Joinville chega a 511 mortes: a dor daqueles que perderam alguém para Covid-19

Cidade ultrapassou a marca de 500 vítimas nesta terça-feira (5), com recorde de confirmações em um dia; números refletem falta de cuidados da população, diz especialista

Luana Amorim Joinville

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“Não vou te dizer que está fácil”. As palavras ainda saem com sentimento de dor e angústia da boca de Bruna Burg de Souza. A jovem, de 24 anos, está entre as centenas de famílias que perderam algum parente para Covid-19.

No caso da atendente de farmácia, a dor foi dupla:  em apenas dois dias ela perdeu o pai e a mãe para a doença.

Algumas das vítimas da Covid-19 em Joinville – Foto: Luana Amorim/DivulgaçãoAlgumas das vítimas da Covid-19 em Joinville – Foto: Luana Amorim/Divulgação

Antônio Carlos de Souza, de 64 anos, e Maria Helena Burg, de 59, estão entre as 511 vítimas da Covid-19 em Joinville, no Norte do Estado. Só nesta terça-feira (5), a cidade confirmou 22 mortes – recorde em apenas um dia.

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São pessoas que tinham histórias, famílias e sonhos. São Mários, Carlos, Marias, Juracis e Julianas que tiveram a vida interrompida por um vírus que ainda traz uma série de dúvidas à humanidade.

Homens e pessoas acima dos 80 anos são as principais vítimas

Segundo dados do Painel Covid-19, disponibilizado pela Prefeitura de Joinville até o dia 5 de janeiro, a maioria das vítimas são homens e pessoas com idade acima de 80 anos.

Em relação ao gênero, 57% das mortes foram de homens – 292. Já as mulheres, representam 42%, sendo um total de 219.

Quando calculada a idade, os idosos são as principais vítimas: 84% das mortes foram de pessoas acima dos 60 anos, sendo que dessas, 167 tinham mais de 80.

A vítima mais jovem da Covid-19 em Joinville foi uma adolescente de 16 anos. Kailandy Rodrigues dos Santos ficou internada por cerca de um mês no Hospital Infantil Dr. Jesesr Amarante Faria, mas não resistiu a doença e morreu no dia 22 de agosto. De acordo com o município, Kailandy tinha problemas renais crônicos.

Já a vítima mais velha foi um homem, de 100 anos, que morreu no dia 5 de setembro. A identidade dele não foi divulgada.

Bairros Iririú e Aventureiro lideram número de mortes

Os bairros Iririú e Aventureiro são os que lideram o número de mortes em Joinville: são 32 vítimas. Em seguida vem o Boa Vista (29), Floresta (28) e Costa e Silva (25).

A cidade tem apenas um bairro onde ainda não foram registradas vítimas por Covid-19: Zona Industrial Norte. Em seguida, os números mostram o Jardim Sofia e o Vila Cubatão com apenas uma morte e São Marcos e Dona Francisca, com duas.

Agosto foi o mês com mais mortes

Já em comparação ao número de mortes, agosto foi o que registrou o maior número, com 123 vidas perdidas para a doença em Joinville. Em seguida vem os meses de julho (96) e dezembro (95).

O município registrou um aumento a partir do mês de julho, com pico em agosto, queda em setembro e novo aumento em dezembro. Em 2021, até o dia 5 de janeiro, 26 mortes foram confirmadas na cidade.

“Não foi a mesma coisa”

Um mês depois da morte dos pais, Bruna ainda guarda na lembrança os momentos em que passaram juntos. Filha única do casal, ela conta que os três sempre foram muito apegados e tinham o costume de almoçar juntos quase todos os dias.

“Nós morávamos no mesmo bairro, então a gente se falava todo o dia. Antes de começar a pandemia, almoçávamos juntos. É difícil, porque sempre sentimos aquela falta de ligar”, relembra.

Antônio Carlos de Souza, conhecido como Carlão, era ex-motorista do JEC e morreu no dia 6 de dezembro, depois de apresentar os primeiros sintomas. Ele teria se contaminado após um procedimento cirúrgico.

Os familiares o visitaram quando ele estava internado, momento em que foram contaminados com o vírus. Bruna e o irmão – filho apenas da mãe da jovem – tiveram sintomas, mas a doença não evoluiu para um quadro mais grave.

Em dois dias, Bruna Burg de Souza perdeu o pai e a mãe, vítimas da Covid-19 em Joinville – Foto: Arquivo Pessoal/DivulgaçãoEm dois dias, Bruna Burg de Souza perdeu o pai e a mãe, vítimas da Covid-19 em Joinville – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Já a mãe de Bruna, Maria Helena Burg, apresentou complicações decorrente a doença e também não resistiu. Ela morreu dois dias depois de Antônio, após 10 dias internada.

