A campanha Dezembro Vermelho é dedicada ao combate e à prevenção contra o vírus HIV. E em 2021 a data é reforçada porque há exatos 40 anos eram registrados os primeiros casos de Aids (Síndrome de Imunodeficiência Adquirida) e o consequente início da epidemia no mundo. Mesmo com o avanço da ciência e a disseminação de informações sobre o assunto, o estigma e o preconceito ainda estão entre as lutas de quem convive com o vírus.
Testagem é grande aliada na luta contra o HIV – Foto: Divulgação/NDNaquela época, a realidade das pessoas diagnosticadas com Aids era bem diferente. Segundo a médica infectologista Regina Célia Valim, gerente de IST, HIV/Aids e Doenças Infecciosas Crônicas da Dive/SC (Diretoria de Vigilância Epidemiológica), no início da epidemia a ciência tinha pouca informação sobre a doença tampouco disponibilizava tratamentos eficientes. “A perda de muitas personalidades acometidas pela doença marcou. A pessoa portadora do HIV leva isso no consciente até hoje, mesmo sem querer”, diz.
Laurinha de Souza Brelaz, de 60 anos, foi diagnosticada soropositiva em 1996. “Ninguém tocava no assunto Aids naquela época. Era um tabu nacional e internacionalmente. Eu e meu [falecido] marido nunca tivemos nenhum problema de saúde, sequer conversávamos sobre esse assunto. Não passava pela cabeça de ninguém que um casal heterossexual monogâmico poderia ter HIV”, lembra ela.
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Com o tratamento antirretroviral, Laurinha é indetectável – Foto: Arquivo pessoal/NDLaurinha mora em Florianópolis, é natural do Amazonas e contraiu Aids quando esta em seu segundo casamento. O companheiro não sabia que era soropositivo. Logo após o nascimento do primeiro filho do casal, o marido ficou de Laurinha ficou debilitado, foi internado na UTI e, após quatro dias, faleceu. No atestado de óbito: pneumonia atípica.
A causa da morte foi encaminhada para análise e depois de meses saiu o resultado. “Me chamaram no hospital para conversar, o médico me olhou e disse ‘infelizmente seu esposo faleceu de Aids’. Eu não acreditava. Eu gritava por todo o hospital, eu enlouqueci. No primeiro momento o médico mandou eu parar de amamentar meu filho para que ele parasse de correr riscos. Foi o momento mais doloroso da minha vida. Ter de parar de amamentar o meu filho. Doía tanto, foram várias perdas… Perda do meu marido, que eu amava enlouquecidamente, a interrupção da amamentação, o risco de meu filho ter HIV, o medo de morrer”, conta emocionada.
Laurinha e seu filho recém-nascido fizeram todos os exames e apenas ela foi diagnosticada soropositiva. Começou o tratamento em agosto de 1996, momento em que o coquetel antirretroviral causava muitos efeitos colaterais.
“Eu comecei a tomar os antirretrovirais, 26 comprimidos por dia. Era pancada. Mas eu tomava porque eu queria viver. No início de 1997 minha carga viral já não era detectada. Desde então eu estou indetectável e intransmissível. Faço exames de quatro em quatro meses para garantir”, explica.
Atualmente, segundo a infectologista, o medicamento mais usual é composto por três comprimidos: “Hoje em dia se fala até em simplificação de tratamento, tudo para facilitar o uso do medicamento e a adesão do paciente. É importante que não tenha um efeito adverso muito grande e que seja fácil de tomar para que ele não desista no meio. Isso também funciona como uma forma de prevenção porque a pessoa não vai mais transmitir para ninguém”, ressalta.
O aumento dos diagnósticos é um fator importante no combate ao vírus HIV e à Aids. Isso porque quanto mais precoce, mais efetivo é o tratamento. Na população que convive com o vírus busca-se o resultado I=I, que significa indetectável = intransmissível.
“A pessoa que toma a medicação sendo indetectável torna-se intransmissível. Tomar a medicação para quem vive com HIV traz dois pontos extremamente positivos: ela vai ter a mesma expectativa de vida de uma pessoa que não tem o vírus e não transmite mais”, disse a médica.
