Sociedades médicas e associações civis fazem um alerta para uma das doenças crônicas que mais crescem no mundo. Além da data oficializada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) que considera o dia 14 de novembro de combate à doença, durante todo o mês de novembro, na Campanha Novembro Azul, também são realizadas atividades para chamar a atenção das pessoas sobre a importância da conscientização do diabetes, do câncer e de outras doenças e de seu diagnóstico precoce.
Diabetes, uma pandemia silenciosa que atinge 16,8 milhões de brasileiros – Foto: Divulgação/NDO Brasil é o quinto país do mundo com maior número de diabéticos. São 16,8 milhões de pessoas afetadas pela doença segundo a Federação Internacional do Diabetes (Atlas,IDF, 2019).
Em primeiro lugar, está a China, com 116,4 milhões, depois vem a Índia, com 77 milhões, em terceiro lugar os Estados Unidos, com 30 milhões e em quarto lugar o Paquistão, com 19,4 milhões de diabéticos.
SeguirDe acordo com o Ministério da Saúde, há 20 anos o Brasil entrou no ranking desse cenário preocupante, e atualmente 7% dos brasileiros são diabéticos, sendo o aumento progressivo da obesidade e do sedentarismo a principal causa da doença.
Doença crônica causada pela falta de produção de insulina
O diabetes é uma doença crônica caracterizada pela falta da produção de insulina (diabetes tipo 1) ou por sua diminuição de produção pelo pâncreas (diabetes tipo 2).
A insulina é o hormônio que permite a entrada do açúcar (glicose) nas células e, desse modo, facilita inúmeros processos metabólicos e vitais.
“Com maior oferta de comida industrializada, fast food, compra por aplicativo e bufê a quilo com pratos cada vez mais maiores, somados ao sedentarismo em função das facilidades da vida moderna, tais como o uso excessivo de carro, elevador e escada rolante, o mundo está ficando cada vez mais gordo e mais doente.”
Marisa Cesar Coral, endocrinologista, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e integrante da Academia Catarinense de Medicina
Estudos comprovam que o aumento de pacientes com diabetes tipo 2 está diretamente ligado à crescente obesidade no mundo. Marisa explica que o tecido gorduroso não fica apenas abaixo da pele e que, quando estamos acima do peso, a gordura posiciona-se entre as vísceras, principalmente entre o fígado e o pâncreas, que é o órgão responsável pela produção de insulina.
Nessas condições, o pâncreas não consegue produzir a quantidade de insulina necessária para o funcionamento normal do metabolismo, dando origem ao diabetes tipo 2, que corresponde a 90% dos casos dos brasileiros.
“Americanização” da alimentação por trás das doenças
Com 40 anos de profissão, Marisa, que atuou como professora de endocrinologia e metabologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e atualmente dá aulas na Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), afirma que “ao longo das décadas, o brasileiro mudou drasticamente seus hábitos alimentares e infelizmente passou a seguir o modelo norte-americano, por isso foi deixando de consumir comida caseira e alimentação natural para substituir por refeições mais rápidas, industrializadas, gordurosas e hipercalóricas”.
Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e membro da Academia Catarinense de Medicina, doutora Marisa Cesar Coral – Foto: Divulgação/NDO diabetes, além de impactar a saúde da população, também impacta economicamente os cofres públicos, já que os custos com a doença são bastante onerosos ao estado.
“Seria muito mais prudente e barato o governo trabalhar em cima da conscientização e da prevenção do diabetes do que gastar com o tratamento decorrente de suas complicações. A doença é a principal causa de amputação não traumática de membros inferiores e a que mais ocasiona cegueira no mundo”, alerta Marisa.
As principais complicações provocadas pelo diabetes refletem nos vasos sanguíneos e nervos, pois a permanência do açúcar elevado (hiperglicemia) no sangue favorece o risco de desenvolver infarto do coração, derrame cerebral (AVC), insuficiência renal e disfunção erétil.
Mas diferentemente do diabetes tipo 2, que pode ser prevenido com um estilo de vida saudável por meio de uma boa alimentação e da prática regular de atividade física, o diabetes tipo 1 tem causa hereditária e outros fatores que levam à falha do pâncreas em produzir insulina.
