Dois meses. Este é o tempo médio que alguns moradores de Joinville, no Norte catarinense, têm levado para conseguir atendimento médico nas UBSFs (Unidades Básicas de Saúde da Família). Além da demora para conseguir a consulta, as agendas costumam abrir novos horários somente uma vez por mês.
Imagem ilustrativa – Foto: Prefeitura de Joinville/Divulgação/NDCom resultados de exames em mãos, Sonia dos Anjos precisou ir mais de uma vez ao posto de saúde da zona Leste da cidade para conseguir agendar médico, sem sucesso. Foi apenas na última quarta-feira (16) que conseguiu sair do local com a consulta marcada. A data, porém, é para meados de janeiro. “Meus exames estão vencendo e não consigo médico”, reclama.
Marcia Pereira Costa, que também é atendida na zona Leste, tem encontrado a mesma dificuldade. Além disso, conta que as informações são desencontradas. Anteriormente, foi informada que para agendar consulta de retorno precisava ter resultado de exames em mãos. Mas, ao chegar na unidade, foi informada que deveria ter comparecido no início do mês, às 7h, para tentar um horário.
Seguir“Eu não posso ir [neste horário]. Teria que pedir ao meu chefe para me atrasar no trabalho para agendar uma consulta para mim. Eu acho um absurdo porque, até um tempo atrás, a gente podia ir a qualquer hora e poderia agendar”, compara.
Em novo contato com o posto de saúde, informaram para a moradora que nova agenda seria aberta em 2 de janeiro e que ela deveria comparecer logo pela manhã para conseguir uma vaga.
Laize Regina Perguer também reclama do desencontro de informações. “Minha mãe foi lá com os exames prontos, chegou às 05h40. Quando eles abriram, às 7h, falaram que ela tinha que ir à tarde para agendar médico, sendo que quando a gente vai à tarde eles falam pra ir cedo de manhã, pois há poucas vagas por dia”, relata Laize.
O mesmo aconteceu com seu marido. Ele foi um dia pela manhã e, ao chegar no local, pediram para que ele retornasse na outra semana, já que não havia mais vagas. “Tem muitas pessoas reclamando do atendimento. […] Cada uma fala de um jeito”, comenta.
Atendimento de acordo com a demanda
Segundo o secretário de Saúde, Andrei Popovski Kolaceke, o número de vagas é definido levando em conta a demanda de cada região e as especificidades socioeconômicas. Além disso, por conta de uma definição do Ministério da Saúde, é destinada uma equipe de Saúde da Família para cada 4 mil habitantes.
Como a estimativa populacional só vem crescendo, o número de médicos nas unidades de saúde também aumentou nos últimos anos. Atualmente, há 169 médicos de Saúde da Família. Em 2019, eram 137. Entre os plantonistas, o número aumentou de 51 para 123 desde 2019. Com o resultado do Censo 2022, que pode indicar aumento populacional, também será possível aumentar o número de profissionais.
Atualmente, a equipe de Saúde da Família é responsável por programar os atendimentos médicos, os dividindo entre pacientes em acompanhamento, como crônicos e gestantes, enquanto a outra parte da agenda é direcionada para regime de demanda espontânea, ou seja, para pacientes esporádicos.
Letícia* é servidora pública de uma UBSF de Joinville e explica que, na sua unidade de trabalho, há somente uma equipe de saúde porque o local atende apenas 2,5 mil moradores. Neste caso, o atendimento é feito por demanda espontânea, a qual costuma funciona com êxito, afirma a profissional.
“Na nossa unidade, a maioria das consultas é realizada por demanda espontânea, por ordem de chegada, mas por prioridade. A maioria das pessoas é atendida no dia. Quando não dá, a gente pede para voltar no dia seguinte e se é uma situação mais urgente pedimos para ir no PA. Às vezes, o paciente vai lá, mas sói quando não temos recursos”, explica.
O restante da agenda é reservado para renovações de receita, para garantir que o paciente com medicações contínuas ou uso controlado não fique sem os remédios. Além disso, há agenda do pré-natal e puerpério, explica a servidora.
Andrei conta que esse modelo está sendo implantado aos poucos nas outras UBSFs da cidade. A mudança deve ocorrer ao longo de 2023. “É um processo que está passando por reformulação, para ingressar em outra modalidade de funcionamento, e podermos padronizar”, comenta.
Ao longo do próximo ano, a Secretária de Saúde planeja ofertar o número máximo de consultas no mesmo dia entre as já agendas e demandas espontâneas. Para Andrei, o novo modelo também tem a vantagem de reduzir as faltas em aproximadamente 20%, já que o paciente é atendido na hora e não corre o risco de não comparecer à consulta.
Joinville reabriu unidades de saúde que haviam sido fechadas por causa da pandemia – Foto: Prefeitura de JoinvilleDemanda reprimida
Conforme o secretário, outro fator que explica o aumento da demanda é a pandemia. Isso porque entre 2020 e 2022 foi necessário repensar o atendimento em saúde. UBSFs deixaram de atender a demanda cotidiana para cuidar somente dos casos de Covid-19.
O medo do contágio também fez com que muitas pessoas deixassem de procurar os serviços de saúde. Agora, a população tende a voltar a buscar os atendimentos, comenta o secretário. Com isso, muitas outras doenças acabaram se agravando neste período e necessitam de mais atendimentos. “As pessoas acabam chegando com doenças mais agravadas por conta da pandemia”, explica.
Neste ano, a Prefeitura de Joinville chegou a abrir concurso público para contratação de médicos. “Causa preocupação o aumento da demanda porque não temos verbas federais. Os aumentos [de profissionais] foram feitos com recursos municipais”, comenta o secretário.
Teleconsulta
Outro serviço que vem sendo aprimorado é o teleconsulta por meio do Ligue Web Saúde. “A teleconsulta hoje é para situações específicas. Joinville é pioneira nesse sentido. Estudo feito pelo Hospital Alemão Oswaldo Cruz avaliou o atendimento da teleconsulta para ver se havia prejuízo ou ganho pro paciente. Resultou positivamente, então estruturamos melhor o Ligue Web Saúde”, afirma Andrei.
O secretário explica que, atualmente, o Conselho Municipal de Saúde avalia o aumento no número de teleconsultas para a população. “Para termos uma outra alternativa de acesso, para pacientes que preferem. Não pode ser utilizado em todos os casos, então precisa existir um protocolo, triagem para dizer se pode ser teleconsulta ou presencial.”
Ainda assim, há especialidades médicas que não substituem as consultas presenciais, como oftalmologista, por exemplo. Para especialidades que não dependem de exame físico, de toque, a teleconsulta é muito indicada, indica o secretário. “Mas queremos direcionar a capacidade das consultas presenciais para aquelas que realmente precisam.”
*O nome foi modificado pois a fonte preferiu não se identificar.