O Brasil começou a última terça-feira (24) com a chocante notícia de 25 pessoas mortas em uma operação policial na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, além de outras três em um confronto no Morro do Juramento, ambas comunidades da Zona Norte do Rio de Janeiro.
Nesta mesma terça, o anúncio de uma tragédia entristeceu os catarinenses e todo o Brasil: as mortes do morador de Balneário Camboriú e viajante Jesse Koz, 29 anos, e de seu fiel ‘cãopanheiro’ Shurastey em um grave acidente nos Estados Unidos.
último anos de tragédias e milhares de mortes resultou em um luto coletivo que pode se tornar uma questão de saúde pública – Foto: AFPSegundo dados do Ministério da Saúde, até esta quinta-feira (26) mais de 600 mil pessoas morreram no Brasil por conta da Covid-19. Há pelo menos dois anos o Brasil enfrenta mortes e um imenso e pesado luto coletivo. As vacinas frearam o número de mortes e casos da doença, mas ainda sentimos a dor do primeiro ano, tão duro e cheio de desespero.
SeguirExecuções, doença, acidente… Casos e cenários que trazem à tona revolta dor e tristeza.
Voltando à operação policial nas comunidades cariocas que resultou em uma verdadeira carnificina, as redes sociais foram inundadas de comentários sobre a incapacidade dos brasileiros de se revoltarem com a dor de dezenas de famílias. Eu, particularmente, tenho um olhar um pouco diferente sobre isso.
Acredito que não perdemos a capacidade de indignação, de empatia e de buscar justiça, mas acho que é difícil demais gritar por outra pessoa quando nós mesmos estamos sofrendo nossas próprias tragédias pessoais.
Foram mais de 600 mil vidas perdidas em decorrência da Covid-19! Vejam quantas famílias destruídas agora tentam, em frangalhos, se reconstruir? Claro que há quem consiga se indignar, gritar e buscar por justiça de forma feroz, mas é preciso entender quem não está conseguindo fazer o mesmo. Estamos quase todos apáticos.
Silêncio coletivo
A psicóloga Bruna Coralli em seu artigo “O silêncio coletivo: a morte na atualidade e o desconforto causado por ela” explica que mesmo sendo esperada e certa, a morte segue causando dores coletivas na sociedade.
“A morte faz parte do desenvolvimento humano acompanhando seu ciclo vital e deixando suas marcas, não podendo ser descrita. Ou seja, a própria palavra morte não dá conta do que ela é. Cada pessoa tenta ligá-la em outra palavra para expressar ideias, fantasias, crenças e mitos. Essas palavras acabam sendo insuficientes para descrever o muito que se imagina e o pouco que se sabe sobre o fenômeno”, destaca Bruna.
Para psicóloga, luto coletivo deve se tornar uma questão de saúde pública, visto que o sentimento afeta até os profissionais de saúde – Foto: Leo Munhoz/NDA psicóloga continua explicando que a morte não cabe apenas como evento biológico, mas reflete também questões psicológicas, antropológicas e espirituais. “Quaisquer grupos, mesmo os mais primitivos, não abandonam os seus mortos. O homem sempre acreditou na imortalidade”, salienta.
Para Bruna, um luto incompleto pode se tornar uma questão de saúde pública na atualidade, sobretudo se olharmos a quantidade de pessoas que adoeceram e morreram nos últimos anos.
“O luto mal elaborado está se tornando uma questão de saúde pública, visto o grande número de pessoas que adoecem em função de uma carga demasiada de sofrimento, sem a possibilidade de que este seja elaborado. Esse mal também está afetando os profissionais da saúde”, alerta a psicóloga.
O assunto é claramente complexo e meu objetivo aqui não é trazer nenhuma conclusão, mas propor uma reflexão sobre as dores e pressões que colocamos sobre nós mesmos de maneira conjunta.
Nós, brasileiros, por diversas razões estruturais sofremos historicamente diferentes angústias e pressões. Diante de tantas feridas pessoais e coletivas abertas, de onde tirar forças para alimentar nossa capacidade de indignação?