Todos os dias, centenas de pessoas passam pelos corredores de pães nos supermercados, observando com atenção os ingredientes, embalagens e rótulos. São dezenas de pães, com ou sem grãos, de leite, de água, de sanduíche, tradicional, com cálcio, sem glúten, sem lactose, australiano, caseiro, vegano, doces… entre muitos outros.Além do tipo, também é preciso conferir a data de validade, preço, teor de sódio, açúcar e as calorias.
Mas com tantas opções fica difícil de escolher sobre a opção mais saudável, com melhor custo-beneficio e sabor — tudo isso em pouco tempo, afinal, ainda é necessário escolher o leite, café, frutas e demais produtos da lista. Na prática, são inúmeros fatores individuais e coletivos que levam a comprar um ou outro alimento, desde o preço e preferência pessoal, até a época do ano e região.
Feira orgânica CCA – UFSC – Foto: Instagram – @ccafeiraorganicaEm áreas periféricas, por exemplo, pode haver uma maior dificuldade de encontrar determinados ingredientes e produtos.
Já em áreas consideradas nobres, o preço das frutas e verduras pode ser mais elevado do que na região central — afetando o consumo não apenas dos moradores, mas das pessoas que trabalham e circulam por ali.
O contrário também acontece: alimentos produzidos localmente, tendem a ser mais baratos e mais fáceis de encontrar.
Em Florianópolis, a última pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas, realizada em 2019 pelo Ministério da Saúde, indicou que 36% das mulheres consomem até 5 porções de frutas e hortaliças diariamente, enquanto apenas 25% dos homens consomem essa mesma quantidade.
Esses resultados colocam a capital como uma das cidades com melhores hábitos alimentares do país, embora a maioria da população ainda não consuma esse volume todos os dias.
Segundo o Guia Alimentar Brasileiro do Ministério da Saúde, para uma alimentação saudável é essencial consumir uma maior variedade de alimentos in natura, ou minimamente processados e evitar os produtos industrializados.
Assim, uma dica prática é buscar descascar mais e desembalar menos. Isso porque os alimentos ultraprocessados possuem realçadores de sabor, maior taxa de gorduras, sal e açúcar, que afetam diretamente a saúde e os hábitos alimentares.
Mesmo alimentos que parecem saudáveis pelo uso de cores, imagens e termos nas embalagens, podem não ser tão benéficos para a saúde.
Por isso, é importante estar atento e buscar, sempre que possível, consumir alimentos frescos, preparados com ingredientes naturais e com produtos locais.
Busca por alimentação saudável cresce após pandemia
Anderson Luiz Romão, 45 anos, agrônomo e produtor orgânico do grupo Flor de Fruto que realiza a feira semanal no Centro de Ciências Agrárias da UFSC, observa que houve um crescimento na busca de alimentos orgânicos durante a pandemia.
“O pessoal começou a dar mais importância a alimentação saudável, durante e após a pandemia”, comenta Anderson, que realiza a feira desde 2015 no CCA.
Ele também credita aos alimentos o fato de não ficar doente há anos. “Eu não tive Covid e nem ninguém da minha casa. Dificilmente fico doente e nem tenho nenhuma das ites… sinusite, rinite…” comenta com alegria.
Embora ainda não haja uma comprovação científica da relação entre alimentação saudável e a proteção contra o coronavírus, é fato que a alimentação tem um papel essencial na imunidade e saúde física, bem como a prevenção de diferentes doenças.
Nesse sentido, desde o começo da pandemia da Covid-19, muitas pessoas passaram a buscar uma alimentação mais saudável e rica em nutrientes.
De acordo com um levantamento realizado pelo projeto de extensão do Laboratório de Comercialização da Agricultura Familiar LACAF/UFSC, referente às Células de Consumidores Responsáveis (CCR), entre 2020 e 2021, houve um crescimento exponencial no número de cestas e na quantidade de alimentos orgânicos comercializados.
Em 2020, primeiro ano da pandemia, foram comercializadas 400 cestas agroecológicas, enquanto em 2019, foram apenas 260.
Já em 2021, foram comercializadas 500 cestas diretamente dos grupos de agricultores familiares certificados pela Rede Ecovida de Agroecologia.
