‘Foi nojo pela minha cor e doença’: diz mãe de bebê com cabeça cortada no parto em Joinville

Mulher foi ouvida pelo portal ND+ em anonimato na manhã desta quarta-feira (9); mãe da bebê que teve a cabeça cortada em Joinville durante o parto, passou por "diversas violências"; SES investiga

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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A história da mãe da pequena bebê que teve a cabeça cortada durante um parto na maternidade Darcy Vargas, em Joinville, no último dia 14 continua com desdobramentos. Nesta quarta-feira (9) o portal ND+ entrevistou em anonimato a mãe da criança, que trouxe relatos detalhados sobre a história. 

Nojo, preconceito e medo rondaram parto em Joinville Mulher relata que sente que profissionais de saúde tiveram nojo pois ela é negra e vive com HIV – Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/ND

“Tiveram nojo pela minha cor, pela minha pele. Não são humanos. Me trataram como quem dissesse: ‘essa daí tanto faz'”, relata.

Segundo o relato, em todos os momentos ela sentiu que por ser uma mulher preta vivendo com HIV, foi negligenciada.

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A mãe descobriu a doença em 2017, mas desde então faz uso de remédios antirretrovirais. Agora, segundo ela, sua carga viral está indetectável. Na prática isso significa que pela regularidade do tratamento, ela não transmite mais HIV.

Neste ponto é importante lembrar que AIDS é a doença e HIV é o vírus. Sendo assim, todas as pessoas que fazem tratamento correto vivem com HIV e não têm AIDS. O conceito é inclusive explicado pela Unaids (ONG das Nações Unidas que trata do assunto) e pela OMS (Organização Mundial da Saúde).

Criança sai do hospital

Segundo a mãe, sua filha teve alta ontem do Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria. Porém, a criança precisará fazer acompanhamento neurológico ao menos até os três anos. Este é o prazo que os pais efetivamente vão descobrir as sequelas causadas pelo corte supostamente feito durante o parto.

“Ela não vai poder correr, não pode pular. Há uma série de restrições”, conta.

“Ela berrava de dor”

O quarto onde a mãe da criança estava no hospital era compartilhado com outra paciente, que também tinha acabado de dar à luz. A mulher relata que presenciou gritos de dor da mãe que teve a cabeça da sua filha cortada durante o parto.

“Depois do parto, ela chegou no quarto cheia de sangue. Ela berrava de dor. Dois enfermeiros chegaram e, sem anestesia, tiraram algo dela [que a mulher relata ser a placenta]. O barulho do choro era tão alto que levei a filha dela para fora do quarto, para embalar a nenê e não deixá-la ouvir a dor da mãe”, conta.

Mulher que teve bebê com a cabeça cortada durante parto em Joinville falou com o portal ND+ Mãe relata violência obstétrica sofrida por colega de quarta – Foto: Reprodução/SES-SC/ND

Segundo a testemunha, que já foi ouvida pela Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso de Joinville, que investiga o caso, além da violência contra a criança, que chorou por 24h para só depois ser atendida por um médico, a mãe também sofreu uma série de negligências.

“Ela não era ouvida. A filha dela chorava muito e ela sempre perguntava sobre o corte na cabecinha da criança. Ninguém fazia nada. Ninguém nem sequer tocou na bebê. Eles olhavam a criança, sem tocar, e diziam que não era nada”, diz.

A mulher relata ainda que o único remédio receitado para a recém-nascida, após a mãe mesmo operada perambular pelo hospital em busca de atendimento, foi paracetamol.

“Eu não entendo nada de medicina, mas acredito que um paracetamol para a dor de um bebê que chora por um dia inteiro de dor não é a melhor coisa”, finaliza.

“Meu sonho sempre foi ser mãe”

Ainda durante a entrevista a mãe da criança contou que seu maior sonho sempre foi ser mãe. A criança que teve a cabeça cortada durante o parto é sua primeira filha.

“Eu sempre quis ser mãe. Durante a gravidez fiz tudo certinho para não passar o vírus [HIV] para a nenê. Tomei o remédio, fui ao médico, tudo isso para cortarem a cabeça dela e ela ter contato com meu sangue, sem cuidado nenhum”, conta com voz embargada.

