A fila de espera por cirurgias eletivas em Chapecó, Oeste de Santa Catarina, pode chegar a cinco anos. Dados da Administração Municipal revelam que 6.844 pacientes aguardam por cirurgias de média e alta complexidade na maior cidade do Oeste. São pessoas que lutam diariamente com a dor da espera.
Fila de espera por cirurgias eletivas em Chapecó é de quase 7 mil pacientes. – Foto: Ilustrativa/Pixabay/Divulgação/NDAs principais demandas de cirurgias eletivas em Chapecó são de Otorrinolaringologia (doenças em ouvidos, nariz, garganta, laringe e pescoço) e Urologia (doenças do trato urinário), mas também contam com demandas de outras especialidades.
10 anos de dores
As dores no braço de Maria Maria da Luz Fidelis Maciel, de 53 anos, começaram há cerca de 10 anos, quando ela ainda trabalhava como empregada doméstica. Com os anos, e os esforços repetitivo, as dores se agravaram até que o tendão do braço direito começou a romper. A solução é possível apenas com cirurgia, mas há cerca de quatro anos Maria aguarda na fila.
SeguirHá dois anos, precisou se afastar do antigo emprego e acabou sendo demitida por não poder mais trabalhar. Ela então se mudou para Balneário Camboriú em busca de novas oportunidades de trabalho, já que as dores se tornaram diárias e não permitiam mais tanto esforço.
“Agora, trabalho na portaria de um condomínio e não preciso erguer peso, mas as dores já são constantes, quase que diárias. Quando não doí, meu braço parece que fica dormente. É horrível”, relata.
A situação de Maria se agravou após tanta espera. “Quando encaminhei a cirurgia era apenas no braço direito, agora já sinto dor nos dois. Perdi as esperanças de fazer a cirurgia em Chapecó. Acho que vou encaminhar novamente por aqui [em Balneário Camboriú], porque parece que é mais rápido.”
Espera repleta de incertezas
A professora Mariza Serena Pacheco, de 49 anos, foi diagnosticada com um aneurisma sacular na artéria, logo abaixo do coração, mas precisou entrar na fila de espera por uma cirurgia em Xanxerê, cidade distante 44 km de Chapecó.
Isso porque, segundo Mariza, o SUS (Sistema Único de Saúde) não oferece o procedimento cirúrgico que ela precisa em Chapecó. O único município com hospital especializado em atendimentos cardiológicos na região é Xanxerê.
Em 2012, Mariza teve os primeiros sintomas: dores fortes no abdômen e nenhum diagnóstico. No fim de 2021, descobriu o motivo das dores após passar dois anos esperando por uma angiotomografia computadorizada de 128 canais, método de diagnóstico por imagem de tecnologia avançada, que detecta possíveis resíduos depositados nas paredes das artérias do coração, além de malformações vasculares.
O exame foi feito em Concórdia e seguiu para avaliação com um cirurgião cardiovascular em Xanxerê.”Fui mostrar para o médico e ele disse que o exame havia ficado duvidoso e pediu para repetir. Na hora desanimei porque já havia ficado dois anos esperando e não sabia por quanto tempo teria que esperar novamente.”
O exame foi realizado novamente em fevereiro de 2022 e o diagnóstico de aneurisma sacular na artéria se confirmou.
A professora Mariza aguarda por uma cirurgia para retirar um aneurisma sacular na artéria logo abaixo do coração. – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND“É uma condição raríssima que pode ser originado através de uma pancada muito forte, por exemplo. Sofri um acidente de moto anos atrás e talvez possa ser resultado disso, mas não existem certezas.”
Cirurgia de altíssimo risco
O aneurisma está localizado em uma região de difícil acesso e a cirurgia é de altíssimo risco, por isso, Mariza precisava passar pela avaliação de um cirurgião geral. Após mais quatro meses de espera, a professora conseguiu a consulta em São Carlos, Oeste de SC. “Ele fez a avaliação e disse que a correção cirúrgica precisa ser quanto antes.”
Na última semana, teve outra consulta em Xanxerê e mais uma vez foi encaminhada para outra fila de espera, desta vez para uma avaliação de um cirurgião endovascular em Florianópolis.
“O médico disse que lá os recursos são melhores que em Xanxerê. Terei que ir à Florianópolis definir onde e quando a cirurgia vai ocorrer. Agora, serão, no mínimo, mais seis meses de espera para a consulta na Capital”, lamenta.
“Estou vivendo uma tortura”
Mariza trabalhava como professora em um berçário, mas precisou mudar de escola porque não pode erguer peso. A vida e a rotina da professora mudaram radicalmente e ela precisa lidar com uma dor que não cessa com medicamento.
“É um desrespeito porque pagamos os impostos e quando precisamos de um atendimento não temos direito, temos que esperar. Muitas pessoas morrem esperando. Meu medo é esse porque o meu caso é grave. O aneurisma pode estourar e se estourar vou morrer. Acordo pensando nisso e passo o dia com isso na cabeça. É a minha vida em jogo. Estão brincando com a vida das pessoas”, diz a professora.
