Desde 2021 a Hof Clinic em Balneário Camboriú, de Anderson Silva, responde por uma ação civil pública na Vara da Fazenda Pública da Comarca da cidade. O processo começou após a Vigilância Sanitária municipal constatar irregularidades no local.
De acordo com o documento oficial do processo, obtido com exclusividade pelo portal ND+, após inspeções sanitárias foram encontrados produtos armazenados junto com alimentos, além de uma série de irregularidades, incluindo o uso de um composto não autorizado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Hof Clinic de Balneário Camboriú responde por uma ação civil pública – Foto: Reprodução/Google Street View/NDO proprietário Anderson Silva relata que já houve muitas polêmicas pelo uso do produto, mas que ele é sim aprovado na Anvisa (confira o posicionamento completo abaixo).
SeguirO processo diz que as inspeções feitas pela Vigilância Sanitária de Balneário Camboriú apontam que o espaço não tinha, por exemplo, locais para realização da higiene completa dos produtos. Confira as irregularidades listadas:
- Ausência de lavatório nas salas de procedimentos estéticos;
- Falta de identificação nas lixeiras conforme RDC n° 222/2018;
- Portas sem identificação;
- Não possui área de DML – depósito de material de limpeza;
- Falta de controle e registro da temperatura da geladeira de armazenamento de produtos termolábeis [substâncias sujeitas a destruição, decomposição ou mudança em resposta ao calor];
- Geladeira para guarda de produtos termolábeis armazenados juntamente com alimentos;
- Disponibiliza somente um sanitário para utilização dos clientes, sendo que outro se encontra desativado e localizado em anexo à copa;
- Materiais de limpeza armazenados no sanitário desativado;
- Falta de área de esterilização de materiais (atividade odontológica em instalação);
- Presença de pontos de umidade no consultório odontológico em instalação.
Por estes motivos, em 16 de março de 2021 a Hof Clinic recebeu uma intimação da pasta para fazer os ajustes necessários. A clínica chegou a recorrer e pedir “mais prazo” para alterar os espaços, que por Lei já deveriam estar regularizados.
Em junho, a equipe da Vigilância Sanitária voltou ao local, e foi recebida pelo dentista Anderson Silva. Segundo o processo, o dentista relatou que possuía clínica também em Florianópolis e que fazia procedimentos como harmonização facial, preenchimento labial e lipoaspiração de papada. Na data, apenas ajustes parciais foram feitos.
No mês seguinte, a pedido do Ministério Público, os fiscais voltaram à clínica. Na data, alguns ajustes foram feitos, no entanto mais informações foram adicionadas.
“A equipe tomou ciência que a empresa fez alterações em seu contrato social em relação ao nome empresarial, nome de fantasia e nas atividades desenvolvidas. (…) Houve a exclusão da atividade de odontologia, entretanto, é notório que as atividades exercidas no local são executadas predominantemente por profissional odontólogo. Sendo assim, a falta de licenciamento de tal atividade junto à Divisão de Vigilância Sanitária foi adicionada ao Auto de Infração juntamente com as demais irregularidades”, escreve em seu relatório a Vigilância Sanitária.
Produto não aprovado pela Anvisa
Além da ausência da declaração de que dentistas atuam no local, o Ministério Público constatou que:
Documento mostra trecho em que Ministério Público fala da irregularidade – Foto: Reprodução/MPSC/NDVale mencionar que o Conselho Federal de Biomedicina, por exemplo, proibiu a utilização de tal substância, em conformidade com as normas estabelecidas pela Anvisa, em uma Resolução n° 299/2018.
Questionado, Anderson Silva negou que o produto seja irregular.
“Já tivemos muitas polêmicas no uso deste medicamento desde a mudança de nome para Desoxicolato de Sódio, daí virou Deoxycholate porque aparentemente em inglês fica mais elegante, mas o fato é que o medicamento é aprovado pela Anvisa e é um recurso incrível para reduzir gorduras localizadas”, escreve.
No mesmo processo, o MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), defendeu que a substância é proibida no país devido à “inexistência de comprovação científica acerca da ausência de danos à saúde dos pacientes em relação ao seu uso para fins estéticos”.
Hof Clinic tinha produtos vencidos
Ainda no documento, o MP escreveu que: “e o exercício das atividades do estabelecimento demandado, nos moldes atuais, coloca em risco a saúde e segurança dos consumidores”.
Assim como em Florianópolis, em 2021 foram apreendidos medicamentos fora do prazo de validade, que foram apreendidos.
O dentista garantiu que é responsável apenas por seus atendimentos e que cada local tem um responsável.
“Sou responsável pelos meus atendimentos já fiz mais de 50 mil procedimentos. Nunca tive nenhum paciente hospitalizado. Cada clínica tem seu responsável técnico. A mídia manipula muito, e acho importante isso também mas vejo que produtos vencidos parece um mundo de produtos. Uma prática lá em Balneário há muitos anos, quando uma ampola venceu num final de semana e numa fiscalização [ a Vigilância Sanitária] encontrou o produto sem [registro na] Anvisa”.
O dentista explicou que este produto faz parte de “uma briga eterna entre todos eles laboratório e vigilância”. No entanto, garantiu que jamais iria comprar um produto e utilizá-lo se não estivesse devidamente registrado na Anvisa.
Segundo o processo, por estes motivos, Anderson Silva teve sua clínica novamente notificada pela Vigilância Sanitária, que deu um auto de intimação. O documento é o que dá início a mais um processo administrativo, que apura todas as informações coletadas. No final, os estabelecimentos podem ser multados, a variar por cada irregularidade encontrada.
O documento relata também que em agosto de 2021, o promotor de Justiça Álvaro Pereira Oliveira Melo, sugeriu que Anderson Silva deveria pagar 50 salários mínimos, que na época era de R$ 1.100, o que deu o total de R$ 55 mil. Segundo a decisão, o valor seria revertido ao Fundo Estadual para Reconstituição de Bens Lesados do Estado de Santa Catarina, conforme Lei Estadual n. 15.694/2011 c/c Decreto Estadual n. 1.047/87 e art. 13 da Lei 7.347/85.
O processo continua correndo na Vara da Fazenda Pública de Balneário Camboriú. Anderson e outras testemunhas serão ouvidas para que então o juiz possa definir a sentença.