A movimentação intensa na emergência do Hospital Infantil Dr. Jesser Amarante Faria, em Joinville, Norte de Santa Catarina, tem deixado famílias apreensivas. Alguns pais denunciam demora, mau atendimento e até negligência na unidade de saúde.
Hospital Infantil – Foto: Divulgação NDHá relatos de que, só para a triagem, a espera é superior a duas horas. O caso foi parar no Ministério Público de Joinville. A 15ª Promotoria de Justiça de Joinville, inclusive, já abriu uma notícia de fato para apurar a situação.
O primeiro caso é da moradora de Araquari Patrícia de Moura Oliveira, que precisou de atendimento para a filha de 9 meses e a levou até o Hospital Infantil. O drama começou no início do mês de março, quando a menina foi internada na instituição com bronquiolite. Foi liberada e, segundo a mãe, começou a apresentar problemas na respiração.
SeguirNo dia 28 de março, a família teve de retornar ao Hospital Infantil. Ela conta que a filha estava com mais de 40 graus de febre e saturação de oxigênio baixa, se esforçando para respirar. Na chegada, entre fazer a ficha de atendimento e passar pela triagem, o tempo de espera foi de duas horas, relatou Patrícia. No consultório, o médico teria dito que a criança estava com ataque cardíaco.
Para baixar a febre, a criança teria que estar com saturação boa. Pediu então que fosse com urgência para a sala de medicação para fazer o tratamento com a bombinha.
“Chegando lá, não tinha como passar. Um enfermeiro saiu já falando que tinha que esperar. Tentei argumentar o que o médico tinha me falado, mas o profissional falou que eu não era melhor que ninguém, todo mundo estava esperando e eu também teria que esperar”, relembra Patrícia.
A mãe, então, entrou em crise de choro e desespero, foi na sala do enfermeiro geral para implorar por uma bombinha para a filha. Daí, teve a súplica atendida. Às 19 horas, ocorreu a troca de plantão e a médica liberou a criança para ir para casa “mesmo estando com febre e saturando baixo”, relembra o que passou.
Ainda segundo a mãe, a médica teria informado que nos exames não havia aparecido nada e o tratamento poderia continuar em casa, sem precisar ficar internada. Naquela noite, a criança teve muita falta de ar e não conseguiu dormir.
Já no dia 29 de março, os pais levaram a criança para o Hospital e Maternidade Nossa Senhora das Graças, em São Francisco do Sul, Norte de Santa Catarina, onde ela passou por exames e foi constatado que estava com 80% dos pulmões comprometidos e ainda com “pontada de pneumonia dupla.”
A menina foi internada às pressas, ficando em São Francisco do Sul até dia 31 de março. Após essa data, foi transferida para o Hospital Infantil em Joinville, pois precisava de uma UTI (Unidade de Tratamento Intensivo).
Chegando no Infantil, a mãe relatou que “não fizeram nada” e a criança seguiu para um quarto normal. De sexta-feira, dia 1/4, para sábado, dia 2/4, a criança continuou com falta de ar, segundo Patrícia, e “mais uma vez ninguém fez nada.”
“Chamava a enfermagem e nada. No sábado pela manhã, o médico passou e falou que que minha filha já deveria estar na UTI, desde a madrugada de sexta.”
A criança, então, foi levada para a UTI e, segundo a mãe, continuava com dificuldade imensa para respirar. “Cortaram toda a medicação. Eu já estava desesperada, sem saber o que fazer.”
Na segunda-feira, dia 4, a menina ganhou alta da UTI e foi para o quarto. Ela segue internada na unidade de saúde.
Outra denúncia que Patrícia fez é quanto à dosagem do medicamento Dipropionato de Beclometasona de 50mg (utilizado para problemas respiratórios). Segundo a mãe, a dosagem prescrita seria de 50mg e a dosagem que a criança estava recebendo era de 250mg. A mãe questionou o enfermeiro. “Eles falaram que a prescrição estava errada e na UTI a dosagem era de 250mg mesmo”, comentou Patrícia.
Idas e vindas até diagnóstico de pneumonia
A segunda denúncia envolvendo o Hospital Infantil partiu de Eloisa Anacleto, tia de uma menina de 11 meses. Ela se diz triste ao constatar a falha no cuidado com a saúde das crianças.
A sobrinha de 11 meses passou duas semanas entre idas e vindas do Hospital Infantil com febre de 40 graus, tendo como diagnóstico dado pelos médicos sendo resfriado.
