De remédios em estudos a antibióticos: como se trataram os recuperados da Covid-19

nd+ conversou com alguns dos recuperados e especialistas na área para falar sobre os medicamentos aplicados e o que se sabe até agora sobre a doença

Caroline Borges Florianópolis

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Essa não é uma resposta fácil. Apesar dos vários estudos em andamento, não há cura para a Covid-19. Tão pouco Santa Catarina, país e médicos possuem dados consolidados sobre como os pacientes se recuperaram da doença, que já foi responsável por 1.175 mortes no Estado. O que se sabe, porém, é que mais de 74 mil pessoas diagnosticadas com o vírus são consideradas recuperadas pela SES (Secretaria de Estado da Saúde) até a noite do último domingo (2). 

Com muitas perguntas e sem abordagem unificada, os tratamentos e as respostas para a doença têm sido diferentes em cada paciente. O nd+ conversou com alguns dos recuperados e especialistas na área para falar sobre os medicamentos aplicados e o que se sabe até agora sobre a doença.

De remédios ainda em estudos à antibióticos: como se trataram os recuperados da Covid-19 – Foto: Anderson Coelho/NDDe remédios ainda em estudos à antibióticos: como se trataram os recuperados da Covid-19 – Foto: Anderson Coelho/ND

Primeira pessoa a ser diagnosticada com o vírus em Brusque, no Vale do Itajaí, Eduardo Ballester usou hidroxicloroquina e ivermectina. Cirurgião torácico, o médico de 41 anos teve os primeiros sintomas da Covid-19 em 16 de março, enquanto operava um paciente. 

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Com a falta de insumos para o exame e poucas informações sobre a doença, Eduardo se isolou em casa e teve o diagnóstico confirmado após uma tomografia. O exame laboratorial veio 12 dias depois. 

édico atua em Brusque e Blumenau – Foto: Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/NDédico atua em Brusque e Blumenau – Foto: Foto: Arquivo pessoal/Reprodução/ND

Vendo seu quadro clínico piorar em casa, o médico recebeu de sua pneumologista a prescrição para usar os remédios. Sem comorbidades e com a saúde em dia, Eduardo tomou o remédio por cinco dias. 

“Não tinha nem estudo a respeito, mas era a única esperança e eu estava com bastante dor para respirar. Foi uma opção nossa tentar”, avalia o médico. Ele deixou de apresentar os sintomas da doença em abril.

Apesar do depoimento de Eduardo, a OMS (Organização Mundial de Saúde) ainda não conseguiu comprovar cientificamente e benefícios de remédios em questão. No início deste mês, o órgão chegou a suspender os testes com a cloroquina após resultados negativos. 

De uso controlado, a hidroxicloroquina tem efeito imunomodulador. O objetivo da droga é controlar infecções e aumentar respostas imunes contra determinados microrganismos.

O medicamento é usado para tratar doenças autoimunes, como artrite reumatoide. 

A cloroquina é um remédio similar e que leva as mesmas substâncias da hidroxicloroquina. Ambos têm efeitos colaterais e as toxicidades variam de acordo com o organismo de cada pessoa. Veja no site da Anvisa mais informações.

Já a ivermectina é um remédio usado para tratar infecções causadas por parasitas. A possível eficácia da droga no tratamento da Covid-19 foi impulsionada por uma pesquisa da universidade Monash University. O estudo detectou a eliminação de 100% do coronavírus em células no período de 48h. Não foram realizados por esses pesquisadores testes em humanos. Veja aqui os detalhes

“Me deu alergia”, conta professor recuperado

Guilherme Wolfgang Weinzierl, de 67 anos, viveu uma verdadeira batalha contra a Covid-19. E após 40 dias internado, venceu. Morador de Blumenau, o professor de matemática chegou a tomar hidroxicloroquina enquanto estava desacordado na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). No entanto, o remédio foi suspenso após efeitos colaterais. 

“Fiquei 13 dias na UTI e não sei de absolutamente nada do que aconteceu. Mas, por acaso, eu vi no relatório de internação que nos primeiros quatro dias eu tomei a tal da hidroxicloroquina, mas eles pararam porque me deu alergia no corpo”, conta. 

Remédio foi suspenso após efeitos colaterais – Foto: Corte/NDTV/ReproduçãoRemédio foi suspenso após efeitos colaterais – Foto: Corte/NDTV/Reprodução

“Eu acho que não ajudou. Até porque naquele momento o meu pulmão tava bem complicado”, disse o professor sobre o uso do remédio.

Com a retirada do medicamento, os médicos trataram a infecção pulmonar com antibióticos. Guilherme também permaneceu conectado a um respirador artificial para ajudar na respiração. 