Mariza teve depressão e há pouco tempo consegue falar sobre o diagnóstico sem chorar. A angústia pela espera é companhia diária da professora. Na rede particular, o procedimento custaria em média R$ 200 mil, dinheiro que a família não tem como investir. “Isso é uma tortura psicológica. A espera mata a gente aos poucos.”
A expectativa de Mariza é pela consulta em Florianópolis e a solução de seu problema. Segundo ela, o médico de Xanxerê informou que em Florianópolis existiria a possibilidade de realizar uma cirurgia menos invasiva, enquanto em Xanxerê ela seria de maior risco. “Me resta esperar e torcer que tudo termine bem.”
“Problema histórico, crônico e preocupante”
O presidente do CRM-SC (Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina), Eduardo Porto Ribeiro, destaca que o problema da fila de cirurgias eletivas em Santa Catarina é histórico, crônico e muito preocupante. Na análise de Ribeiro, algumas causas são estruturais, como a escassez de investimentos na ampliação de estruturas hospitalares suficientes para acompanhar o ritmo de crescimento da população e a falta de políticas que estimulem a presença de médicos e especialistas em todo o estado.
“A menor oferta de especialistas em determinadas regiões, obriga os pacientes a buscarem atendimento em pólos regionais, como em Chapecó, onde há mais infraestrutura. Isso aumenta as filas e a pressão sobre o sistema de atendimento.”
Problema da fila por cirurgias eletivas se tornou crônica na análise do CRM-SC – Foto: Unsplash/Divulgação/NDO presidente observa que não se deve esquecer, também, que o Estado enfrenta dificuldades extras causadas por uma excepcionalidade.
“A pandemia do coronavírus exigiu mudanças de protocolos e muitas cirurgias não emergenciais foram ‘represadas’ nos últimos anos. Agora, mesmo com a retomada de certa normalidade das atividades nos centros cirúrgicos, a infraestrutura disponível (leitos, salas, pessoal, entre outros) é insuficiente para o atendimento da nova e das antigas demandas. A situação coloca em risco a saúde da população.”
Agravamento durante a espera
O atraso no tratamento de determinadas doenças pode resultar em complicações de casos considerados de baixa complexidade, comprometendo a saúde do paciente e pode até exigir gastos maiores do Poder Público no futuro.
“De fato, alguns casos podem evoluir mal sem o tratamento adequado e no tempo indicado. A forma mais eficaz de reduzir o risco de complicações é acelerar as cirurgias. Infelizmente, esse é um problema complexo, para o qual não há solução simples e imediata”, lamenta Ribeiro.
O presidente ressalta que o CRM-SC acompanha de perto a situação dos médicos, reúne informações detalhadas sobre o assunto e pretende contribuir com a busca de soluções. “A autarquia já tratou do tema em contatos com a própria Secretaria de Estado e com o Ministério Público do Estado – sempre com o propósito de apresentar sugestões.”
Eduardo Porto Ribeiro, presidente do CRM-SC (Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina). – Foto: CRM-SC/Divulgação/NDNa visão de Ribeiro, há dois caminhos que podem ser trilhados para, pelo menos, amenizar o problema. Segundo ele, o primeiro deles é a busca da otimização das estruturas públicas existentes, com melhorias na infraestrutura, abertura de leitos fechados por falta de pessoal ou equipamento, contratação de médicos.
Apesar disso, ele acredita que “Mesmo essas medidas, porém, serão insuficientes para zerar a fila”, acrescenta.
A segunda opção a ser analisada, conforme Ribeiro, dado o caráter de gravidade do quadro, é a possibilidade de contratação de serviços junto à iniciativa privada. “Após uma depuração da lista de casos, hospitais e clínicas privados podem ser contratados mediante processo licitatório para a realização de “mutirões” de cirurgias de média e baixa complexidade. Há, claro, necessidade de que o processo siga todos os parâmetros e normativas necessários para garantir o correto uso do recurso público, sempre escasso e essencial.”
O presidente salienta que, a curto prazo, há necessidade de um esforço emergencial, que deve incluir a maximização no uso da estrutura disponível. No médio e longo prazos, o essencial, na visão de Ribeiro, é planejar investimentos na ampliação de infraestrutura e em políticas públicas que ampliem a presença de médicos por todas as regiões.
“O Cosemec (Conselho das Entidades Médicas de Santa Catarina) defende há anos a chamada carreira de estado para o médico. Seria uma maneira de garantir segurança trabalhista e condições para os profissionais especialistas atuarem nas diversas regiões, diminuindo a necessidade de deslocamentos para atendimento, o que aumenta a pressão sobre os hospitais e clínicas nas cidades pólo.”
O que diz o Estado?
O ND+ questionou a SES (Secretaria de Estado da Saúde) sobre a fila de espera por cirurgias eletivas no Estado e ações que o governo planeja para agilizar as cirurgias.
“A Secretaria de Estado da Saúde realiza uma força-tarefa desde o segundo semestre de 2021 para acelerar a realização das cirurgias eletivas em Santa Catarina. A SES está implantando ações efetivas para entregar serviços de saúde mais próximos do cidadão. A exemplo disso temos a nova PHC (Política Hospitalar Catarinense), que neste ano, promove um investimento de aproximadamente R$ 618,2 milhões em hospitais de Santa Catarina. Os números têm aumentado e já passamos de 500 eletivas ao dia”, informou a SES.
