Especialistas discutem o que levou SC ao estado crítico da Covid-19

Profissionais avaliam medidas questionáveis do governo e desrespeito da população às regras; com mais de 400 mil infectados, SC lidera o ranking no Sul

Bruna Stroisch Florianópolis

Receba as principais notícias no WhatsApp

A Covid-19 avança num ritmo acelerado em Santa Catarina. Com mais de 400 mil infectados e já tendo contabilizado mais de quatro mil mortes desde o início da pandemia, a doença se alastrou pelo Estado e alcançou todos os 295 municípios.

Desde março, quando o vírus deu seus primeiros passos em solo catarinense, foram breves os momentos em que se observou alguma retração.

Mapa de Santa Catarina quase todo em vermelhoQuinze das 16 regiões sanitárias de Santa Catarina estão em nível gravíssimo de risco para Covid-19 – Foto: Divulgação/ND

Entre os estados do Sul do país, Santa Catarina registra o maior número absoluto de pessoas já infectadas pela Covid-19, como revelam os dados divulgados nesta terça-feira (8).

Faça como milhões de leitores informados: siga o ND Mais no Google. Seguir

De acordo com as Secretarias de Estado da Saúde, enquanto SC acumula 406.003 casos, o Rio Grande do Sul e o Paraná marcam 354.683 e 306.034 respectivamente.

Mas quais foram os motivos que levaram Santa Catarina a um patamar tão crítico da doença?

Para a professora Eleonora D’Orsi, que atua no Departamento de Saúde Pública da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), o problema está na gestão da pandemia por parte do Estado.

Já a superintendente de Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado da Saúde catarinense, Raquel Bittencourt, diz que o avanço do vírus é resultado do descumprimento das normas sanitárias vigentes, sobretudo, do distanciamento social.

Por dentro da situação

Antes de destrinchar as razões pelas quais o Estado vive seu pior momento da pandemia, vamos aos dados. O mais recente mapa de risco, divulgado na tarde no dia 2 dezembro, mostra que 90% do Estado está em nível gravíssimo para a Covid-19.

A região do Alto Uruguai e a Foz do Rio Itajaí subiram do nível grave para o gravíssimo, o que fez com que 15 das 16 regiões catarinenses fossem pintadas de “vermelho”. Apenas o Extremo-Oeste continua em estado grave.

Além de ampliar o número de regiões em nível gravíssimo, a taxa de transmissibilidade também está classificada como gravíssima em 14 regiões, com exceção  do Alto Vale do Rio do Peixe e o Oeste, que estão no nível grave. Até esta terça-feira (8), a taxa de ocupação dos leitos de UTI no Estado marca 88,27%.

Número de casos cresce 12% em uma semana

De acordo com o boletim divulgado pelo Necat (Núcleo de Estudos de Economia Catarinense), vinculado à UFSC, entre os dias 26 de novembro e 3 de dezembro foram registrados mais 40.570 novos casos da Covid-19, com taxa semanal de crescimento de 12% no agregado estadual.

Isso significa que o nível de contaminação da população catarinense continuou em ritmo muito acelerado. Outro aspecto preocupante é que nesse mesmo período foram registradas mais 290 novas mortes, indicando a continuidade da ocorrência de um número elevado de óbitos por dia.

Com relação à espacialidade territorial do vírus, o boletim revela que ocorreu um maior espraiamento da doença nas duas últimas semanas de novembro  também nos pequenos e médios municípios do estado.

Isso ocorreu apesar do fato de que seis microrregiões (Florianópolis, Itajaí, Blumenau, Joinville, Criciúma e Tubarão) respondem por cerca de 70% de todos os casos ativos do Estado.

O documento também destaca que somente na semana considerada (26 de novembro a 3 de dezembro) ocorreu o aumento de 22% nos casos ativos da doença em SC.

“Esses patamares indicam que a virose, no momento, se encontra sem qualquer impeditivo para continuar se disseminando no estado e confirmam a gravidade da situação”, conclui o estudo.

