Quase dois anos depois da primeira entrevista, sobre os reflexos do isolamento e da quarentena no início da pandemia, a psicóloga volta a conversar com a coluna. O tema agora é o legado da pandemia na saúde psicológica da população.
Telma preside a ONG ASSIM (Associação Instituto Movimento), criada há 13 anos para facilitar o acesso da população mais carente à terapia e que fez milhares de atendimentos online durante o período de restrições ao convívio social.
Telma Lenzi, psicóloga em Florianópolis – Foto: Divulgação/NDEm dois anos de pandemia. nós mudamos para melhor?
A pandemia funcionou como uma lente de aumento. Eu tinha a ilusão de que todo mundo ia aproveitar bem, com revisão de valores, solidariedade e união, mas percebi que o que aconteceu foi um alto índice de divórcios, violência doméstica, suicídios etc. São índices alarmantes.
Foi como se fosse uma lente de aumento sobre os problemas que já existiam e foram colocados em xeque. Por exemplo, quem tinha um conflito no casamento acabou tendo esse conflito aumentado pelo isolamento.
Por outro lado, quem já tinha uma semente de solidariedade, que questionava valores, aproveitou a oportunidade para criar uma nova versão de si mesmo.
Há uma mudança coletiva?
Houve uma rede muito grande. No Brasil nunca aconteceu historicamente tanta doação. Ninguém passou imune. A solidariedade aumentou. Uma consciência prática de que a gente só sai disso juntos.
Ao mesmo tempo, aumentou também o negacionismo e os movimentos polarizados. A ideia que pertencemos a uma aldeia global ganhou força, e não de que ‘a favela não me pertence, que o acontece na África não me atinge’.
Você é mais otimista ou pessimista sobre o legado da pandemia?
Sou eterna otimista. Percebo muita mudança de atitude, de postura e de hábitos. Muita gente buscou mais contato com a natureza, hábitos mais saudáveis, ter a família mais próxima, por exemplo.
Como falei antes, a pandemia é uma oferta de oportunidade: quem foi mais sensível conseguiu tirar algo de bom de uma coisa muito ruim, num cenário tão hostil.
Não há como não falar da pandemia sem falar do luto pelos mortes da Covid-19, não é?
Sim. Sempre tem alguém com culpa e alguém que não pode se despedir. Os rituais de despedida foram impossibilitados e isso dificulta e aumenta a dor. Saber que a pessoa morreu intubada e sozinha também torna o luto mais difícil. Mas o pior é lidar com alguém com a culpa por ter transmitido o vírus a familiares ou pessoas próximas. E é uma coisa que não volta, tem que olhar para frente.