Patrícia Laureano diretora-presidente da Adiflor (Associação de Diabéticos da Grande Florianópolis), que aos 13 anos de idade foi diagnosticada com diabetes tipo 1 – Foto: Divulgação/NDDa negação à incorporação de novos hábitos
“Aos 13 anos, fui diagnosticada com diabetes tipo 1. Sentia muita fome, muita sede, cãibras na perna e idas excessivas ao banheiro. Minha família ficou apavorada por ser uma doença crônica e grave quando não tratada com o devido cuidado”, revela Patrícia Laureano, de 44 anos, diretora-presidente da Associação dos Diabéticos da Grande Florianópolis.
Patrícia conta que, durante todos esses anos, passou por diferentes fases da doença, que vão desde a negação, passando pela revolta, até o medo. Apenas há 18 anos, ela começou a aceitar e a conhecer a fundo o diabetes.
A presidente da associação revela que, no início, o tratamento da doença foi muito difícil. “Não havia essa variedade de comidas para diabéticos de hoje, vivia-se com uma dieta muito restritiva. Comecei a comer doces escondida sem saber que estava enganando a mim mesma”.
Ela destaca também que antigamente as agulhas para aplicar insulina eram grandes demais e que sofria muito, mas hoje felizmente os recursos foram sendo aperfeiçoados pela indústria farmacêutica, o que contribuiu de forma significativa na adesão do paciente ao tratamento.
Patrícia comenta que o termo ‘dieta’ já foi abolido por muitos profissionais da saúde, e que agora se fala em alimentação saudável e balanceada. Os hábitos saudáveis foram assimilados por toda a família de Patrícia, que é casada e tem duas filhas.
“A forma como os médicos abordam muda completamente a nossa postura com relação à doença. Hoje sabemos que uma alimentação saudável e adequada é boa para todo mundo, e não apenas para os diabéticos.”
Patrícia Laureno, presidente da Adiflor e paciente
“A gravidez fez com que eu redobrasse os meus cuidados com a doença, entre eles a atividade física. Comecei a levar as minhas filhas para a escola caminhando e depois aderi à bicicleta como meio de transporte, o que auxilia positivamente no controle da glicose no sangue até hoje”, conta.
Mas Patrícia confessa que agora na pandemia do coronavírus sente-se insegura para fazer atividades ao ar livre, pois mora em uma das regiões com maior índice da Covid-19 em Florianópolis, a Praia dos Ingleses.
Adiflor aproxima pacientes com apoio mútuo e mais informações
Em 2017, por incentivo de médicos e do Grupo de Diabéticos do Hospital Universitário (HU), Patrícia fundou a Associação de Diabéticos da Grande Florianópolis, que conta na atualidade com quase 50 pessoas associadas.
“Antigamente, o diabetes era um fardo para mim, mas agora é meu parceiro, me trouxe mais saúde, amigos do Brasil e de todo o mundo. As idas ao médico com mais regularidade fazem com que eu tenha um maior controle sobre a minha saúde e a da minha família”, avalia Patrícia.
Antes da pandemia, eram realizados encontros presenciais mensais e palestras nos postos de saúde. Além disso, os integrantes da associação lutam constantemente na Secretaria de Saúde do município para melhorar as condições de atendimento e a oferta de medicamentos para os pacientes diabéticos.
“Agora estamos fazendo atendimentos via WhatsApp, tiramos as dúvidas e ajudamos nas doações de medicamentos. Além disso, pelas plataformas digitais (@adiflorsc) estamos realizando lives informativas sobre o assunto”, destaca a diretora da associação.
Manter-se saudável afasta o diabetes e a Covid-19
O médico endocrinologista Alexandre Hohl destaca que agora na pandemia da Covid-19, mais do que nunca precisamos aproveitar o Dia Mundial do Diabetes para informar a população sobre a importância da alimentação saudável e da atividade física.
Segundo Hohl, já existem estudos sobre a relação entre o diabetes e o coronavírus. “Pacientes diabéticos e com outras doenças crônicas, tais como cardíacas e pulmonares, ao contraírem a Covid-19, podem ter complicações mais graves e um alto risco de morte, principalmente se o paciente chega para a internação com a glicose muito elevada”.