A jovem mora no mesmo bairro onde viviam os pais. A casa, agora vazia, ainda carrega as memórias do casal.

“Não tem mais ninguém morando lá. Não tiramos nada lá de dentro, porque não estou pronta para mexer. Eu, inclusive, evito de passar lá na frente”, afirma.

Assim como diversos outros planos, o Natal também não foi como o esperado. Bruna relembra que a família tinha o costume de passar a data em conjunto.

“Não sei nem como explicar a sensação. A gente ia comemorar aqui em casa, no meu apartamento, mas não deu e acabei passando a data com a família do meu marido. Porém, não é a mesma coisa que passar com as pessoas de sempre”, conta em meio às lágrimas.

Para especialista, falta de consciência pode ter contribuído para aumento dos números

Aglomerações, falta de cuidado e relaxamento das pessoas em relação ao vírus. Esses são os principais fatores que podem ter contribuído para o aumento no número de mortes, de acordo com o infectologista Tarcisio Crócomo.

“As pessoas relaxaram bastante. Os números começaram a cair e elas se sentiram seguras, achando que estava tudo bem e, com isso, deixaram de tomar as medidas necessárias para evitar a contaminação”, explica.

Além disso, o especialista aponta que a falta de fiscalização e a desunião entre poderes públicos acabou confundindo a população. Ele acredita que uma das soluções para frear os números, é a aplicação de medidas mais restritivas e o reforço da conscientização sobre os perigos do vírus, até a chegada da vacina.

“Quem se expôs nas festas de final de ano, não deve ir visitar os idosos ou pessoas em risco. Se tiver sintoma, procure atendimento e se isole. Já o poder público, tem que identificar o maior número de casos para tomar as medidas de isolamento”, reafirma.

Novos leitos devem ser abertos no Hospital São José nos próximos dias – Foto: Carlos JúniorNovos leitos devem ser abertos no Hospital São José nos próximos dias – Foto: Carlos Júnior

Em média, 48% dos internados chegam a óbito em Joinville

“A morte é a coisa mais trágica que pode acontecer na pandemia”. É assim que o secretário de saúde de Joinville, Jean Rodrigues, descreve às vítimas da Covid-19 na cidade. Segundo ele, os óbitos são consequência do processo que se inicia com a contaminação.

“Quando ela [pessoa] evolui para um caso grave e chega a ser entubada, nossos números dizem que 48% em média chegam ao óbito, dentro do grupo de risco. Ou seja, se olhar esse cenário, a cada 100 pessoas internadas, no intervalo de 20 dias, vou ter 46 mortes”, explica.

Segundo Rodrigues, as mortes ainda refletem o pico dos casos registrados na cidade nos últimos dois meses – só em dezembro, foram 12.419 confirmados, o maior número desde o início da pandemia.

A quantidade, inclusive, continua refletindo no número de internações. O medo da Secretaria de Saúde é de que o rescaldo dos meses anteriores, alinhado com as festas de final de ano, aumentem ainda mais a demanda dos hospitais.

“Nossa rede hospitalar está com ocupação alta desde novembro. E se permanecer alta, mais o fim do ano, podemos ter falta de leitos. Por isso estamos ampliando a rede para evitar que isso aconteça”, conta.

Sobre possíveis novas restrições, o secretário afirma que trabalha com um modelo sustentável e no momento não há novidades. A previsão é de que Joinville permaneça no nível gravíssimo na nova atualização da matriz de risco que será divulgada nesta quinta-feira (7).

Questionado sobre uma possível abertura das casas noturnas, caso a cidade caia para o nível grave (o segmento pode funcionar com 20% e ocupação pelo Governo do Estado), Rodrigues afirma que isso só acontecerá quando a região cair para o alto, ou seja, quando apresentar um período de estabilidade.

“O mais importante é evitar a contaminação. Por isso as pessoas tem que continuar usando máscara, higienizando as mãos e evitar as aglomerações”, reforça.

Para Bruna, falta conscientização das pessoas

Bruna ainda tenta buscar forças para lidar com a perda dos pais. Por isso, se diz revoltada ao ver imagens e vídeos que mostram aglomerações em dezenas de lugares.

“Depois do que aconteceu, quando vejo essas coisas, eu sinto raiva. O povo não se conscientiza que a doença está aí. A minha mensagem para eles é de que comecem a pensar no próximo e não em si mesmo. Criem consciência e empatia pelo próximo”, enfatiza.

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