Moradores de Joinville com diabetes alertam para complicações pela falta de diagnóstico precoce

Quase metade das pessoas com diabetes no Brasil desconhecem o diagnóstico sobre a doença

Foto de Fernanda Silva

Fernanda Silva Joinville

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Sem histórico de diabetes na família, Nelson Klein Junior, morador de Joinville, no Norte de Santa Catarina, não se preocupava em dar atenção a exames que pudessem detectar a doença.

Foi apenas depois de ter sintomas que descobriu o diagnóstico e, ainda no mesmo dia, precisou ser internado por conta dos níveis de glicose. De acordo com a Federação Internacional de Diabetes (IDF), cerca de 46% das pessoas entre 20 e 79 anos que vivem com a doença no Brasil desconhecem o diagnóstico, assim como aconteceu com Nelson.

Máquina é capaz de medir glicemia com picada no dedo – Foto: Marcelo Camargo/Agência BrasilMáquina é capaz de medir glicemia com picada no dedo – Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

No caso do morador de Joinville, hoje com 40 anos, o diagnóstico foi de Diabetes tipo 1, além de hipoglicemia, ou seja, taxas baixíssimas de glicose no sangue. O administrador e comerciante só descobriu a doença porque começou a passar mal e sentir muito cansaço quando tinha 29 anos.

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Ele chegou a ir ao médico, mas não foi orientado a fazer exames. Foi a irmã nutricionista que sugeriu que Nelson medisse a glicose. No mesmo dia, foi internado e ficou 12 horas no hospital. “E aí começou a jornada, adaptação ao medicamento, dosagem, ir muito ao médico. Foi um sofrimento na adaptação. Tive que me readaptar a viver quando descobri que tinha diabetes”, relata.

Com a diabetes, vieram outros problemas, como doença no pâncreas e dificuldade até mesmo para pegar peso. Nelson também destaca que o diagnóstico evita que a diabetes se agrave ainda mais e acarrete em outras situações como cegueiras e amputações.

Hoje, o morador de Joinville usa um sensor que registra os níveis de glicose ao longo do dia e, ainda, salva as informações em um banco de dados. “Eu sei que se não tiver controle monitorado, lá na frente vou sobrecarregar meu organismo”, comenta.

Falta de acesso à saúde

Vinda do Pará para Joinville em 2018, a família de Daniel, 20 anos, tinha pouco acesso à saúde em seu estado de origem. Por isso, Máxima Fernandes Lima, 42 anos, mãe do paciente diagnosticado com diabetes, conta que exames de rotina não eram frequentes.

Máxima e o filho Daniel – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDMáxima e o filho Daniel – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Com menos de dois anos, Daniel foi diagnosticado com problema de visão. Aos 13, com diabetes e aos 14, com autismo. A família só descobriu a diabetes com os sintomas.  “Daniel não é de reclamar, vimos porque estava afinando as pernas”, relata a mãe.

Ainda morando no Pará, Daniel realizou exame de glicose. No dia seguinte, já recebeu o resultado por conta das altas taxas e precisou ser internado, ficando no hospital por dez dias.

Após a descoberta do diabetes, começou a usar medicamentos. Porém, o corpo não se adaptou a algumas das medicações, que afetaram os rins. “Foi em outubro de 2020, aqui no [Hospital] Regional, quatro dias internado”, lembra a mãe.

A medicação foi alterada mas, segundo Máxima, como já havia afetado os rins, não foi possível reverter a situação. Agora, Daniel aguarda ser chamado para fazer hemodiálise.

Canetas para aplicação de insulina, uma das medicações contra diabetes – Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/NDCanetas para aplicação de insulina, uma das medicações contra diabetes – Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil/ND

Máxima acredita que se tivesse acesso à saúde de forma mais facilitada no Pará, poderia ter descoberto a doença antes, sem ter afetado tanto a saúde de Daniel. Segundo a mãe, a realidade da saúde paraense é precária se comparada a Joinville.

A importância do diagnóstico precoce

Pensando nos benefícios do diagnóstico precoce, a Coalizão Vozes do Advocacy, uma entidade brasileira, lançou a campanha A Prevenção Salva Vidas. A iniciativa busca ampliar o conhecimento sobre diabetes e obesidade e sugerir a inclusão do procedimento de medição de glicose na porta de entrada do atendimento de urgências e emergências do Sistema Único de Saúde.

