A OMS (Organização Mundial da Saúde) realizou uma nova reunião para anunciar medidas de controle contra o surto mundial de varíola dos macacos. Entre as recomendações o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanon pediu, nesta quarta-feira (27), que homens que fazem sexo com homens diminuam o número de parceiros sexuais. Na última semana, a entidade declarou a doença como “emergência de saúde global”.
Infectologista Filipe Perini esclarece algumas possibilidades para recomendação da OMS — Foto: DIVE-SC/Divulgação/NDA afirmação traz uma dúvida: por qual razão esse público tem sido mais diagnosticado? Conforme o Filipe Perini, pesquisador em saúde pública e médico infectologista, há muitas dúvidas ainda sobre porque a doença tem afetado os homens que fazem sexo com homens.
O médico elencou três possibilidades que estão sendo trabalhadas por especialistas. A primeira é que a transmissão esteja ocorrendo em certas “bolhas” de grupos com relações íntimas restritas e com práticas particulares. Perini alerta que a transmissão não é restrita aos homens que realizam sexo com homens.
Seguir“A segunda é que os homens que fazem sexo com homens têm, de uma maneira geral, mais acesso aos infectologistas, os médicos que têm alta suspeição da doença (que suspeitam mais da doença). Ou seja, os médicos que pensam que os sintomas são Monkeypox. Os outros geralmente não pensam no diagnóstico e deixam passar, já que as lesões não são típicas”, explica.
A terceira afirmação ainda é frágil, de acordo com Perini. Ela é estudada a partir do padrão de infecção e aborda ter sido maior a prevalência da doença em homens, independente da identidade de gênero ou práticas.
Filipe Perini, médico infectologista, explicou que há muitas dúvidas ainda sobre a questão do porque tem afetado mais os homens que fazem sexo com homens— Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/NDAprendendo com a experiência do HIV
Quando os primeiros casos de pessoas vivendo com HIV foram divulgados no mundo, muito preconceito envolveu a comunidade LGBTQIA+, a afirmação foi constatada em diversos estudos científicos.
Sobre esta experiência Perini explicou o que pode ser aprendido para que o mesmo não se repita em relação à varíola dos macacos.
“É importante ter cuidado com as conclusões precipitadas. Não é um pensamento científico. A causalidade, ou seja, se algo tem uma associação de causa e consequência, precisa de método e cautela para chegar a uma conclusão. Conclusões precipitadas levam a soluções inadequadas, com consequências que muitas vezes demoram muito para serem esclarecidas”, afirmou.
Conforme o presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos, Fabrício Bogas Gastaldi, o público de homens que fazem sexo com homens, bissexuais, pansexuais, gays e outras pessoas que se relacionam sexualmente com homens, novamente estão “sobre a mira dos preconceitos envolvemos nossas práticas e sexualidades”.
“A epidemia de HIV/Aids nos revelou profundamente que o estigma e preconceito sobre questões de saúde geraram apenas desinformação e mortes. Não precisamos repetir esses erros com a varíola de macaco. Precisamos de informações sérias, baseadas em evidências científicas, acolhimento das pessoas afetadas, suporte emocional e sobretudo uma nova abordagem humana sobre infecções virais”, explicou.
Medidas em SC
Nesta quinta-feira (28), o Estado considerou a transmissão comunitária da varíola dos macacos em Santa Catarina. Outros quatro Estados brasileiros já decretaram a ocorrência de transmissão comunitária: SP, MG, RJ e DF.
As ações estaduais de enfrentamento à Varíola dos Macacos tomadas nos próximos dias serão:
– Revisão da Nota de Alerta 11/2022 com atualização da definição de caso suspeito, permitindo maior sensibilidade dos serviços de saúde na detecção de casos suspeitos e consequentemente assistência, isolamento e rastreamento dos contatos;
– Divulgação de alerta aos serviços de saúde e profissionais de saúde que atendem casos de IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis) para a suspeita de casos, considerando os diagnósticos diferenciais;
– Elaboração de informe para os profissionais de saúde sobre as principais característica da doença e orientações sobre a notificação;
– Reunião de alinhamento com a Diretoria de Atenção Primária à Saúde da SES e com as ONGs para sensibilização e discussão de ações conjuntas na detecção de casos suspeitos;
Números em SC
A SES também informou que, até o momento, foram notificados 32 casos de varíola dos macacos em Santa Catarina. Destes, 10 foram descartados, 16 permanecem em investigação e seis foram confirmados, sendo um caso importado que, embora tenha sido notificado por Santa Catarina, é residente no estado de São Paulo. Os outros cinco são residentes em Santa Catarina, nos municípios de Leoberto Leal, com um caso, Florianópolis, com três casos e Joinville com um caso.
Anvisa cria comitê técnico de emergência
A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) decidiu criar um Comitê Técnico da Emergência Monkeypox (varíola dos macacos) nesta quarta-feira (27). De acordo com o site poder 360, a iniciativa é para que as áreas técnicas de pesquisa clínica, de registro, de boas práticas de fabricação, de farmacovigilância e de terapias avançadas atuem em processo colaborativo, inclusive com os profissionais de saúde e a comunidade científica.
A intenção é que o comitê reúna as melhores experiências disponíveis nas autoridades reguladoras, permitindo acelerar o desenvolvimento e as ações que envolvam pesquisas clínicas e autorização de medicamentos e vacinas.
A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) decidiu criar um Comitê Técnico da Emergência Monkeypox – Foto: Divulgação/Anvisa/NDSintomas da doença
Conforme a nota de alerta n°13/2022 da DIVE/SC a varíola dos macacos (Monkeypox) pode se espalhar para qualquer pessoa por meio de contato próximo, pessoal, muitas vezes pele a pele, incluindo:
- Contato direto com erupção cutânea, feridas ou crostas das lesões;
- Contato com objetos, tecidos (roupas, roupas de cama ou toalhas) e superfícies usadas por alguém com a infecção;
- Através de gotículas respiratórias ou fluidos orais de uma pessoa infectada. Esse contato pode acontecer durante o contato sexual íntimo, incluindo: Sexo oral, anal e vaginal ou tocar os genitais, ou o ânus de uma pessoa infectada pelo Monkeypox;
- Abraçar, massagear, beijar ou conversar próximo da pessoa infectada;
- Tocar tecidos e objetos durante o sexo usados por uma pessoa infectada, como roupas de cama, toalhas e brinquedos sexuais.
O vírus pode se espalhar em fluidos ou secreções de feridas de pessoas que estão com a infecção, sendo que permanece em investigação a possibilidade do vírus estar presente em outros fluidos corporais como sêmen e fluidos vaginais.
No momento, no Brasil, não há vacina contra a Varíola dos Macacos disponível, porém o Ministério da Saúde avalia a incorporação em situações específicas para públicos mais vulneráveis e para bloqueios de transmissão. A informação foi divulgada pela SES após coletiva de imprensa nesta quinta-feira (28).