“Receitaram somente medicação para baixar a febre e mandaram voltar para casa sem nem mesmo fazer exame”, critica Eloisa.
No dia 2 de abril foi liberado o plano de saúde da sobrinha. Então, a mãe da criança a levou em um hospital privado de Joinville, onde imediatamente fizeram exames de sangue e raio x, onde foi diagnosticada uma infecção grave no pulmão. “Imediatamente a criança tomou medicamentos.”
Devido à fragilidade da bebê, o hospital solicitou internação e foi negado devido ao período de carência. Dessa forma, o hospital privado solicitou transferência da criança para o Hospital Infantil, onde foi levada no fim da tarde.
Chegando lá, por volta das 18 horas, a mãe teria sido informada que não havia leito disponível para internação e que precisava esperar passar pelo médico para ver se teria a necessidade da internação.
“Umas três horas depois, ela foi encaminhada para exames onde foi constatada pneumonia. A mãe da menina questionou a enfermeira sobre dar continuidade na medicação que a bebê estava fazendo no hospital privado, tendo como resposta que o médico ainda não havia receitado nada.”
A tia Eloisa ficou muito indignada com o tratamento que a sobrinha estava tendo. Ela chegou a fazer uma postagem nas redes sociais relatando o ocorrido. Repercutiu rápido chegando até o coordenador do Hospital Infantil.
Já no dia 3 de abril, perto do meio-dia, a mãe da criança ligou para Eloisa contando que um homem no hospital foi falar com ela se apresentando como coordenador do hospital. Ele teria sido grosseiro e teria perguntado na frente de outras mães o porquê da postagem na rede social. Ele teria dito, ainda, que a criança estava bem e que não era nada grave.
Duas horas depois, a criança começou a saturar baixo e precisou de oxigênio, segundo a tia.
Diante da postagem na rede social, outras mães também relataram que estavam enfrentando o mesmo problema com o hospital. No mesmo dia, perto das 22 horas, a criança, felizmente, conseguiu uma vaga para internação.
Reclamação feita por Eloisa em uma rede social – Foto: Reprodução Internet/Divulgação NDEloisa protocolou uma denúncia ao Ministério Público por negligência. Na denúncia, alegou, entre outras coisas, falta de exames, descaso e desrespeito para com as crianças e as mães. Um boletim de ocorrência foi registrado também na Polícia Civil.
Um inquérito foi instaurado pelo Ministério Público para apurar as denúncias – Foto: Divulgação ND
Foto: Reprodução documento“Que o hospital está superlotado entendemos, mas o que não podemos admitir é voltar para casa sem nenhum exame, nenhum diagnóstico concreto, não podemos ser tratados com desrespeito. A saúde pública é um direito social e dever do Estado. Inúmeras são suas responsabilidades para com a população que merece o mínimo de respeito e dignidade”, concluiu Eloisa.
Ministério Público apura caso
A reportagem do Portal ND+ entrou em contato com o Ministério Público de Joinville, que informou que em todos os casos de denúncia ao órgão é feita uma análise inicial e encaminhada para a promotoria responsável.
No caso específico do Hospital Infantil, a ouvidoria já encaminhou a manifestação à 15ª Promotoria de Justiça de Joinville. O promotor de Justiça, Felipe Schmidt, determinou a instauração de notícia de fato para apuração da matéria.
Depois de notificado, o Hospital Infantil terá cinco dias para apresentar uma justificativa mediante a gravidade do caso apresentado (infecção grave no pulmão de criança de tenra idade).
A situação da lotação nas UTIs Neonatais em todo o estado de Santa Catarina, já está sendo apurada pela Promotoria de Justiça da Capital, visto que a saúde da criança é um direito a ser garantido pelo estado.
Na semana passada o índice de ocupação em todo o estado era de 98,53%. O promotor Sandro Ricardo de Souza, solicitou informações sobre a falta de leitos.
Segundo ele, a 10.ª Promotoria de Justiça da Capital instaurou um inquérito civil, visando apurar a elevada taxa de ocupação de UTI Neonatal do estado. Como medida inicial foram solicitadas informações da Secretaria de Estado da Saúde, para dizerem a respeito da ocupação dos leitos de UTI nas diversas regiões do Estado, assim como quais medidas estão sendo adotadas para garantir o efetivo atendimento das crianças que dependem desse serviço.