A mãe relata que a criança já foi testada para o vírus e que, felizmente, o teste deu negativo. Para evitar a infecção a criança precisou tomar alguns antirretrovirais. Além da limitação neurológica da criança por conta do corte, a mesma não pode ser amamentada pela mãe. Isso porque a recomendação médica é que o vírus pode ser passado por meio do vírus materno.

“Olhava para o rosto e chorava”

A testemunha da violência supostamente sofrida na maternidade Darcy Vargas, conta que a mãe da criança olhava para a filha e chorava muito.

“Era comum a gente olhar para ela e ela estar olhando para a sua filha chorando muito. Como o pai da criança estava trabalhando, ela ficou sozinha. As enfermeiras não ajudavam. Ela ficava sempre sozinha”, relata.

Justiça

Para finalizar a entrevista a mãe da criança disse que o que ela quer não é dinheiro, e sim justiça.

“Meu objetivo é que mais nenhuma mãe e nenhuma criança passe pelo que eu passei”, finaliza.

O que causa o preconceito contra quem vive com HIV?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o estigma do HIV está enraizado no medo do vírus. Isso porque muitas das nossas ideias sobre o HIV vêm das imagens que apareceram pela primeira vez no início dos anos 80. Ainda existem equívocos sobre como o vírus é transmitido e o que significa viver com HIV hoje.

“A falta de informação e conscientização combinada com crenças ultrapassadas levam as pessoas a temer contrair o HIV. Além disso, muitas pessoas pensam no HIV como uma doença que apenas alguns grupos contraem. Isso leva a julgamentos de valor negativos sobre as pessoas que vivem com o vírus”, explica a OMS em seu site oficial.

O que diz a maternidade

O portal ND+ buscou a SES/SC (Secretaria do Estado da Saúde de Santa Catarina) que relatou que não pode se posicionar sobre procedimentos médicos adotados. Confira a nota completa:

A Maternidade Darcy Vargas informa que o evento está em investigação pela Gestão de Risco da unidade, e o caso também está sendo apurado pela Polícia e seguirá os trâmites inerentes a situação. A Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina (SES/SC), seguindo orientação do Conselho Federal de Medicina (CFM), não fornece o estado de saúde e não comenta informações de pacientes atendidos, internados ou que venham a óbito na rede de assistência estadual.

Essa medida, que resguarda o paciente e equipe profissional, tem amparo no Código de Ética Médica, Capítulo IX, Artigo 75, em que é vedado “fazer referência a casos clínicos identificáveis, exibir pacientes ou seus retratos em anúncios profissionais ou na divulgação de assuntos médicos, em meios de comunicação em geral, mesmo com autorização do paciente”. Ainda no Artigo 73, parágrafo único, a divulgação permanece vedada “mesmo que o fato seja de conhecimento público ou o paciente tenha falecido”. Os interessados podem ler, na íntegra, no site do CFM.

Parto pode ter deixado sequelas permanentes na criança Bebê que teve a cabeça cortada durante o parto pode ficar com sequelas neurológicas, relata médico e mãe da criança – Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/ND

Violência obstétrica está relacionada com a cor da pele

Em abril, a Comissão Especial sobre Violência Obstétrica e Morte Materna debateu o tema com representantes de todo o país, entre eles, a secretária de Saúde de Santa Catarina, Carmen Zanotto.

“As mulheres negras morrem mais que as brancas, mesmo tendo a mesma escolaridade e o mesmo acesso ao pré-natal. Está comprovado que nós profissionais da enfermagem dedicamos menos tempo na assistência pré-natal à mulher negra que à mulher branca”, disse na época.

O caso da mãe relatada nesta matéria, que é uma mulher negra, soma-se a uma infinidade de mulheres negras que sofreram violência obstétrica no Brasil. Só para se ter uma ideia, um estudo publicado na Biblioteca Nacional de Medicina relaciona o racismo ao atendimento médico dado às mulheres negras no país.

“No Brasil, mulheres negras são desproporcionalmente negadas ao acesso a cuidados oportunos e ficam vulneráveis ​​à morte por causas obstétricas evitáveis. No entanto, elas não têm estado no centro de iniciativas recentes para melhorar a saúde materna”, descreve o estudo.

Para realizar a pesquisa, os pesquisadores analisaram a implantação da Rede Cegonha na Bahia entre 2012 e 2017.

Confira o estudo clicando aqui.

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