação de equipe para executar os testes e a estruturação de laboratórios para rodar os testes de forma rápida. No caso das vacinas, o governo é responsável pela distribuição das doses que chegam do Ministério da Saúde.
Municípios e a atenção básica
A principal atribuição dos municípios é a oferta de serviço de atenção primária à saúde. “Uma rede forte e competente na atenção primária: unidades básicas de saúde bem montadas, com equipes de saúde completas, que deem conta de abranger todo território sanitário do município”, ressalta Fabrício Menegon.
O município também compra medicamentos previstos na Rename (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais), que são distribuídos nas unidades de saúde.
Em alguns casos, a exemplo dos medicamentos de alto custo, o Estado entra com uma contrapartida na compra, mas a responsabilidade é dos municípios.
O Governo Federal é o principal responsável pela compra de vacinas; os Estados distribuem e as Prefeituras aplicam – Foto: Ricardo Wolffenbuttel/SecomOs municípios também são responsáveis pela aplicação das vacinas da Covid-19, devem cuidar dos casos ativos da doença e garantir que os testes comprados pelo Estado sejam utilizados. Caso tenha recurso, os municípios também podem adquirir testes e, mais recentemente, as vacinas.