Mãe de bebê com cabeça cortada durante parto em Joinville teve placenta retirada sem anestesia

Três testemunhas confirmaram o ocorrido durante o parto; SES e Polícia investigam o caso

Foto de Ana Schoeller

Ana Schoeller Florianópolis

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A mãe da pequena criança de menos de um mês que teve a cabeça cortada durante o parto em Joinville no último dia 14 relata que teve a placenta retirada sem anestesia na maternidade Darcy Vargas. A informação foi confirmada com exclusividade ao portal ND+ na manhã desta terça-feira (8).

Mãe de criança com a cabeça cortada em Joinville teve a placenta retirada sem anestesia Criança teve a cabeça cortada durante o parto em Joinville e mãe teria tido placenta retirada sem anestesia – Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/ND

Segundo a mãe, a criança continua internada no Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, em Joinville. A pequena está fazendo tratamentos com antibióticos por conta da infecção gerada no corte.

Uma das mães que estava presente na hora do parto, afirmou ao portal ND+ que a mãe da bebê passa por tratamento psicológico devido a outras violências sofridas durante o parto.

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“Deixaram a placenta nela, não fizeram a curetagem. Ela chegou no quarto sangrando e só depois dois enfermeiros fizeram a curetagem ali no quarto mesmo sem anestesia”, conta.

Outra mãe ouvida pelo portal ND+ afirmou que logo após o parto, a mãe perguntou para um médico da maternidade Darcy Vargas, onde tudo aconteceu, se o corte na sua filha não apresentava nenhum problema. O qual teria respondido que era “apenas um cortezinho”.

Além de todo o trauma sofrido no parto, a mãe da criança é uma mulher vivendo com HIV. O que, segundo a Unaids, uma ONG das Nações Unidas que trabalha com PVHI (pessoas vivendo com HIV) as PVHI podem vivenciar problemas de saúde mental que podem afetar sua qualidade de vida e impedi-las de procurar assistência médica, aderir ao tratamento e continuar sob cuidados.

Estudos realizados em 38 países mostram que 15% dos adultos e 25% dos adolescentes vivendo com HIV relataram depressão ou se sentiram sobrecarregados, o que pode ser uma barreira para a adesão à terapia antirretroviral.

Estado investiga negligência no parto

Questionada a SES/SC (Secretaria do Estado da Saúde de Santa Catarina) disse que investiga o caso.

A Maternidade Darcy Vargas informa que o evento está em investigação pela Gestão de Risco da unidade, e o caso também está sendo apurado pela Polícia.

A SES não respondeu ao questionamento da reportagem sobre se os profissionais que realizaram o parto seguem ou não atuando na maternidade Darcy Vargas.

O caso foi registrado na Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso de Joinville. A informação foi confirmada pelo delegado Eduardo de Mendonça, que atua no local. A investigação segue em andamento.

O parto

O que deveria ser um dos momentos mais felizes de uma mãe se tornou um dos maiores pesadelos de sua vida. Tudo começou no parto, dia 14 de julho, quando a mãe, que não terá o nome divulgado para preservar o seu direito, foi ter sua filha na maternidade Darcy Vargas, em Joinville.

Após a ferida aberta, segundo a mãe, a criança não foi tratada como deveria. A pequena bebê recebeu um ponto na cabeça, mas a mãe conta que os profissionais não limparam corretamente o local da ferida. Depois, mãe e filha foram mandadas para casa.

A volta para o hospital

Mesmo em casa, a ferida da criança não fechava, segundo a mãe. Foi então que ela voltou a buscar atendimento médico na cidade. Após passar por um posto de saúde, a mãe foi encaminhada para o Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, também em Joinville.

“Comecei a notar que ela tinha também pequenas bolinhas pelo corpo e achei estranho. Foi então que levei ao médico”, conta.

Ao chegar no Infantil a criança foi avaliada por neurologistas, que fizeram exames específicos e constataram uma infecção na criança. Segundo os médicos, é possível que a criança tenha sequelas neurológicas permanentes.

Criança com a cabeça cortada em Joinville pode ter sequelas neurológicas permanentes Bebê que teve a cabeça cortada durante o parto pode ficar com sequelas neurológicas, relata médico e mãe da criança – Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal/ND

A delegacia

O caso foi registrado na Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso de Joinville. A informação foi confirmada pelo delegado Eduardo de Mendonça, que atua no local.

Segundo ele, até o momento foram ouvidos os familiares da criança, mas nos próximos dias dois médicos responsáveis pelo atendimento à mãe e a bebê serão ouvidos pelos policiais.

O que diz a SES

Em nota, enviada na data que a reportagem foi publicada, a maternidade declarou que:

A direção da Maternidade Darcy Vargas esclarece que no caso citado, ocorreu uma intercorrência no momento da cesária. O paciente foi atendido e segue internado recebendo os cuidados médicos no Hospital Jeser Amarante Faria. A Maternidade Darcy Vargas informa ainda que o evento está em investigação pela Gestão de Risco da unidade, buscando identificar se houve alguma falha na conduta tomada durante o parto.

Violência obstétrica está relacionada com a cor da pele

Em abril, a Comissão Especial sobre Violência Obstétrica e Morte Materna debateu o tema com representantes de todo o país, entre eles, a secretária de Saúde de Santa Catarina, Carmen Zanotto.

“As mulheres negras morrem mais que as brancas, mesmo tendo a mesma escolaridade e o mesmo acesso ao pré-natal. Está comprovado que nós profissionais da enfermagem dedicamos menos tempo na assistência pré-natal à mulher negra que à mulher branca”, disse na época.

O caso da mãe relatada nesta matéria, que é uma mulher negra, soma-se a uma infinidade de mulheres negras que sofreram violência obstétrica no Brasil. Só para se ter uma ideia, um estudo publicado na Biblioteca Nacional de Medicina relaciona o racismo ao atendimento médico dado às mulheres negras no país.

“No Brasil, mulheres negras são desproporcionalmente negadas ao acesso a cuidados oportunos e ficam vulneráveis ​​à morte por causas obstétricas evitáveis. No entanto, elas não têm estado no centro de iniciativas recentes para melhorar a saúde materna”, descreve o estudo.

Para realizar a pesquisa, os pesquisadores analisaram a implantação da Rede Cegonha na Bahia entre 2012 e 2017.

Confira o estudo clicando aqui.

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