A cirurgia de feminização facial, procedimento pelo qual passa a modelo transgênero Alice Felis, 25 anos, em Blumenau, é a mais procurada por mulheres trans em processo de transição. A informação é do cirurgião José C. Martins Junior, um dos sócios da clínica que ofereceu gratuitamente o tratamento para Alice, depois que ela foi vítima de uma tentativa de latrocínio no apartamento em que morava no Rio de Janeiro na madrugada do dia 16 de agosto.
Cirurgiões José Martins Junior e Cláudio Eduardo de Souza explicam os procedimentos que Alice Felis vai receber – Foto: Adriano Raulino/Reprodução NDTVO cirurgião explica que a feminização é muito procurada por ser um procedimento com potencial de diminuir o risco de transfobia, já que promove uma “leitura” mais feminina dos traços do rosto e do corpo. “A feminização facial é sempre um desejo das mulheres trans porque ela tem esse caráter de inserção social. Ela não é uma coisa que pode se pensar fútil, para esse grupo de pessoas ela está inserindo a pessoa na sociedade, dando uma aparência física mais próxima de uma pessoa cisgênero (que se identifica com o gênero de nascimento) e consequentemente contribuindo para diminuir a transfobia”, analisa Martins.
Cirurgia e tratamento gratuitos
Martins é idealizador e fundador do Transgender Center Brazil, uma clínica que é referência em atendimento a pessoas transgênero que existe em Blumenau desde 2015. Ele conta que logo que s história de Alice Felis começou a circular na internet, seu perfil pessoal e o da clínica nas redes sociais ficaram cheios de notificações solicitando apoio. “Quando percebemos que as fraturas que ela tinha sofrido faziam parte da nossa área de atuação e vimos que se oferecêssemos nosso trabalho para ela, estaríamos contribuindo de alguma forma para diminuir o preconceito, então a gente se mobilizou por isso”, conta.
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Alice Felis em processo de preparação para a cirurgia de reconstrução facial – Foto: Adriano Raulino/Reprodução NDTVEm Blumenau, Alice vai receber dois tratamentos diferente: a reconstrução, que vai corrigir as fraturas causadas pela agressão, e a feminização facial, que vai suavizar as linhas do rosto e deixá-la com traços mais femininos. Os dois procedimentos são feitos na mesma cirurgia, que deve levar cerca de seis horas.
O primeiro período da recuperação também será em Blumenau. No pós-operatório, a modelo ainda deve ficar em Blumenau por cerca de 15 dias sendo acompanhada pela equipe médica. “Do terceiro ao quinto dia ela vai ficar bem inchada e a partir do sétimo dia o inchaço começa a ceder. Nós dizemos que o resultado final de uma cirurgia dessa leva entre um ano e um ano e meio, porque é uma cirurgia de osso, e o que cobre o osso precisa, ao longo dos meses, ir se adaptando ao novo formato craniofacial. Mas com cerca de dez dias da cirurgia já dá para ver a diferença, a Alice já vai estar irreconhecível”, garante.
Transição em fases diferentes
As cirurgias de transição de gênero podem ser divididas em tipos diferentes, e Martins explica que nem todos os pacientes se submetem a todos eles. As mais comuns e procuradas são as de feminização facial e corporal e apenas uma pequena parcela opta pela redesignação sexual. Segundo o cirurgião, apenas de 3% a 5% das mulheres trans querem concluir a transição com uma cirurgia genital. “Cerca de 95% estão felizes com a maneira como se relacionam com o seu órgão sexual, por isso procuram face e corpo, o que vai completar a leitura feminina. A maioria, mais de 90%, começam fazendo as mamas, depois pulam para a face e continuam com o corpo”, revela.
Equipe médica explica para Alice Felis como serão os procedimentos cirúrgicos – Foto: Adriano Raulino/Reprodução NDTVNo caso dos homens trans, a busca por cirurgias é menor. De acordo com o cirurgião plástico Claudio Eduardo de Souza, que também faz parte da clínica Transgender Center Brazil, a proporção da busca pelos atendimentos é de um homem trans para nove mulheres trans. “No caso do homem trans, geralmente se resolve muita coisa com hormônio. A cirurgia mais cirurgia mais procurada é a mastectomia masculinizadora (retirada das mamas), e alguns procedimentos de face mais masculina, mas geralmente para por aí. A (cirurgia de) genital é mais difícil, trabalhosa e ainda é experimental, poucos lugares e apenas hospitais universitários estão habilitados a fazê-lo”, esclarece.
Atualmente, a clínica em Blumenau é a única instituição privada no país a oferecer esse tipo de atendimento, com cirurgias de transição de gênero em todas as modalidades. Segundo Martins, no início, 100% dos pacientes vinham da Europa e dos Estados Unidos. Hoje, cerca de 30% dos atendimentos já são de brasileiros e a equipe faz, em média, três cirurgias por semana.