“A par de todo atendimento ou qualquer investigação que venha se desenvolver nas promotorias de justiça do Estado, aqui se instaurou o inquérito civil, objeto um pouco mais amplo para haver um diagnóstico mais preciso de todo o problema e se busque soluções satisfatórias para garantir o atendimento de crianças nos em leitos de UTI neonatal”, concluiu o promotor.
O que diz o Hospital Infantil
Procurado, o Hospital Infantil de Joinville, disse que o volume de atendimento no Pronto-Socorro da instituição historicamente sempre foi elevado e próximo da capacidade instalada.
Veja abaixo a nota na íntegra:
“O Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, através da sua Assessoria de Imprensa, vem por meio desta nota esclarecer a comunidade sobre o tempo de espera elevado no Pronto-Socorro. O volume de atendimento no Pronto-Socorro da instituição historicamente sempre foi elevado e próximo da capacidade instalada, com demandas de todos os níveis e graus de criticidade, atendendo a macrorregião de mais de 1,4 milhões de habitantes, ainda sendo referência estadual para determinadas patologias.
Ademais, muitas vezes configurando como a única porta de acesso para atendimento pediátrico do município para demandas não urgentes e de baixa complexidade. Nos últimos meses, a instituição vem trabalhando com sua capacidade máxima de atendimento. A situação vem se agravando desde dezembro de 2021 pela falta de pediatras em outras unidades de atendimento na cidade e região.
Neste período obtivemos um aumento de 30% no número de atendimentos diários no Pronto-Socorro, sendo que 65% do número global de atendimentos são de casos poucos urgentes e/ou de baixa complexidade que poderiam ser compartilhados com outras portas de atendimento até mesmo ambulatoriais do município. O atendimento no Pronto-Socorro acontece seguindo o Protocolo Manchester, em que os pacientes são classificados de acordo com sua condição clínica, e os casos de urgência e emergência sempre serão prioritários.
A instituição sempre esteve com a sua escala de atendimento completa e conta com 6 médicos, sendo 3 médicos pediatras, 1 médico residente, 1 cirurgião pediatra e 1 ortopedista, que atuam exclusivamente no Pronto-Socorro em escala de 24 horas. Hoje, todos os nossos setores de atendimento estão superlotados e a estrutura física não permite ampliação. Em janeiro de 2021 foram realizados 4800 atendimentos e no mesmo período de 2022 foram 8215.
No mês de março, o número já está próximo dos 8 mil atendimentos somente no Pronto-Socorro. Reforçamos que buscamos diariamente manter nosso atendimento de excelência e compromisso com a comunidade e pedimos a atenção dos pais e responsáveis para que neste momento verifiquem também a disponibilidade de atendimento pediátrico em outras unidades de atendimento da sua região para os casos não urgentes ou de baixa complexidade. Frisamos a importância de outras portas de acesso às estas demandas pediátricas não urgentes e ambulatoriais que precisam ser garantidos pelo município de forma perene e dimensionada.”
Sobre a acusação do coordenador do Infantil, por ter agido de forma grosseira com uma das mães, o hospital disse que não iria se manifestar.
O que diz a prefeitura de Joinville:
O secretário de Saúde de Joinville, Jean Rodrigues, disse que nos últimos 30 dias houve um aumento na procura de crianças nos pontos de urgência e emergência, não só do Hospital Infantil, mas da UPA Leste também.
“Esse é um grande desafio que temos encontrado neste período de transição climática e, também a plena volta das crianças a todas as aulas. Isso é um desafio que acontece todos os anos. E nesse momento estamos com dificuldades de médicos nas unidades básicas e isso está ocasionando a sobrecarga nos pontos de urgência e emergência da cidade.”
O secretário frisou ainda que se os pais precisarem de atendimento para os filhos, o local para serem levadas é nas Unidades Básicas de Saúde. Um dos motivos para essa grande procura seria os casos de virose nas crianças.
Segundo Jean Rodrigues, a secretaria da saúde de Joinville continua fazendo a contratação de médicos pediatras. E também foram chamados 86 profissionais para trabalhar nas Unidades Básicas de Saúde.
“Desses 86, nove já estão atuando na saúde da cidade. A entrada desse profissional deve estar normalizada em até 60 dias”, afirmou o secretário.
Atualização do estado de saúde das crianças:
As duas meninas, de 9 e 11 meses, ganharam alta e estão em casa.