Isoladas e sem idealização: elas se tornaram mães durante a pandemia em Santa Catarina

09/05/2021 às 07h00

Elas não tiveram chá de bebê e algumas lidam com a frustração de não poder mostrar os pequenos para a família. Na pandemia, a maternidade revela novos desafios

Sofia Mayer Florianópolis

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Mais de 35 mil crianças vieram ao mundo em Santa Catarina em 2021. Com elas também nasceram novas mães. Mulheres que enfrentaram as inseguranças da gravidez potencializadas por uma pandemia global. Elas lutam para superar a frustração do isolamento social e encontrar seus espaços como mulheres e genitoras.

Todas as mães entrevistadas pela reportagem do ND+ deram à luz bebês entre o final de 2020 e o início deste ano. Apesar da pressão e do medo, elas aproveitam o momento de reclusão para estreitar as conexões familiares. Será assim também neste Dia das Mães.

Cédric tem pouco mais de um mês de vidaCédric, bebê de Fernanda, tem pouco mais de um mês de vida – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Em isolamento desde o início da pandemia, a moradora de Florianópolis Fernanda Abuquerque, de 23 anos, é uma das mulheres que aprende a maternar pela primeira vez durante a pandemia.

A postura adotada por ela, neste contexto, é de aproveitar ao máximo a vinda do pequeno Cédric, que nasceu há pouco mais de um mês.

A atenção é tanta que ainda nem parou para compartilhar fotos do bebê nas redes sociais. “Não postei nada porque estou aproveitando bastante o tempo com ele”, diz.

Por causa da pandemia, os pais de Fernanda ainda não conheceram o netinhoPor causa da pandemia, os pais de Fernanda ainda não conheceram o netinho – Foto: Instagram/Reprodução/ND

Esse movimento de formar e fortalecer conexões já era algo desejado pela jovem mãe, mas se intensificou no contexto de pandemia: a crise sanitária impediu o contato próximo com os parentes. Os pais de Fernanda moram no Paraná e ainda não conheceram o netinho.

A dinâmica, então, tem ajudado a lidar com a frustração da distância. “Me senti insegura por estar num estado longe da minha família”, conta.

Para a doutora em psicologia clínica Vanessa Silva Cardoso, garantir uma relação profunda e intensa no puerpério é importante para mãe e filho: “essa energia materna, voltada ao bebê, é bastante benéfica”.

Gestação de risco e solidão

Quando a gerente financeira Roberta Padoin Chiesorin Skowasch, de 35 anos, descobriu que estava grávida da pequena Isabela, em fevereiro do ano passado, não imaginava a solidão que seria o processo gestacional.

“Em março veio a pandemia, e foi quando eu comecei a fazer os exames. Foi o maior choque”, relembra. Nessa época, havia restrições de pessoas nas clínicas. O pai da criança, por exemplo, não pôde acompanhá-la no primeiro ultrassom da bebê, que hoje tem seis meses.

Com gravidez considerada de risco, Roberta Skowasch teve muitos cuidados durante a gestaçãoCom gravidez considerada de risco, Roberta Skowasch teve muitos cuidados durante a gestação – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

“Você sai de casa sozinha, bota a máscara e não sabe o que te espera”, relata. “Imagina se [a bebê] não tivesse coração – vou chorar ali sozinha?”.

Quando Roberta soube que vivia uma gestação de risco, o pai foi liberado para comparecer às consultas. A descoberta, contudo, gerou ainda mais insegurança:  segundo o Ministério da Saúde, grávidas e puérperas fazem parte do grupo mais vulnerável para Covid-19.

“Até as 28 semanas, a gente realmente ficou cuidando muito”, conta Roberta. O médico disse a ela que, caso contraísse a doença de forma severa, teria que completar 28 semanas de gestação para ser intubada, caso precisasse.

Roberta já tinha um filho de quatro anos antes da vinda de Isabela. Agora, o combo de trabalho remoto, restrições de visitas e dois pequenos para cuidar – tudo ao mesmo tempo – tornou a sobrecarga quase inevitável. A pandemia limita a presença de uma rede de apoio forte, que existia aos montes na primeira gestação.

A mãe vê diferenças entre as duas gestações. “Quando o mais velho nasceu, a gente cansava de fazer comida para as pessoas virem conhecê-lo. Agora, tem gente que nem me viu grávida e nem conhece a bebê”.

