Por meses, perdurou o mito de que pessoas contaminadas pelo novo coronavírus deveriam ficar isoladas e aguardar em casa, buscando tratamento apenas se houvesse sinais de agravamento da doença. Desde 9 de julho, porém, a recomendação do Ministério da Saúde é de que os infectados procurem tratamento médico nos cinco primeiros dias a partir da manifestação de sintomas.
Novas evidências mostram que há riscos para o paciente e impacto no sistema hospitalar com a demora no uso dos remédios – Foto: Carina Machado/Divulgação/NDA mudança no enfrentamento da Covid-19 tem a ver com novas evidências, que apontam o risco para o paciente e o consequente impacto no sistema hospitalar devido à demora na busca por terapias.
Entre centenas de médicos defensores do novo protocolo, o ex-secretário estadual da Saúde João Ghizzo é um deles. Ghizzo prefere o termo “acolhimento precoce” para falar da atenção que deve ser dada às primeiras manifestações dos sintomas. Ele explica:
Seguir“A primeira coisa é que verdadeiramente os organismos de saúde, principalmente os públicos, não têm a preocupação do acolhimento do doente. Eles entendiam que o doente que chegasse à unidade básica com sintomas fosse para casa, tomasse dipirona ou tylenol e ficasse isolado. Ocorre que esse paciente não tinha capacidade de isolamento e, além de contaminar outras pessoas, piorava sua própria doença. Então chegava ao hospital já grave, na maioria das vezes já sendo internado diretamente na UTI (Unidade de Terapia Intensiva)”.
O médico, que também é diretor da ACM (Associação Catarinense de Medicina), ressalta a importância de dar abrigo, conforto e segurança ao doente.
“É importante dar amparo e sobretudo ter o diagnóstico já nos primeiros sinais. Também aplicar um protocolo e passar a monitorar o paciente. Não basta apenas encaminhar para casa e recomendar isolamento”.
“Uma coisa é a vida real, outra é a vida acadêmica”, resume o médico João Ghizzo – Foto: Divulgação/NDSegundo ele, unidades básicas e equipes do programa Saúde da Família têm condições de, mesmo com o paciente em casa, manter um protocolo de atendimento, com ações como a medição frequente da saturação de oxigênio, eventualmente encaminhando para uma tomografia.
O pneumologista Antônio Cavallazzi também tem usado o tratamento precoce em seus pacientes, tendo ajudado a curar dezenas nos últimos meses. Embora diga não ser um fervoroso adepto de todas as medicações, diz ser “o que temos para o momento”.
“Há respaldo para o uso de medicamentos. Temos que tentar mitigar com algum tipo de terapia o caminho desses 15% que vão acabar no hospital”, diz Cavallazzi.
Ele completa: “Temos que fazer o máximo possível para o paciente não chegar à UTI. Temos que tentar tudo, algumas coisas até de forma precoce. As UTIs estão lotadas. Não adianta esperar para resolver as coisas com trabalhos que vão surgir daqui a dois anos.
Cavallazzi resume o que tem feito cada vez mais médicos optarem por agir o quanto antes:
“Uma coisa é a vida real, outra é a vida acadêmica”.
Médico que teve Covid-19 seguiu protocolo precoce e se curou
O médico Leonardo Ghizzo, de 33 anos, foi contaminado pelo novo coronavírus no fim de maio. Ele é cardiologista no Hospital Regional, mas também atua como clínico no Hospital Florianópolis, local de referência no enfrentamento à Covid-19 e onde provavelmente ele contraiu o vírus.
Leonardo Ghizzo teve Covid-19 – Foto: Arquivo Pessoal/NDSem doença prévia, Leonardo sentiu primeiro uma dor na região cervical. Consultada uma endocrinologista, descobriu tratar-se de um problema na tireoide. Mas entre a série de exames que fez, um deles demonstrou também ter sido contagiado pela Covid-19.
Logo que surgiram sintomas moderados, como febre baixa e um cansaço fora do normal, o médico já iniciou o tratamento com corticoides e todo o protocolo do Ministério da Saúde, incluindo hidroxicloroquina, associada com azitromicina.
Por sorte, os familiares que tiveram contato com Leonardo não foram contaminados. Ele próprio, após duas semanas de tratamento, curou-se da doença, segundo novo exame realizado.
Entre o fim de maio, quando foi infectado, e hoje, o médico também viu a realidade mudar no Hospital Florianópolis. Antes vazia, a UTI agora está lotada, assim como os leitos de enfermaria.
“Já voltei ao trabalho e hoje atendo pacientes já com queda de saturação e raio-X alterado, prontos para internação em função do coronavírus”, afirma ele, que também defende o protocolo precoce e o monitoramento rígido de pacientes que testem positivo para a doença.