O médico faz um alerta: “A melhor forma de se prevenir contra a forma grave de coronavírus é se manter saudável”.
Bruno Colombo, médico endocrinologista, foi diagnosticado com diabetes tipo 1 aos 18 anos – Foto: Divulgação/NDPara o médico Bruno da Silveira Colombo, de 35 anos, “ser diabético e médico endocrinologista é um desafio diário, mas é uma combinação que me ajuda muito, pois traz segurança nas decisões que eu preciso tomar com relação ao meu controle do diabetes e me faz ver de que forma a doença funciona”.
Segundo Colombo, o conhecimento médico lhe dá ferramentas para ajudar no seu controle glicêmico, mas, ao mesmo tempo, aumenta a sua responsabilidade e a sua cobrança pessoal em ter sempre o controle ideal da doença.
Bruno afirma que todos os diabéticos passam por momentos de altos e baixos com a doença: “É muito motivante e enriquecedor poder compartilhar o que eu já vivi com meus pacientes, mas a melhor parte ainda é aprender com as experiências que eles me contam no consultório”.
Ele tem diabetes desde os 18 anos. Ironicamente, descobriu a doença no seu primeiro ano de faculdade de medicina. “Após a euforia de uma aprovação no curso que eu sempre desejei, veio a notícia não muito animadora do diabetes tipo 1”, relembra.
O recém-estudante de medicina já convivia com o diabetes na família, pois seu irmão também havia recebido o diagnóstico da doença.
“A reação inicial sempre é de frustração. Meus pais ficaram muito preocupados, pois o diabetes tem uma fama não lá muito boa. O desconhecimento inicial sobre a doença também gerou muita insegurança. Mas, com o tempo, eu e a minha família fomos aprendendo a conviver com a doença. Hoje o diabetes é parte da nossa vida, ainda mais que veio em dose dupla. Não é fácil, mas não é mais motivo de tristeza”, pontua.
Bruno destaca que aceitar o diabetes como uma doença crônica é o primeiro passo. Depois, tentar entender o máximo possível sobre como essa doença funciona é um caminho muito importante.
“Eu sempre estimulo meus pacientes a entenderem a doença e a saber mais como funciona o tratamento. Afinal, não devemos pensar em tratar o diabetes por medo das complicações ou dos danos que essa doença pode causar ao corpo. Devemos controlar o diabetes para continuarmos saudáveis.”
Bruno Colombo, endocrinologista e paciente
Nos últimos anos, surgiram muitas novas tecnologias que facilitam a vida dos pacientes com diabetes.
“Essa interação entre a biologia e a evolução tecnológica é sensacional, pois a cada ano surgem novos tratamentos, novos tipos de insulina, novas formas de aferição da glicose, maior compreensão sobre a fisiologia do diabetes, entre tantas outras coisas que servem como esperança para que cada vez mais os pacientes consigam obter um melhor controle da doença”, afirma o médico.
Segundo o endocrinologista, essa evolução está acontecendo de uma forma rápida, pois a insulina tem apenas 100 anos e é um marco da medicina. “Desde então, muita coisa mudou, e a qualidade de vida dos pacientes melhorou sobremaneira”, pontua.
Para Bruno, viver com a esperança de que um dia a ciência encontre uma cura para o diabetes é um dos pilares que o motiva a continuar cuidando da glicose. “Eu quero estar bem saudável quando esse dia chegar”, enfatiza.
Números assustadores:
- 463 milhões. Este é o número de pessoas com diabetes no mundo.
- 1 em cada 11 pessoas com idades entre 20 e 79 anos tem diabetes.
- 50% das pessoas com diabetes ainda não foram diagnosticadas, elas seriam 232 milhões
- Existem perspectivas de 51% de aumento de diagnósticos de diabéticos em 2045, em um total de 700 milhões de diabéticos no mundo.
- Quase metade das mortes (44%) atribuídas ao diabetes ocorrem em pessoas abaixo de 60 anos.
- O Brasil é o país com maior número de pessoas com diabetes da América Latina em um total de 16,8 milhões de pessoas.
- Com 16,8 milhões de diabéticos, Brasil é o quinto país no mundo com mais pessoas doentes.