Infodemia: o mal que causa estragos na luta contra a Covid-19 e pode até matar. Entenda!

Infodemia é um problema que vai além das fake news, pois lida com informações verdadeiras e que nem sempre são processadas da melhor maneira possível pelo ser humano

Redação ND Florianópolis

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Em 1981 um casal que morava no Canadá ficou em pânico com uma informação divulgada por um livro que dizia interpretar previsões do vidente Nostradamus. A publicação virou best-seller no país e tema de programas de televisão. O livro garantia que a Terceira Guerra Mundial começaria pelo Canadá. Assim o casal, querendo fugir do confronto no auge da Guerra Fria, resolveu deixar o país e procurar um lugar tranquilo. Então se mudou para um pacato lugar onde julgava estar protegido. O casal optou pelas Ilhas Malvinas, que em 1982 se tornaria o palco do sangrento confronto entre Argentina e Inglaterra. O resultado para o casal foi um só: ele foi vítima de uma informação equivocada e que gerou pânico. Pode parecer que trata-se de um episódio isolado e que ficou em uma passado distante. Mas estragos como esse viraram comuns com a internet e mais ainda com o Whats App. Informações em grande quantidade e muitas vezes não confiáveis geraram um problema chamado infodemia. Ou seja, a dificuldade de se lidar com o excesso de informações.

Infodemia e Coronavírus: é preciso equilíbrio para lidar com excesso de informações – Foto: Divulgação/PixabayInfodemia e Coronavírus: é preciso equilíbrio para lidar com excesso de informações – Foto: Divulgação/Pixabay

A infodemia é um fenômeno que transcende as fake news. Isso porque a infodemia não lida apenas com informações falsas. Muitas vezes lida com verdades que são entendidas de maneira equivocada, seja de forma proposital ou não. O assunto ganhou tanta importância nos últimos meses porque é um dos principais adversários na luta contra a pandemia do Coronavírus. Reflexo disso é que esta semana a OMS (Organização Mundial de Saúde) realizou um congresso para tratar do assunto.

– A infodemia é um termo criado para citar a questão da quantidade de informações que recebemos diariamente. A maior parte temos condições de processar. Mas o grande problema é justamente a desinformação consequência desse excesso de informação. Existe um bombardeio sem filtros nas redes sociais. Vocês como jornalistas respondem por uma informação equivocada divulgada no jornal ou no site. Mas nas redes sociais se vê um monte de gente falando o que quer como se fosse liberdade de expressão. A desinformação preocupa muito em todas as áreas. Mas agora a saúde está em evidência por conta da pandemia – explicou o médico Walter Taam Filho, pediatra e especialista no estudo da infodemia.

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Com uma grande quantidade de informações disponível, as pessoas acabam buscando informações que desejam ouvir e não se preocupam em verificar a origem e outros pontos de vista.

– As pessoas procuram estas notícias e se sensibilizam com elas. Procuram em locais que corroborem com aquilo que elas já pensam. Esses profissionais de Marketing perceberam o poder das mídias sociais. Nichos pulverizados da população com interesses diferentes. Você adequa o discurso para aquilo que aquele nicho quer ouvir e dissemina informações para aqueles grupos. Ideias que não tem nada de incomum e inverídico. Os robôs são acionados para as informações tenham relevância e mais pessoas recebam esta mensagem e repassem para os outros. Passa a ser um assunto relevante e parece que é verdadeiro – explica Walter.

Doutor Walter Taam vê imprensa como aliada no combate aos males da infodemia – Foto: Arquivo pessoalDoutor Walter Taam vê imprensa como aliada no combate aos males da infodemia – Foto: Arquivo pessoal

Walter não culpa a tecnologia e os aplicativos de comunicação pelos estragos da infodemia.

– Não podemos culpar os meios. Fala-se muito mal da industrialização na alimentação. Citam gordura trans e outras coisas que fazem mal. Mas esta mesma indústria criou os complementos alimentares para quem não pode amamentar por exemplo. Portanto, o problema não está na tecnologia e sim no uso dela – explicou o médico, membro do comitê de nutrologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro e doutor em Ciência do Alimento pela UFRJ.

Movimento antivacina: Infodemia preocupava antes do Coronavírus

Na área de saúde a infodemia já era uma preocupação muito antes da pandemia do Coronavírus. Um exemplo disso é o movimento antivacina, que combate a vacinação. A facilidade com que mensagens ligadas a esse grupo ganharam os celulares contribuiu para que algumas doenças voltassem com força no Brasil.

– Os movimentos antivacinas disseminam uma porção de informações que são incorretas atribuindo efeitos colaterais que foram desmentidos. Isso fez com que muitos países reduzissem sua proteção vacinal. Gerou a volta de doenças. Sarampo é um exemplo disso. E isso não é um problema só do Brasil. Países de boa formação educacional embarcaram nisso. Agora está todo mundo calado rezando por uma vacina para o Coronavírus. Mas quando tiver a vacina a teoria da conspiração vai voltar e vai ter gente dizendo que na vacina tem um chip do Bill Gates para controlar o mundo. Aqui já se falou que a vacina da gripe era uma estratégia para matar os idosos e aliviar a Previdência. Essa informação gerou estragos e muitos idosos ficaram doentes por conta deste absurdo – diz Walter.

Movimento antivacina pode ter auxiliado na volta de doenças graves – Foto: Reprodução/Pixabay/NDMovimento antivacina pode ter auxiliado na volta de doenças graves – Foto: Reprodução/Pixabay/ND

O pior da Infodemia é que nem sempre a origem de uma informação é falsa. Mas sim seu desdobramento.

– Se temos algum assunto que seja mais preponderante, se aumenta o numero de publicações, posts e no meio disso muitas coisas são falsas. Tem as que são parcialmente verdadeiras, mas as conclusões não são as mais acertadas. A pessoa deliberadamente se aproveita de uma informação correta para disseminar algo incorreto. Se chegou a falar que a vacina Triplice viral (Sarampo, Rubeola e Cachumba) provoca o autismo e isso teve origem em uma publicação médica importante anos atrás que se falava nisso. Mas este estudo foi revisto há vários anos. O artigo falseou os dados e quem o fez até teve as licença cassada. Até hoje é veiculado e as pessoas que acreditam na teoria da conspiração compram esta ideia falando que as pessoas foram cassadas pois contrariavam o interesse das grandes corporações – lembrou Walter.

Veículos sérios ajudam a combater danos da Infodemia

Apesar de serem anteriores ao Coronavírus, os estragos da infodemia têm causado problemas na luta contra o vírus. Durante a pandemia a infodemia gerou uma série de informações equivocadas. Fórmulas mágicas são vendidas como curas contra um mal que ainda não tem solução.

– São as tais fórmulas mágicas do Coronavirus. Gente ensinando a fazer gargarejo, água, bicarbonato, sal e limão. Dizendo que o vírus não aguenta mais de 26 graus. Como isso é possível se o vírus atinge o ser humano que tem temperatura média de 36 graus? No Youtube tem vídeos disso dizendo que Israel controlou a epidemia com isso. Isso não é real – disse Walter.

Neste cenário Walter aponta um arma importante.

– Veículos sérios, jornais, emissoras de TV, sites de jornais têm jornalistas por trás, colocando o nome deles na informação. É importante buscar informações neles e nos órgãos oficiais. Existe um explosão de informações nas mídias sociais, mas isso também gerou uma retomada dos grandes veículos. As pessoas devem desconfiar das informações e buscar na imprensa se é verdade ou não. E prestar atenção em tons alarmistas e coisas do gênero – ensina Walter.

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