Comportamento das pessoas é fator determinante

Para Raquel Bittencourt, o avanço do vírus em SC se dá, sobretudo, pelo descumprimento de regras como o distanciamento social, o uso do álcool em gel e da máscara. Regras vigentes, porém não cumprida por expressiva parte da população.

Aglomerações em festas e praias mostram o descaso da população com relação à gravidade da situação. Esse desrespeito por parte das pessoas e até mesmo de estabelecimentos causa o aumento na transmissão e consequentemente, a alta na taxa de ocupação dos leitos de UTI.

Aglomeração em beach club na Guarda do Embaú, em PalhoçaAglomeração em beach club na Guarda do Embaú, em Palhoça, no último fim de semana – Foto: Reprodução/Redes Sociais/ND

A superintendente fala que as novas medidas decretadas pelo Estado e que passaram a valer no último sábado (5), visam dissolver as aglomerações e garantir o cumprimento das normas sanitárias.

Conforme o decreto nº 970, não está permitida a circulação e aglomeração de pessoas em espaços públicos e privados, e em vias públicas entre 0h e 5h – o polêmico “toque de recolher”.

O atendimento presencial nos estabelecimentos noturnos pode receber clientes até 23h, mas o limite de funcionamento vai até 0h. Depois disso, segue funcionando no sistema delivery ou retirada no balcão.

Além disso, o transporte público tem taxa de ocupação estipulada em 70% da capacidade e o uso de máscara passa a ser obrigatório em todo o território estadual.

Bittencourt destaca que só será possível avaliar o impacto e a efetividade dessas medidas daqui a 15 dias: “aí sim, veremos se vai mexer na curva de transmissão da doença”.

Fluxo de pessoas durante o dia

O estágio crítico em que SC se encontra não foi causado pela circulação das pessoas durante a noite, na avaliação da professora Eleonora. Ela argumenta que o principal motivo pelo qual as pessoas saem de casa todos os dias não é a praia, a festa ou a balada, é o trabalho.

“As pessoas circulam mais durante o dia, principalmente, para ir ao trabalho. Isso gera um contágio bastante acentuado. Usam o transporte público, chegam no local, encontram outras pessoas, almoçam em restaurantes e voltam para casa no final do dia. Isso acontece por pelo menos oito horas por dia, cinco vezes na semana”, detalha.

Eleonora destaca que o Centro de Florianópolis, por exemplo, concentra o maior número de casos da Covid-19. “É para lá que se deslocam mais de 100 mil pessoas por dia, principalmente, para trabalhar em empresas e comércios.”

Medidas pouco efetivas

“Se as medidas para o combate à Covid-19 no Estado fossem efetivas, o número de casos já teria caído”, defende a especialista em Saúde Pública da UFSC. Ela avalia que o melhor termômetro de uma norma restritiva são os indicadores – que só avançam.

Grande número de pessoas circula no centro de FlorianópolisGrande número de pessoas circula no centro de Florianópolis diariamente, como mostram as câmeras de monitoramento da Segurança Pública  – Foto: Reprodução/SSP/ND

A professora argumenta que as medidas são insuficientes porque não conseguem reduzir a circulação de pessoas quando realmente importa, que é durante o dia. A taxa de ocupação dos ônibus em 70%, por exemplo, não seria suficiente para reduzir a possibilidade de contágio entre as pessoas.

Sendo assim, Eleonora defende que uma medida realmente efetiva seria decretar o fechamento de todos os serviços considerados não essenciais: academias, lojas, shoppings, restaurantes e bares, além da suspensão do transporte coletivo.

Para a professora, o poder público deveria adotar a mesma postura do início da pandemia, quando regras mais rígidas conseguiram controlar e estabilizar o aumento dos casos no Estado. A abertura de serviços e o relaxamento das medidas teriam levado SC ao patamar crítico.

“É só olhar para trás e ver o que funcionou. Quando decretaram o fechamento dos serviços não essenciais, os números reduziram. Os dados mostram isso. O que está sendo feito é completamente diferente e não vai conseguir reduzir a circulação de pessoas e o contágio pela doença”, prevê.

Tópicos relacionados