Estigma como fator agravante
“Eu já sofri muito preconceito, inclusive de médicos. Mas o primeiro preconceito que tive que encarar foi o meu, de me aceitar como soropositivo. Demorou um ano mais ou menos para eu digerir esse processo, entender”. O assessor parlamentar Fabricio Bogas Gastaldi, 32 anos, sempre defendeu a causa, antes mesmo de ser diagnosticado. Mas quando saiu o resultado do exame, sentiu medo de morrer.
Gastaldi e o marido tiveram reações ao vírus em intensidades diferentes. “Eu descobri logo no início, em 2014. Mas foi muito forte no meu corpo, tive herpes zoster, caxumba, diversas doenças porque eu estava com a imunidade muito baixa. E o meu marido ficou muito bem, logo depois [de iniciar o tratamento] já estava indetectável”.
Envolvido com a causa desde 2008, Gastaldi diz que sempre soube dos riscos e cuidados em relação ao vírus. “Sempre soube, mas na prática a gente sabe que nem sempre toma todos os cuidados possíveis. Quando a gente fala em prevenção combinada, a redução de danos é importantíssima, é reconhecer que existem práticas que trazem risco. A gente consegue agir para reduzir esses danos”.
Para Gastaldi, um dos grandes problemas do vírus HIV é o preconceito inserido na sociedade. “Sabe por que as pessoas continuam morrendo de Aids? Porque elas têm vergonha, medo. Tem todo um problema que é de ordem moral, não de ordem científica. A gente esbarra nesse preconceito e as pessoas se sentem sujas, sentem que são culpadas ou que vão transmitir de qualquer forma e não vão poder ter relações com ninguém. E isso é uma falácia”.
Gastaldi hoje convive com o vírus indetectável e intransmissível. Fala abertamente sobre o assunto, permanece envolvido com a causa e é presidente da organização ‘Acontece – Arte e Política LGBTI+’, que tem como objetivo “defender e promover por meio da política, da arte e da cultura o direito à liberdade de orientação sexual e identidade de gênero”. A organização trabalha frequentemente na reivindicação de direitos das pessoas que convivem com o vírus.
HIV em Santa Catarina
Entre os principais estigmas ligados ao vírus HIV está o de que apenas pessoas LGBT ou em frequente exposição na vida sexual se contaminam. Hoje há um trabalho de conscientização e os dados mostram que o vírus não escolhe seu público. Em Santa Catarina, a maior incidência de infecção pelo HIV é em homens de 20 a 29 anos, e depois dos 30 a 39 anos. Já nos casos de Aids, os que mais adoecem são os heterossexuais na faixa dos 30 e 39 anos, e depois entre 40 e 49 anos.
Segundo a Dive/SC, de 2019 para 2020 houve uma queda na quantidade de diagnósticos de infecções pelo vírus HIV no Estado. Em 2019, foram 2.169 casos, e em 2020, 1.618. No diagnóstico de Aids também houve essa redução. Em 2019 foram diagnosticados 1.236 casos e em 2020, 884. Número que, no entanto, não é passível de comemoração, uma vez que a teoria é de que essa queda esteja relacionada à pandemia, momento em que menos pessoas procuraram os serviços de saúde para testagem ou até mesmo tratamento.
Para a prevenção contra o vírus HIV e a Aids, o uso do preservativo é a principal arma. Mas há também outros aliados como a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição ao HIV) e a PEP (Profilaxia Pós-Exposição ao HIV). A médica da Dive/SC Regina explica que a PrEP é determinada para pessoas que não têm HIV, mas que se expõem diversas vezes e têm o risco elevado de contrair o vírus. Trata-se de uma medicação simples, um comprimido por dia e exames regulares para garantir.
Já a PEP é para aquela pessoa que se expôs ao vírus, teve um comportamento de maior vulnerabilidade e quer tomar os devidos cuidados profiláticos após o ato. É uma medicação que deve ser ingerida em até 72 horas após a exposição e mantida por 28 dias.
* Sob supervisão da editora Marina Simões.