Outro dado que aponta para a busca de uma alimentação mais saudável no contexto pós-pandemia, é o crescimento de 16% no consumo de orgânicos no Brasil de 2021 a 2023, segundo a pesquisa Panorama de Consumo de Orgânicos no Brasil 2023, realizada pelo Instituto Organis.
Consumo de orgânicos beneficia a saúde física
Maria Isabel Cristofoni, 75 anos, mora em Canoinhas e mesmo quando passa alguns dias em Florianópolis, busca consumir apenas orgânicos. Há 15 anos, ela e o esposo plantam vegetais em casa, e compram os demais produtos em feiras da cidade.
Maria explica que começou a consumir orgânicos pela saúde e que “o sabor e a qualidade dos alimentos orgânicos é bem melhor e eles duram mais”.
Diversos estudos comprovam que os orgânicos possuem mais nutrientes, pelo não uso de agrotóxicos e produtos químicos, além da forma de cultivo e cuidados com o solo.
De modo simplificado, os alimentos orgânicos são produzidos sem agrotóxicos, fertilizantes e inseticidas.
Com isso, o tempo de produção é maior do que no modo convencional e exige maior cuidado dos produtores para evitar pragas e garantir o desenvolvimento saudável.
Além disso, os alimentos orgânicos são produzidos de acordo com as estações do ano, respeitando questões ambientais, a saúde do solo, bem como aspectos sociais, culturais e econômicos.
Para os paladares mais aguçados, uma das principais diferenças sentidas no consumo de orgânicos é no sabor das frutas, verduras e hortaliças.
O engenheiro de aquicultura, Thiago Menezes, 41 anos, consome orgânicos desde 2001, e acredita que os alimentos orgânicos têm mais sabor e auxiliam na digestão.
Já Anderson Luiz Romão, agrônomo e produtor orgânico do grupo Flor de Fruto, indica que “o gosto do alimento orgânico é o gosto que o alimento deve ter, sem nenhum veneno”.
Feiras orgânicas, células de consumo e escolhas mais conscientes
Mas apesar dos benefícios e diferenças de qualidade, o maior valor dos orgânicos ainda dificulta o consumo. Na pesquisa Panorama de Consumo de Orgânicos no Brasil 2023, 54% dos participantes indicaram que o preço é uma barreira – embora em 2021, esse número tenha sido de 67%.
Em geral, nos mercados o preço dos alimentos orgânicos pode chegar ao dobro dos alimentos convencionais, enquanto nas feiras orgânicas é possível encontrar frutas e vegetais com preços semelhantes e até inferiores.
Isso porque os produtos são comprados diretamente dos produtores, sem taxas ou cobranças de atravessadores
Em Florianópolis, atualmente são realizadas mais de 10 feiras orgânicas, em diferentes pontos da cidade, como no Campeche, Lagoa da Conceição, Coqueiros, Itacorubi no campus da Universidade Federal, no Jardim Botânico, entre outros.
Além dos vegetais, frutas e hortaliças, nas feiras orgânicas é possível comprar grãos, e outros produtos como mel, farinhas, temperos, cogumelos e ainda produtos de higiene pessoal orgânicos.
Outra alternativa para ampliar o consumo de alimentos orgânicos e a variedade de produtos naturais é por meio dos grupos de compras coletivas e cestas agroecológicas.
Cada grupo funciona de uma forma, mas em geral, os consumidores participam de um grupo, onde semanalmente são entregues cestas com alimentos em pontos específicos da cidade.
A estudante Luciana Brito, 29 anos, faz parte da célula de consumo de produtos orgânicos do CCA da UFSC, onde retira toda sexta-feira, uma cesta com diversos alimentos selecionados.
Luciana explica que esse modelo permite que ela tenha acesso a produtos que normalmente não escolheria no mercado ou mesmo na feira, ampliando a diversidade de consumo por um preço mais acessível.
Ferramentas para apoiar a escolha de alimentos
No site da Cepagro e no Mapa de Feiras Orgânicas é possível conferir os contatos e endereços desses grupos e pontos de venda de orgânicos por preços mais acessíveis.
E para além desses serviços, para garantir as melhores escolhas nos mercados convencionais é possível contar com o apoio de algumas ferramentas e aplicativos como o “Desrotulando”, que apresenta uma pontuação para a qualidade do alimento a partir do código de barras e o “Tá na época”, que apresenta os alimentos de cada estação.