Na visão do epidemiologista e professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) Lúcio Botelho, este não é o pior momento da crise sanitária no Estado. Segundo ele, essa fase “ainda está por vir”. De fato, o mapa de risco para transmissão da Covid-19, atualizado nessa quarta-feira (9), mostra dados alarmantes para Santa Catarina.
Especialista e governo analisam gravidade da nova matriz de risco em SC. Há nove meses enfrentando a pandemia, Santa Catarina ultrapassou 400 mil casos de Covid-19 – Foto: Anderson Coelho/NDA afirmação foi dada à reportagem do ND+ um dia após o recorde de mortes pelo vírus em único dia. Foram 91 vítimas fatais da doença registradas na terça-feira (8).
Em sua mais recente fotografia, o mapa de risco mostrou que 14 das 16 regiões do Estado estão no nível gravíssimo da pandemia. Apenas duas regiões estão em nível grave, Extremo-Oeste e Foz do Rio Itajaí.
SeguirDiante desse contexto, concordam tanto Botelho, que não é vinculado ao governo, quanto Maria Cristina Willemann, epidemiologista que atua no COES (Centro de Operações de Emergência em Saúde).
“A região da Foz do Rio Itajaí foi reclassificada de gravíssimo para grave nesta semana, mas temos que entender esse retrato com cautela. A motivação principal da reclassificação dessa região se deu pela desocupação de leitos e, infelizmente, óbito desocupa leito”, lembra Willemann.
Especialista fala em “soluções dúbias”
Os especialistas destacam que a matriz de risco continua apontando para um cenário de extrema gravidade no Estado. O quadro também é preocupante considerando outros dois aspectos, “efeito sentinela” e “capacidade de atenção”.
O professor e epidemiologista da UFSC, Lúcio Botelho, considera que o pior da pandemia ainda está por vir em SC. – Foto: Divulgação/ND“Houve uma pressão muito grande de demanda. Muitas pessoas ficaram doentes ao mesmo tempo e, a partir disso, os hospitais lotam. E cada vez que o hospital lota, você tem equipes mais esgotadas e um conjunto de coisas que provocam o aumento da mortalidade”, explica Botelho.
Crítico das ações mais recentes de controle à pandemia no Estado, Botelho considera a fiscalização muito frouxa e propõe uma alternativa para acabar com aglomerações em festas, por exemplo. Sugestão que ele repassou ao secretário municipal de Saúde de Florianópolis, Carlos A. J. da Silva.
“Basta chegar em uma festa com aparato repressor e com aparato da saúde. Pega todo mundo da festa, põe em fila e anuncia: ‘vamos fazer teste em todos e quem positivar, estará infringindo uma série de leis. Vai receber multa e ser recolhido para casa’. Repete isso em quatro aglomerações em festas seguidas, quero ver se não acabam”, sugere Botelho.
“Quanto mais tempo permanecermos com alta ocupação de leitos de UTI e com regiões em vermelho, o prejuízo é dividido entre cada cidadão, porque aumenta o nosso risco de adoecer e de precisarmos de UTI sem ter”
Raquel Ribeiro Bittencourt, superintendente da Vigilância em Saúde do Estado
O professor considera dúbias as intenções de promover toque de recolher e, em paralelo, aprovar a volta às aulas no Estado. Ele ressalta que todos querem os alunos estudando, mas que não se pode deixar a critério dos municípios e das escolas os protocolos e as recomendações de retorno.
“A estrutura do Intendente José Fernandes [escola básica municipal nos Ingleses, Norte da Ilha] não é a mesma do Colégio Catarinense (…) Sobre o toque de recolher, o que acontece se você for pego na rua depois do toque de recolher? Vai tomar uma bronca? Um cascudo? É difícil para o jovem, se ele pode ficar na rua aglomerado até 0h, por que não pode até 0h15?”, questiona o epidemiologista.
A posição do governo
O governo do Estado reconhece que a situação é crítica. De acordo com a superintendente da Vigilância em Saúde do Estado, Raquel Ribeiro Bittencourt, estamos com alta transmissibilidade em todas as regiões e é preciso melhorar o monitoramento, a investigação de casos e contatos, ou seja, uma vigilância mais ativa.
Superintendente de Vigilância em Saúde do Estado de SC, Raquel Bittencourt, pede conscientização e teme que as pessoas adoeçam e não encontrem leitos de UTI – Foto: Divulgação/NDSegundo Bittencourt, a ocupação de leitos de UTI é extremamente preocupante e leva à suspensão de cirurgias eletivas.
Nesse contexto, pessoas que estão esperando há muito tempo, podem esperar ainda mais, se não houver urgência.
“Quanto mais tempo permanecermos com alta ocupação de leitos de UTI e com regiões em vermelho, o prejuízo é dividido entre cada cidadão catarinense, porque aumenta o nosso risco de adoecer e de precisarmos de UTI sem ter”, lamenta Bittencourt.
“Fique em casa”
Nessa toada, Bittencourt faz o apelo para que as pessoas mantenham distanciamento, evitem as festas – mesmo nas suas próprias casas. Ela pede responsabilidade aos mais jovens que, em muitos casos, estão com o vírus, não sabem e transmitem para os pais e avós.
“Quando temos um caso positivo e essa pessoa vai a um evento, por exemplo, a chance de contaminar outras pessoas é alta”
Maria Cristina Willemann, epidemiologista que atua no COES
“Daqui a pouco, não vamos poder atender ninguém. Isso significa mortes evitáveis, tudo que não queremos, e é para isso que estamos trabalhando”, reforça.
O posicionamento dela vai ao encontro de Willemann, epidemiologista que atua no COES. Raquel Bittencourt lembra que um dos indicadores que a matriz de risco monitora é a vigilância ativa por meio de inquérito de síndrome gripal.
Nas últimas semanas, esse indicador mostra que, quando se identifica a ocorrência de um caso, muitos outros são notificados na região.
Aglomerações em festas e praias contribuem para altos níveis de transmissão segundo especialistas. Foto: Bruna Stroisch/ND“Isso quer dizer que a ocorrência tem se dado por clusters, ou seja, com transmissão intrafamiliar e interterritorial. Isso está relacionado ao comportamento. Quando temos um caso positivo e essa pessoa vai a um evento, por exemplo, a chance de contaminar outras pessoas é alta”, destaca Willemann.
Segundo as servidoras do governo, novas restrições não estão descartadas. O decreto em vigência precisa completar duas semanas e uma nova avaliação deve ser feita no próximo final de semana. Segundo Bittencourt, se necessário, “outras medidas restritivas serão tomadas”.
“Agora além de estarmos lidando com o crescimento da transmissibilidade, estamos nos preparando para a vacinação, tão logo tenhamos a vacina. Estamos adquirindo seringas e agulhas, pensando não somente na campanha da Covid-19, mas nas vacinas do calendário normal”.
Ela informou que o Estado faz uma adequação na redes de frio e está capacitando pessoas para aplicação da vacina. Santa Catarina chegou a 411.631 casos confirmados de Covid-19 neste início de dezembro.
Desse total, 378.117 estão recuperados e 29.331 em acompanhamento. Os números foram divulgados na última quarta-feira, quando o Estado somava 4.183 óbitos pelo coronavírus.