Lagunense radicado em Florianópolis com meses de vida, Zulmar Accioli trocou a faculdade de direito pela de medicina na UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), onde colou grau em 1993.
Sua formação – mestrado, especialização e doutorado – foi continuada na França, durante cinco anos, tornando-se membro especialista da SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica) em 2000.
Desde 2002, é professor da UFSC e, atualmente, responde pela regência do Serviço de Cirurgia Plástica de seu Hospital Universitário.
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Zulmar Accioli, presidente da SBCP-SC – Foto: Margareth Stahnke/Divulgação/NDConvidado de missões internacionais para operar feridos da guerra palestina, esteve sete vezes na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, sendo o primeiro sul-americano a integrar um grupo de médicos de vários países que lá atuaram voluntariamente.
Além da clínica que mantém, Zulmar escreve livros sobre a especialidade médica e, há 13 anos, ocupa cargos na regional catarinense da SBCP, sendo seu presidente pela segunda vez (2022/2023).
De 28 a 30 de abril, será o anfitrião da 37ª Jornada Sul-Brasileira de Cirurgia Plástica, que reunirá profissionais dos três Estados da região em Florianópolis. “É um momento ímpar: o renascimento pós-pandemia, com o retorno dos eventos presenciais”.
O que te faz participar tão ativamente do órgão que representa os cirurgiões plásticos no Estado?
Tenho um envolvimento acadêmico e político no sentido de melhora da qualificação dos cirurgiões plásticos em formação e em dar condições para a formação contínua dos nossos membros. A cirurgia plástica exige, no mínimo, 12 anos de estudos, entre a medicina e a especialização.
Sempre defendeste fortemente a segurança do paciente. A cirurgia plástica foi aperfeiçoada, os protocolos revistos e modernizados, surgiram equipamentos, técnicas e estudos, criou-se o termo de consentimento informado. Há algo novo neste quesito?
A segurança do paciente é o fator número um de preocupação de qualquer médico. No caso da cirurgia plástica, ainda é uma obsessão, pois a maioria dos pacientes são saudáveis. Estamos fazendo dois manuais de segurança que devemos publicar neste final de ano e no próximo.
Accioli (centro, de gravata borboleta) com cirurgiões e residentes do Serviço de Cirurgia Plástica do HU/UFSC, no lançamento do Mutirão Nacional de Reconstrução Mamária, em 2016 – Foto: Sabrina Nicolazzi/Divulgação/NDNotícias sobre problemas sérios ou graves decorrentes da cirurgia plástica diminuíram em relação à década passada. Os pacientes tomaram juízo no que diz respeito à qualificação do profissional procurado?
Esta sensação de risco vem do descaso que uma série de profissionais não qualificados vêm atuando em cirurgia plástica. Para desespero geral, até os que nem médicos são. Isto, porém, é um problema da justiça. Na verdade, o maior e melhor fiscal é o próprio paciente. Medicina é uma arte onde a ciência é inexata. Imagina esta arte ser exercida por quem não tenha a formação científica adequada? Nem o cirurgião plástico, com todo seu estudo pode prometer resultado. Pense em se submeter a aventuras pseudocientíficas. Não tem chance de acabar bem.
Com o advento das redes sociais, houve uma demanda pelos procedimentos estéticos para incrementar a aparência. Durante a pandemia, quando o uso da internet se tornou, em muitos casos, o único meio de interagir, como isto foi sentido nos consultórios?
As redes sociais vieram para o bem e para o mal. Elas informam, mas não formam. Não existe o “Dr. Google”. Também não é lícito prometer resultados espetaculares por redes sociais. Quanto mais eu acompanho esta evolução, mais eu constato que é enganado quem quer ser. A cirurgias mais comuns são ainda a lipoaspiração e o implante mamário. E, curiosamente, são as que os pacientes menos conhecem e mais se decepcionam, desejando resultados impossíveis.
Temos visto nas telas de celulares e computadores casos nítidos de exagero, traços desproporcionais no rosto, aparência artificial. Este apelo à beleza é mais forte no ambiente virtual?
O exagero é uma exceção. Mas chamam a atenção. Vemos cada vez mais pessoas com a cara do Coringa ou com os lábios parecendo o traseiro de um babuíno. Em minha opinião, é questão de gosto… ou falta dele.
No Oriente Médio, em 2006, numa das vezes em que foi operar feridos da guerra palestina – Foto: Divulgação/NDPor que a face e o nariz são novamente temas centrais da Jornada Sul-brasileira?
Porque são as cirurgias mais complexas na cirurgia plástica de cunho mais estético. Procedimentos que o cirurgião nunca para de aprender e de melhorar seus resultados. Sendo os mais difíceis, são também os mais desafiadores!
Lipoaspiração e implante de silicone nos seios, historicamente, se revezam no topo da demanda de cirurgias plásticas no Brasil. Como está o ranking hoje?
Como a pirâmide de idade ainda é de jovens, a lipo e os implantes de silicone para aumentar as mamas ainda são os procedimentos mais comuns. Porém, com o envelhecimento saudável da população, os demais vem ganhando em proporção, como a cirurgia da face.
Pesquisas relativas a 2020 divulgadas recentemente mostraram, além da alta procura por cirurgias plásticas durante a pandemia, o aumento de casos de explante de próteses mamárias. Não é contraditório?
A questão do explante, tirando as controversas e, na minha opinião científica, inexistentes “doenças ligadas ao silicone”, vem do envelhecimento da população. Faço muito esta cirurgia. Mas a principal queixa é que, depois de 20 anos, a mulher já não se sente tão bem com o corpo de mamas maiores. Elas costumam me dizer: “aproveitei muito, mas agora eu sou avó e já não combina mais comigo”. Acho um desejo bem aceitável.
Da esq. para dir.: Carlos Casagrande, ex-presidente da SBCP-SC; André Auersvald, ex-presidente da Regional Paraná e diretor científico nacional; Zulmar Accioli, presidente da Regional SC; e Lydia Masako Ferreira, presidente da SBCP Nacional – Foto: Angelo Santos/Divulgação/NDEm 74 anos de existência, a SBCP Nacional tem pela primeira vez uma mulher na presidência. É uma representatividade que demorou a chegar.
Ter uma mulher como presidente nacional da SBCP é uma alegria. principalmente sendo professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Doutora Lydia Masako Ferreira, mulher dinâmica, ligada à academia, líder de um dos melhores serviços de cirurgia plástica do Brasil. A cada reunião que fazemos, mais me surpreendo com a liderança, com a sabedoria e com a generosidade dela. A presidente está nos conduzindo para a cirurgia plástica do século 21.
Estiveste sete vezes no Oriente Médio, operando voluntariamente feridos de guerra. Tens anseio de empreender nova missão?
Mandei um email para a Embaixada da Ucrânia. Não tive resposta ainda. Mas, sendo pai de três filhos adolescentes, vai ser mais difícil convencê-los a voltar a trabalhar em zona de guerra.