Entrevista: Fernando Aranha – Diretor Técnico e Coordenador da UTI do Hospital SOS Cárdio
O médico Fernando Aranha é intensivista no Hospital SOS Cárdio. Na segunda-feira (13), atendeu rapidamente a reportagem do ND+ por telefone direto da UTI, onde deu um breve panorama da situação e falou do tratamento precoce, enquanto sua equipe se dedicava aos 10 pacientes internados ali com Covid-19.
Qual a importância do tratamento precoce no caso da Covid-19?
Fernando Aranha é médico intensivista no Hospital SOS Cárdio – Foto: Divulgação/NDSou intensivista. Estou dentro da UTI com 10 pacientes Covid, alguns deles em estado grave. Nenhum teve uma abordagem precoce. Não quer dizer que não poderiam ter o quadro agravado. Mas é um primeiro indício. Defendo esse protocolo também porque na medicina a gente tenta ajudar o paciente e não ficar esperando. É presumível que a gente pense em alguma coisa para intervir. Principalmente em relação às pessoas com fatores de risco, como obesidade, idade, hipertensão ou diabetes. É natural que se tente alguma ação. Não dá para esperar todos os estudos porque a gente está numa pandemia. Mas já tem muito estudo mostrando benefício. Na abordagem precoce, o paciente precisa ser acompanhado com monitorização mesmo que remota dando seguimento para detectar qualquer sinal de piora.
Como está o dia a dia da UTI?
A gente tem aqui 10 leitos e alguns leitos extras. A demanda tem aumentado bastante. O dia a dia é muito corrido. É um trabalho muito intenso tanto para médicos quanto para enfermeiros. Há um grande esforço físico e emocional. Também para os pacientes, que ficam sozinhos, sem a possibilidade de visitas.
Como médico, como o senhor lida com o dilema da discussão sobre medicamentos que acaba extrapolando a medicina e alcançando contornos políticos?
A gente nem pensa nisso. Os médicos nem pensam nisso. Acho até um absurdo. Outro dia falei com uma médica brasileira na Europa, e ela disse que não entende como existe esse tipo de discussão política no Brasil. A gente tem que pensar no paciente. Queremos usar o que surge para poder salvar vidas, com toda a segurança devida.
Atenção para a Covid-19:
Sinais e sintomas leves
- Anosmia: perda do olfato, impossibilidade de sentir cheiros;
- Ageusia: perda do sentido do paladar, do gosto;
- Coriza;
- Diarreia;
- Dor abdominal;
- Febre;
- Mialgia: dor muscular;
- Tosse;
- Fadiga: cansaço, canseira;
- Cefaleia: dor de cabeça.
Sinais e sintomas moderados
- Tosse persistente e febre persistente diária;
- Tosse persistente + piora progressiva de outro sintoma (adinamia, prostração, diminuição do apetite, diarreia);
- Pelo menos um dos sintomas acima e presença de fator de risco.
Sinais de gravidade
- Síndrome respiratória aguda grave;
- Dispneia/desconforto respiratório;
- Pressão persistente no tórax;
- Saturação de O2 menor que 95% em ar ambiente;
- Coloração azulada de lábios ou rosto.
Se eu ficar doente
Caso você se sinta doente, com sintomas de gripe, procure a rede de atenção à saúde, evite contato físico com outras pessoas, principalmente idosos e doentes crônicos.
Em caso de diagnóstico positivo para Covid-19, siga as seguintes recomendações:
- Fique em isolamento domiciliar;
- Utilize máscara o tempo todo;
- Se for preciso cozinhar, use máscara de proteção, cobrindo boca e nariz todo o tempo;
- Depois de usar o banheiro, nunca deixe de lavar as mãos com água e sabão e sempre limpe vaso, pia e demais superfícies com álcool ou água sanitária para desinfecção do ambiente;
- Separe toalhas de banho, garfos, facas, colheres, copos e outros objetos apenas para seu uso;
- O lixo produzido precisa ser separado e descartado;
- Sofás e cadeiras também não podem ser compartilhados e precisam ser limpos frequentemente com água sanitária ou álcool 70%;
- Mantenha a janela aberta para circulação de ar do ambiente usado para isolamento e a porta fechada, limpe a maçaneta frequentemente com álcool 70% ou água sanitária;
- Caso o paciente não more sozinho, os demais moradores devem dormir em outro cômodo, longe da pessoa infectada, seguindo também as seguintes recomendações;
- Manter a distância mínima de 1 metro entre o paciente e os demais moradores;
- Limpe os móveis da casa frequentemente com água sanitária ou álcool 70%.