Veja como está as filas de espera por cirurgias eletivas em SC:
- Grande Florianópolis: 30.102;
- Nordeste/Planalto Norte: 18.054;
- Vale do Itajaí: 13.832;
- Grande Oeste: 12.781;
- Foz do Rio Itajaí: 8.170;
- Sul: 8.108;
- Meio-Oeste: 7.864;
- Serra: 4.064
Os números foram atualizados pela SES no dia 21 de julho de 2022.
Qual o motivo da demora?
No começo de julho, a repórter do ND+ em Florianópolis, Ana Schoeller, conversou com o secretário Adjunto da SES, Alexandre Lencina, que explicou as dificuldades na realização dos procedimentos. Para ele, há dois motivos principais para a demora: a pandemia e a falta de política hospitalar que estruturasse a rede.
Pacientes aguardam por cirurgias em Chapecó – Foto: Maurício Vieira/Divulgação/ND“A maior dificuldade no atraso de quase 103 mil pessoas na fila é a pandemia. Ela impactou a rede hospitalar. A outra é que nós não tínhamos a política hospitalar que estruturasse a rede. A primeira versão foi em 2020”, explicou o secretário adjunto na época da publicação.
De acordo com Lecina, a política foi estruturada e agora está sendo redirecionada para esta oferta. “Com essa ação, nós de fato estamos trazendo um cenário bem real e que as cirurgias eletivas vão deixar de ser um problema de saúde pública”, citou.
A média de cirurgias eletivas feitas em Santa Catarina aumentou nos últimos meses. Em maio, o número foi de 17.300 procedimentos contra 15.543 no mês anterior. Os dados são da SES (Secretaria de Estado da Saúde), que contabiliza quase 103 mil pessoas à espera de cirurgias.
Fila pode chegar a 60 mil
De acordo com o secretário, se nada fosse feito, as filas poderiam chegar a 180 mil pessoas no fim de 2022. Ele se refere ao número de cerca de 12 mil novas pessoas pedindo por procedimentos todos os meses somados à fila de espera atual.
Segundo o secretário, se for mantido o ritmo de cirurgias realizadas em maio, a fila pode chegar a 60 mil pessoas no fim de 2022. O dado é de 120 mil pessoas a menos que a projeção.
Lecina explica ainda que o Estado tem instrumentos de contrato de 22 mil procedimentos eletivos ao mês e que estão sendo feitas visitas em hospitais catarinenses. As visitas, segundo ele, fazem parte do plano de ações para estruturar a rede de saúde.
Chapecó entrega autorizações cirurgias
O município informa que tem mediado o acordo entre os profissionais médicos e as direções do HRO (Hospital Regional do Oeste) e HC (Hospital da Criança) para agilizar ao máximo os exames pré-operatórios. Além disso, afirma que fornece transporte para os pacientes até os hospitais da região participantes da Campanha de Cirurgias Eletivas, do governo de Santa Catarina.
Sobre a realização de mutirões de cirurgias eletivas, a prefeitura Municipal destaca que trabalha para que isso se torne continuadamente uma prática dos Hospitais de Chapecó (HRO e HC) e dos hospitais da Região Oeste, Meio-Oeste e Extremo-Oeste.
Natália de Fátima Bernardes, de 56 anos, aguardava por uma cirurgia na vesícula e na última terça-feira (26) recebeu a autorização para realizar o procedimento. “Tomava remédio, às vezes tinha que ir na UPA topar injeção para a dor. É uma vitória, meu Deus”, disse, ao saber que estava com a cirurgia agendada para esta quinta-feira, no hospital de Coronel Freitas.
Ela foi um dos 321 pacientes que estiveram na Prefeitura de Chapecó para receber autorizações de consultas e agendamentos para vários tipos de cirurgias.
“No ano passado nós lançamos um mutirão de cirurgias, que não andou como a gente gostaria. Nós estamos com muitas obras, mas não adianta nada se estiver uma pessoa sofrendo. Então, determinamos para a equipe da saúde que desse prioridade às cirurgias, que estamos fazendo em toda a região. Estamos comprando vagas para operar onde tiver”, diz o prefeito João Rodrigues.
A prefeitura ainda informou que, na última semana, a Secretaria de Saúde entregou 200 autorizações de consultas para hematologia, cirurgia geral, cardiologia, urologia e ortopedia de joelho. Também foram entregues autorizações de exames para tomografia, ressonância magnética, entre outros.
Das 321 cirurgias, 58 são do Estado, via Política Hospitalar Catarinense, e 263 são investimento da Prefeitura.
Agendamentos e autorizações entregues:
- Cirurgia de catarata: 145
- Cirurgia de hérnia/vesícula: 19
- Cirurgia ortopédica: 1
- Cirurgia odontológica: 2
- Consulta pré-operatória de varizes: 43
- Tratamento esclerosante: 73
- Consulta pré-operatória para cirurgia geral: 38