Este é o segundo ano em que o dia do infectologista é comemorado em meio a números assustadores da pandemia da Covid-19. A data, celebrada neste domingo (11), marca a especialidade que atua diretamente no combate à disseminação do vírus, além de pesquisar como o coronavírus age no organismo.
Dia do Infectologista é celebrado em meio à pandemia pela segunda vez – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Divulgação/NDO trabalho incansável dos médicos e profissionais da saúde no combate à Covid-19, vem acompanhado de exaustão e perdas de familiares, amigos e colegas de trabalho. Para o médico infectologista Martoni Moura e Silva, o primeiro ano de pandemia não acabou, só ficou mais longo e cansativo.
“Esse último ano parece que não terminou. Por que a pandemia persiste com uma agressividade muito pior do que imaginávamos. Perdi meu pai, que enfartou dentro do hospital que trabalhava na Bahia, durante uma reunião para debater protocolo de Covid-19”, conta Martoni.
SeguirO médico iniciou a pandemia atuando no sistema público de saúde, mas foi infectado pela Covid-19 tendo um quadro moderado a grave da doença.
“Me tirou do combate no serviço público. Logo, passei a dar assistência ao serviço privado, o que também tem sido muito gratificante. Uma minoria precisei indicar internações. Isso foi e será gratificante”, destacou.
Martoni Moura e Silva é infectologista e atua no setor privado de saúde – Foto: Reprodução InstagramNo último ano, ser uma referência para amigos e família sobre o novo coronavírus tem sido desafiador para o infectologista Ricardo Freitas.
“A gente estuda muito, lê muito para desmistificar fake news. São sete dias por semana, 24 horas por dia, não há folga.”
E apesar da dedicação, as discussões são difíceis, especialmente quando negam a ciência.
“Foi desafiador e ainda está sendo porque é uma doença que o conhecimento ultrapassou os limites da infectologia. Às vezes fica difícil argumentar porque as pessoas têm pontos de vista diferentes e não entendem as informações que têm na mão”, pontua o médico.
Falta de compreensão da população
A possibilidade de vacinação em massa da população fez o médico começar 2021 otimista, o que não durou muito ao ver grande parte da população negligenciar as medidas de prevenção ao vírus.
“Me mantive otimista pela chegada da vacina do Butantan, mas infelizmente a população não contribuiu e o Brasil continua protagonizando novas variantes e elevados números de diagnósticos e óbitos assustadores”, lamentou Martoni.
Outro profissional da área é o infectologista Ricardo Freitas, que trabalha no Imigrantes Hospital e Maternidade e Hospital Azambuja, ambos em Brusque.
Freitas reitera o otimismo com a imunização. “Vimos que a vacina funciona, que os idosos não fazem mais parte dos pacientes nos leitos de UTI. O que aconteceu foi a vacina nessa faixa etária. É um alento”, diz. Tínhamos receio de que não podia funcionar, mas fomos em frente e os efeitos adversos são muito inferiores aos positivos”, ressalta.
O infectologista Ricardo Freitas trabalha em dois hospitais privados em Brusque – Foto: Arquivo pessoal/Divulgação/NDPara Martoni, o maior desafio deste primeiro ano da pandemia não foi apenas combater a doença, mas convencer as pessoas que o controle da pandemia só seria possível com a colaboração de todos.
“O maior desafio nessa pandemia foi convencer que todos nós somos responsáveis pelo combate a transmissibilidade. Convencer a usar máscara parecia fácil, mas convencer que não deveríamos fazer aglomerações nem festas foi frustrante. Porque o número de óbitos não foi algo que sensibilizou esse perfil da sociedade. E as festas, praias, aglomerações persistiriam”, destacou.
Freitas também compartilha da frustração de precisar lidar com o negacionismo. “O mais difícil é conversar com médicos que negam a doença, no que tange a distanciamento, uso de máscara. Uma coisa é conversar com uma pessoa leiga, outra é conversar com médicos”, diz. Ele destaca que “resiliência” é o sentimento mais comum nos últimos 13 meses.
Um presente? Solidariedade!
O brasileiro é visto como um povo solidário, feliz em ajudar o próximo. Mas durante a pandemia, a solidariedade significa evitar festas e aglomerações, muitas vezes evitar locais públicos, uso constante de máscara e distanciamento social e claro, empatia com a dor das outras pessoas, mas isso, parte dos brasileiros não cumpriu.
Questionado sobre qual presente gostaria no Dia do Infectologista, Martoni pede algo simples para algumas pessoas, mas extremamente difícil para outras: “O presente que eu gostaria de receber nesse 11 de abril seria a solidariedade de todos à sociedade científica. Seria a compaixão a todas às famílias que não puderam se despedir dos seus entes queridos, e com certeza que essa pandemia acabasse num passo de mágica”.
Mas, infelizmente, na ciência não existe mágica, o que existe é protocolo e métodos com a eficácia comprovada. “Mas como sei que isso não é possível, desejo que todos possam se sensibilizar nas medidas de prevenção, usando a máscara corretamente, mantendo distanciamento social e higiene frequente das mãos. E claro que não só se vacinem, mas respeitem a fila.”
O respeito ao vírus e às pessoas também é defendido por Ricardo Freitas. “Sabemos que vamos viver por muito tempo com o coronavírus, precisamos que as pessoas respeitem a doença e o próximo. Cada vez mais há a dificuldade de combater a pandemia por conta disso.”
Como presente, ele espera que possamos todos alcançar a liberdade. “Com as restrições, perdemos a nossa liberdade. Eu gostaria de recuperá-la”, finaliza.