Alice Felis, 25 anos, entra de repente pela sala de espera da clínica onde está sendo preparada para passar por uma cirurgia. O corpo esguio e pequeno passa rapidamente pelos ocupantes do recinto, a quem ela cumprimenta com tradicionais dois beijinhos cariocas, apesar dos protocolos de distanciamento social e dos rostos escondidos por máscaras. Alice é uma mulher transgênero que trabalha como modelo e foi agredida dentro de seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, na madrugada do dia 16 de agosto, numa tentativa de latrocínio. Ela está em Blumenau porque veio começar a refazer a vida a partir da reconstrução do rosto, gravemente fraturado pelos golpes que recebeu do agressor.
Alice Felis, modelo trans ferida em agressão no Rio de Janeiro, passa por cirurgia em Blumenau – Foto: Gabriela Milanezi/NDTVA cirurgia de Alice acontece nesta quinta-feira (27) e ela está cheia de expectativas. Após uma semana de recuperação dos ferimentos mais graves e preparação, ela deu entrada no Hospital Santo Antônio pela manhã para iniciar os procedimentos. No total, a cirurgia deve durar cerca de seis horas, entre as fases de reconstrução e feminização. Depois, ela deve permanecer em Blumenau por cerca de 15 dias, para que o pós-operatório possa ser acompanhado pelos médicos.
Alice tornou público o crime que sofreu por meio de suas redes sociais. Os posts foram compartilhados numa onda crescente de apoio e solidariedade e um “arroba” começou a ser citado rapidamente: @drmartinsjr. O perfil do cirurgião José Martins Junior, especialista em cirurgias de redesignação sexual e sócio de uma clínica especializada em pessoas trans com sede em Blumenau, recebeu uma série de menções e ele não tardou a responder. Na própria rede social ofereceu, além da cirurgia de reconstrução, a feminização facial. Em meio ao furacão onde estava imersa, Alice celebrou.
Seguir“Foi a melhor notícia no meio disso tudo. Não só pela estética, mas pela reconstrução mesmo, pela minha saúde. Claro que ele vai me deixar linda, mas o principal mesmo é conseguir voltar a fazer coisas simples que eu não consigo ainda, como comer, conversar bem… Teve muita gente que se propôs a ajudar, mas nenhuma dessas pessoas fez tudo o que ele (Dr. Martins) fez, ele ficou atrás até conseguir falar comigo, falou ‘Você tem que estar aqui amanhã”, mandou a passagem. Eu não tenho como agradecer o que ele já fez por mim”, aponta.
Tratamento integrado
O trauma que sofreu foi suficiente para abalar de maneira significativa a confiança que Alice construiu ao longo da vida. Natural do Espírito Santo, ela mora no Rio de Janeiro há seis anos e afirma nunca ter passado por um episódio de transfobia. “É óbvio que as pessoas reparam, (falam) ‘Ah, é uma menina trans’, mas nunca com olhar de desprezo, de ódio, de raiva, entendeu? Talvez por me acharem bonitinha, mas eu nunca tive esse problema de agressão”, conta.
A modelo trans Alice Felis mostra os ferimentos após o ataque que sofreu em sua casa, no Rio de Janeiro – Foto: Reprodução/InstagramAlém dos atendimentos clínicos e da cirurgia, Alice está recebendo atendimento psicológico para começar a superar o trauma pelo qual passou. Ela conta que apesar de saber que não está no Rio de Janeiro – onde não pretende mais viver depois que terminar o processo judicial – já teve duas crises de pânico desde que chegou a Blumenau.
“A impressão que eu tinha é que estava sendo vigiada pela pessoa. Chorei muito, fiquei desesperada, uma amiga que me apoiou, até dormiu comigo, porque foi um choque muito grande. Ainda estou bastante abalada, infelizmente ainda tenho esses traumas na minha cabeça”, conta.
Alice veio sozinha para Blumenau, mas foi acolhida pela equipe da clínica Transgender Center Brazil, que tem uma estrutura completa para receber os pacientes. Ela viajou em 20 de agosto, mesmo dia que seu agressor foi preso. Antes de embarcar para Santa Catarina, Alice precisou ir à delegacia para fazer o reconhecimento presencial.
“Foi um alívio (ele ser preso), mas ao mesmo tempo foi muito difícil, estar ali na presença da pessoa que queria te matar e sabendo que ele está com prisão provisória. A minha advogada está recorrendo para ele continuar preso, mas ainda é muito difícil, eu tenho medo de voltar pro Rio”, diz.