Roberta, mãe de dois filhos, viu diferenças nas duas gestaçõesRoberta, mãe de dois filhos, viu diferenças nas duas gestações – Foto: Arquivo Pessoal/Reprodução/ND

Como os pais de Roberta são do grupo de risco para a Covid-19, uma vizinha, que conheceu há pouco mais de um ano, se tornou um verdadeiro ponto de suporte. “Ela é enfermeira aposentada, me aplicou todas as injeções”, conta. A cada 90 dias, a gerente financeira precisava fazer aplicações de heparina: “são as famosas picadas do amor”.

Agora, “com essa história de aula em semanas alternadas, ela fica todas as tardes com a Bela para dar certo eu trabalhar home office”, conta. As vizinhas se encontraram só em janeiro do ano passado, quando a família Skowasch se mudou para um prédio no Córrego Grande, em Florianópolis. “Hoje, ela faz parte da família do coração”. O pai da criança é policial militar e frequentemente trabalha fora de casa.

Diferente, não menos especial

As adaptações ao que se esperava da gravidez fez parte da experiência da jornalista da NDTV Vanessa Nora, que trouxe Maria Antônia ao mundo em fevereiro deste ano.

Mesmo antes da chegada da pequena, a expectativa era grande para apresentá-la livremente à família, amigos e colegas. Sem trégua da pandemia, porém, Vanessa e o marido – o também jornalista Eduardo Cristófoli – se isolaram ao máximo desde o período de gestação.

Maria Antônia nasceu em fevereiro de 2021Maria Antônia nasceu em fevereiro de 2021 – Foto: Instagram/Reprodução/ND

O cuidado é embasado em pesquisas. Um estudo publicado em 2020, no British Medical Journal, por exemplo, divulgou que gestantes infectadas pela Covid-19 tinham um risco 62% maior de internação em UTI.

Para poder compartilhar a alegria da espera, então, o chá de revelação do sexo do bebê aconteceu de forma remota. Nos estúdios televisivos no Morro da Cruz, em Florianópolis, Vanessa ainda não pôde desfilar com a pequena nos braços.

“O que eu tive foi uma surpresa dos colegas de trabalho, sem poder dar um abraço e apertar. Sou uma pessoa que precisa de contato físico, então isso nos faz sofrer um pouquinho”, conta. Vanessa está em licença maternidade, mas passou a maior parte da gravidez trabalhando em home office, para preservar a saúde.

Este será o primeiro dia das mães da jornalista Vanessa NoraEste será o primeiro dia das mães da jornalista Vanessa Nora – Foto: Instagram/Reprodução/ND

As restrições, no entanto, não estragam a alegria da estreante na função, que vive, neste domingo, o primeiro Dia das Mães junto a Maria Antônia.  “A gente conseguiu o que mais queria, que era a neném. Agora, precisamos ter a consciência de nos cuidar”, destaca.

Por enquanto, Vanessa aproveita os momentos íntimos de amamentação em livre demanda e os aprendizados diários com a menina. “Tem coisas que só a mulher consegue dar ao bebê”. Todo dia é único e especial.

Evitando frustrações

A psicóloga Vanessa Silva Cardoso lembra que a capacidade de adaptação é importante durante a pandemia da Covid-19.

Ela explica que várias das projeções feitas antes ou durante a gravidez são pensadas em um “mundo normal”, e dificilmente serão executadas em um cenário de crise sanitária. Segundo a especialista, insistir em idealizações neste contexto “gera uma ansiedade por si só”.

O desejo incessante de ser a “mãe perfeita” estaria entre as metas inalcançáveis. “Isso gera em nós, mulheres, um peso muito grande”, revela. Ela defende que existe um imaginário, alimentado desde a infância, de que “lugar da mulher é na maternidade”. Na pandemia, essa pressão social fortalece um sentimento de culpa evitável.

Tendências

Mais de 134 mil crianças nasceram em Santa Catarina desde 2020, quando a pandemia foi decretada pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Os dados são do Portal de Transparência do Registro Civil.

O período também movimentou as tendências de nomes infantis no Brasil. Segundo o portal, entre os nomes escolhidos para os bebês em todo o País predominaram as escolhas mais minimalistas e tradicionais.

Miguel foi o campeão, com 30.816 registros. No caso das meninas, Helena saiu na frente da lista, com 24.855 documentações em 2020.

Embora Cédric, Isabela e Maria Antônia não apareçam no top 50 da lista, eles são o primeiro lugar nos corações das novas mamães. Elas sabem.

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