“Estamos lançando a campanha para estimular os brasileiros a se consultarem com seus médicos e fazerem seus exames de glicemia em jejum, ou procurem a Unidade Básica de Saúde mais próxima para solicitar e realizar o teste de ponta de dedo, que é um pré-diagnóstico”, explica a coordenadora da entidade Vanessa Pirolo.

Junto com a campanha, foi lançado o site institucional da Coalizão, com conteúdos sobre diabetes e obesidade e o contato das organizações de todo o país que fazem parte dessa iniciativa.

“Nossa expectativa é ampliar os diagnósticos precoces, reduzindo os riscos de complicações destes pacientes e, por consequência, reduzindo o impacto do Sistema Único de Saúde por internações e hospitalizações, desonerando seus custos”, destaca Vanessa.

Para ajudar a ampliar os diagnósticos de diabetes no país, a campanha também lançou uma petição pública, que busca o apoio popular a partir de assinaturas para sugerir ao Ministério da Saúde a inclusão do procedimento de medição de glicose na porta de entrada dos atendimento de urgências e emergências do SUS. As assinaturas podem ser realizadas até o fim do mês de novembro.

Redução de custos e qualidade de vida

Segundo a Federação Internacional de Diabetes, cerca de 42,9 bilhões de dólares são gastos com o tratamento do diabetes e suas complicações no Brasil. A Coalização acredita que boa parte deste valor poderia ser economizado com o diagnóstico precoce.

Nelson, que é paciente com diabetes, também acredita que o Estado deveria dar mais importância aos recursos para tratamento. “Para evitar que o diabético chegue ao hospital com complicações e gaste ainda mais”, opina.

Para o joinvilense, também seria importante que o Estado fornecesse insumos como o sensor libre, já que o paciente poderia ter um controle melhor dos seus níveis de glicemia. “É de suma relevância pois evita futuros problemas como a cegueira, amputações, cicatrizes, coisas que podem ser evitadas precocemente. Muitas pessoas no brasil não sabem que tem diabetes”, diz Nelson sobre o diagnóstico precoce e acompanhamento.

Diferentes tipos de diabetes

Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, existem a diabetes Tipo 1, Tipo 2 e a gestacional. Entenda as diferenças:

Diabetes Tipo 1: em algumas pessoas, o sistema imunológico ataca equivocadamente as células beta. Logo, pouca ou nenhuma insulina é liberada para o corpo. Como resultado, a glicose fica no sangue, em vez de ser usada como energia. O Tipo 1 de diabetes concentra entre 5 e 10% do total de pessoas com a doença.

Os sintomas aparecem geralmente na infância ou adolescência, mas o paciente pode ser diagnosticado na fase adulta também. Essa variedade é sempre tratada com insulina, medicamentos, planejamento alimentar e atividades físicas para ajudar a controlar o nível de glicose no sangue.

Diabetes Tipo 2: aparece quando o organismo não consegue usar adequadamente a insulina que produz ou não produz insulina suficiente para controlar a taxa de glicemia. Cerca de 90% das pessoas com diabetes têm o Tipo 2.

Se manifesta mais frequentemente em adultos, mas crianças também podem apresentar. Dependendo da gravidade, pode ser controlado com atividade física e planejamento alimentar. Em outros casos, exige o uso de insulina e/ou outros medicamentos para controlar a glicose.

Diabetes gestacional: durante a gravidez, para permitir o desenvolvimento do bebê, a mulher passa por mudanças em seu equilíbrio hormonal. A placenta, por exemplo, é uma fonte importante de hormônios que reduzem a ação da insulina, responsável pela captação e utilização da glicose pelo corpo. O pâncreas, consequentemente, aumenta a produção de insulina para compensar este quadro.

Em algumas mulheres, entretanto, este processo não ocorre e elas desenvolvem um quadro de diabetes gestacional, caracterizado pelo aumento do nível de glicose no sangue. Quando o bebê é exposto a grandes quantidades de glicose ainda no ambiente intrauterino, há maior risco de crescimento excessivo (macrossomia fetal) e, consequentemente, partos traumáticos, hipoglicemia neonatal e até de obesidade e diabetes na vida adulta.

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