A nossa saúde mental está associada a diversos fatores, que podem ser socioambientais, culturais e psicológicos. No entanto, um dos aspectos que podem afetar diretamente nosso humor, e é pouco citado, é a d0r.
Principalmente quando a dor deixa de ser algo pontual e se torna crônica, o que afeta pessoa fisicamente, emocionalmente e mentalmente, podendo causar até depressão.
A dor crônica é aquela que dura mais de três meses — Foto: Divulgação/NDPara que se diagnostique o transtorno que todos conhecemos como depressão é necessário que se identifique sintomas como humor deprimido, distúrbios do sono, fadiga e dificuldades de concentração por ao menos duas semanas, causando sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social.
SeguirSe esse transtorno não for devidamente diagnosticado e tratado, ele pode levar a pensamentos suicidas. E no caso de estar associada a algum sofrimento físico, ele pode ser agravado.
De acordo com o anestesiologista João Garcia, vice-presidente da ANCP (Associação Nacional de Cuidados Paliativos) e especialista em dor crônica, é bem comum pacientes que sofrem com algum tipo de dor crônica encontrarem o tratamento correto para ela.
“Muitas vezes a pessoa que está sofrendo com a dor e com a depressão busca tratamento apenas para um dos problemas, ou o físico, ou o mental”, explica o médico.
Desse modo, ele afirma que é necessário que a dor total seja tratada, incluindo as dores psíquicas e associadas. Caso contrário, a dor crônica não tratada adequadamente pode gerar o sofrimento psíquico, e assim, um problema agravará o outro.
Como isso impacta no dia-a-dia?
Uma possível razão da associação entre a dor crônica e depressão pode ser o fato de ambas as condições partem de uma resposta cerebral. No entanto, há fatores no cotidiano da pessoa, que podem agravar esses casos.
Para João Garcia, a principal perda é a funcionalidade. O especialista aponta que, por sentir dor, a capacidade do paciente de realizar atividades cotidianas, como trabalhar, ir ao mercado, limpar a casa, fazer atividades físicas, entre tantas outras, pode ser restringida.
Conforme o Ministério da Saúde, são registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo — Foto: Marcelo Camargo/Agência BrasilCom essas limitações, o paciente pode despertar sentimentos e pensamentos negativos e, se as dores (física e psíquica) não forem tratadas corretamente, existe a possibilidade do problema evoluir para quadros de ansiedade e depressão.
Além disso, a pessoa com dor crônica muitas vezes pode se privar de fazer atividades fora de casa e socializar com amigos, já que sofre com a dor. Esse isolamento também pode ser um gatilho para os distúrbios se agravarem.
Novas diretrizes para o tratamento da dor crônica
No último mês, novas diretrizes foram estipuladas no manejo da dor crônica no XIV Congresso Latino-Americano de Dor. No evento, foi estabelecido que a dor crônica deve ser gerenciada a partir das diferentes especialidades médicas relacionadas à dor, obtendo assim, melhora em todas as áreas da vida do paciente, uma vez que o transtorno afeta dimensões físicas, cognitivas, emocionais, comportamentais e sociais.
Isso já foi demonstrado por um estudo de 2017, feito pela parceria de um pesquisador da Universidade de Jilin, na China, e outro da Universidade do Alabama, nos Estados Unidos que apontava “a dor crônica, como estado de estresse, é um dos fatores críticos para determinar a depressão, e sua coexistência tende a aumentar a gravidade de ambos os transtornos”.
Já outro artigo de 2020, publicado na Revista Psicologia e Saúde, por cientistas brasileiros pela USF (Universidade São Francisco), apontou a relação entre os sintomas de depressão e dor crônica em 80 mulheres, com idades entre 31 e 82 anos, com fibromialgia e/ou câncer (5).
Sem o tratamento correto, os distúrbios de ordem mental podem piorar a dor crônica, e o contrário também é válido: a dor pode agravar problemas como depressão, ansiedade, transtornos do pânico e insônia.
Como procurar ajuda?
Caso precise conversar, o CVV (Centro de Valorização da Vida) realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias. Mais informações clicando no site do Centro.