O responsável por autorizar o uso da hidroxicloroquina foi o sobrinho, que o auxiliou durante a doença. Como protocolo adotado por hospitais e médicos, a prescrição dos medicamentos não regulamentados – chamados de off label – precisam de autorização dos pacientes, ou, no caso do professor, que estava desacordado, de familiares. 

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Após a recuperação da UTI, Guilherme ainda foi diagnosticado com a superbactéria KPC e precisou ficar mais 12 dias internado. Considerado recuperado, o professor faz fisioterapia pulmonar por causa da infecção causada pela Covid-19.

Ele segue sendo acompanhado por médicos e tem a orientação de fazer exames regularmente, já que além da idade acima de 60 anos, possui pressão e colesterol altos. 

Autonomia do médico

Especialista em saúde pública, a epidemiologista e doutora Ana Luiza Curi Hallal acredita que a autonomia dos médicos na hora do tratamento para Covid-19 deve prevalecer. No entanto, a professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) enxerga uma confusão em relação ao uso indiscriminado dos remédios que não possuem comprovação científica. 

“Se ele [médico] estiver seguro que este é o melhor tratamento para o paciente dele, ele tem autonomia, liberdade de fazer o tratamento que ele achar adequado, mas isso é muito diferente de se extrapolar para uma política pública onde um prefeito distribui medicação para uma população”, afirma a especialista, citando os municípios que passaram a oferecer kits contra a Covid-19.

Segundo Hallal, existe diferença entre prevenção – que deve ser feita com isolamento social e medidas de higiene – e tratamento precoce, que tem que ser acompanhado de um médico. Além disso, a médica alerta que as medidas possam estimular a automedicação. 

Pelas redes sociais, cresce o número de receitas milagrosas que curam o vírus e a junção de medicamentos usados somente sob prescrição médica se misturam às poções. Além de “suco de limão uma vez ao dia”, perfis dão dicas de como fazer “soro com vitaminas injetáveis” e outras composições. “Isso também é muito grave”, diz a professora. 

Além disso, Hallal lembra que não há evidências científicas que comprovem a eficácia dos remédios, “muito pelo contrário, para cloroquina, os estudos recentes mostram que não ajuda no tratamento precoce para a Covid-19”, defende a médica ao citar um estudo conduzido por brasileiros e que usou dados do Hospital Baía Sul, em Florianópolis, do Hans Dieter Schmidt, em Joinville, e do Angiocor, em Blumenau. 

A análise reuniu 667 pacientes de 55 diferentes unidades de saúde do país e apontou que a hidroxicloroquina não melhorou o estado clínico de pacientes internados com o vírus. O estudo completo, publicado em inglês, está no New England Journal of Medicine

Abordagem precoce

Diretor Técnico do Hospital SOS Cárdio, Fernando Aranha está na linha de frente do atendimento aos pacientes mais graves internados por Covid-19. Defensor de uma abordagem precoce, o intensivista acredita que pacientes que tiveram um tratamento precoce “evoluíram melhor”. 

“Minha impressão é que o acolhimento, a abordagem e o tratamento precoce são capazes de mudar a evolução de alguns pacientes. A gente está falando de milhões de pessoas acometidas, E se eu conseguir interferir positivamente no mínimo percentual, a gente está falando de muitas vidas que podem ser salvas”, afirmou. 

Desde 9 de julho a recomendação do Ministério da Saúde é de que os infectados procurem tratamento médico nos cinco primeiros dias a partir da manifestação de sintomas. Pensando nisso, a ACM (Associação Catarinense de Medicina) lançou uma campanha na última semana falando da necessidade do atendimento precoce. 

“Apesar de eu trabalhar em UTI, acho interessante a ideia da prevenção, embora não possa garantir que funciona e acho importantíssimo a abordagem precoce que engloba o monitoramento e o tratamento”, disse Aranha. 

Morador de Florianópolis se recuperou sem remédios

Eduardo Henrique da Silva, de 38 anos, fez parte dos 80% de infectados que, segundo a OMS, têm sintomas leves ou não apresentam nenhum sintoma para a Covid-19. Para estes pacientes, as orientações normalmente não trazem nenhuma medicação específica, somente remédios para controle dos sintomas, como dipirona para febre. 

“Eu estou bem. Não tive sintomas respiratórios, falta de ar. Só tive a falta de olfato e paladar, dor no corpo, dor de cabeça leve e foi por isso que eu não tomei nenhum remédio”, conta o morador de Florianópolis, que teve os primeiros sintomas no fim de junho.

Além dos casos leves, a medicina classifica outros dois estágios da doença. Para os casos moderados, que atinge 15% dos infectados, o acompanhamento deve ser maior e alguns pacientes chegam a precisar de internação. Os casos graves, cerca de 5% dos infectados, vão precisar de cuidados mais intensos, como a ida para a UTI e o uso de respirador.

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