A utilização de medicamentos para tratamentos preventivos para a Covid-19 por parte de municípios catarinenses causou polêmica no âmbito medicinal nos últimos dias.
Nesta terça-feira (7), foi publicada uma carta aberta assinada pela UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e por outras entidades de saúde, cujo conteúdo repudia protocolos e condutas clínicas com medicamentos sem evidência científica de eficácia.
Entidades repudiam utilização de medicamentos para tratamento precoce da Covid-19 – Foto: Pixabay/Reprodução/NDA manifestação conta com apoio da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), da Sociedade Brasileira de Bioética, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, da SBV (Sociedade Brasileira de Virologia) e da Associação Catarinense de Plantas Medicinais.
SeguirO manifesto cita os municípios de Itajaí e Balneário Camboriú e um grupo de médicos e médicas catarinenses. De acordo com a carta, eles apoiam “supostos protocolos de tratamento precoce da Covid-19 desprovidos de fundamentos científicos”.
“Tais iniciativas estimulam a aplicação de recursos de forma equivocada, geram falsas expectativas, falsa sensação de segurança na população, impactam negativamente na adesão às medidas reconhecidamente eficazes de proteção e prevenção do SARS-CoV-2, e, ainda, podem causar efeitos colaterais significativos”, diz um trecho da nota.
Em Itajaí, a ivermectina passou a ser entregue para a população como tratamento preventivo ao vírus nesta terça-feira (7). Até às 19h, mais de 4 mil pessoas fizeram a retirada do medicamento, que segundo a prefeitura de Itajaí, tem atividade antiviral in vitro comprovada.
Em Biguaçu e em Balneário Camboriú, a ivermectina e a hidroxicloroquina serão indicados para pacientes em fases iniciais dos sintomas.
Também nesta terça, uma carta com ideia oposta, que defende a liberdade de tratamento precoce do novo coronavírus foi entregue ao secretário de Estado da Saúde. O governo estadual liberou a distribuição da cloroquina para municípios catarinenses.
Prefeitura de Itajaí explica decisão de distribuir medicamento
Em nota enviada na tarde desta quarta-feira (8), a Prefeitura de Itajaí afirmou que a decisão de distribuir o medicamento baseia-se em outros experimentos.
“A decisão teve base na experiência de cidades do Brasil e do exterior além de instituições brasileiras, como a Unimed e o Hospital da Marinha do Brasil”, explicou.
Além disso, afirma que o medicamento também teve resultados positivos no Centro Ambulatorial de Triagem de Coronavírus de Itajaí. Ainda em nota, a prefeitura afirmou que os “médicos observaram significativa melhora em pacientes sintomáticos”.
Riscos
Conforme a carta das instituições de saúde, as ações das prefeituras e do grupo de médicos a favor do tratamento precoce vão na contramão dos de todo o mundo.
“Órgãos reguladores de medicamentos no mundo pautam-se em critérios científicos para garantir a segurança dos pacientes e o bem-estar da população”.
A carta cita o exemplo da agência americana FDA (Food and Drug Administration). Ela revogou a utilização da cloroquina e hidroxicloroquina e não indica o uso da ivermectina para prevenção ou tratamento da Covid-19.
“A própria FDA aponta alguns dos efeitos colaterais que podem estar associados à ivermectina, os quais incluem erupção cutânea, náusea, vômito, diarreia, dor de estômago, edema facial ou dos membros, eventos adversos neurológicos (tonturas, convulsões, confusão), queda súbita da pressão arterial, erupção cutânea grave potencialmente exigindo hospitalização e lesão hepática (hepatite)”.
Prefeituras ressaltam autonomias de médicos
A Prefeitura de Biguaçu afirmou, por meio de nota, que não haverá distribuição de medicamentos. “Haverá, a partir desta quinta-feira (9), prescrição se o médico julgar adequado e estará disponível na rede”.
“Os médicos terão autonomia para a prescrição. Não há um protocolo que obrigue o uso do medicamento, porém, a rede municipal está facilitando aos pacientes o acesso à medicação, e respeitando os médicos que estão se embasando nos estudos mais recentes, e se sentem confortáveis em prescrever se considerarem que o medicamento poderá beneficiar o paciente.
Sobre a autonomia para a prescrição, os profissionais tem respaldo do CFM (Conselho Federal de Medicina)”, conclui a resposta enviada pela prefeitura do município.
As prefeituras de Balneário Camboriú e Itajaí reforçam que os medicamentos são utilizados apenas nas fases iniciais dos sintomas, e por prescrição médica.