Uma mulher de 25 anos morreu após aguardar aproximadamente 24h por uma vaga de UTI no Vale do Itajaí. O caso ocorreu na semana passada e evidencia o colapso do sistema público de saúde em Santa Catarina.
Nesta quarta-feira (9), 94,08% dos leitos públicos de terapia intensiva para adultos estão ocupados em Santa Catarina. São pacientes com 646 Covid-19, 451 com diferentes doenças e traumas e apenas 69 leitos livres.
Marisa Teófilo de Oliveira foi esfaqueada pelo companheiro na madrugada de quinta-feira (3), em Gaspar. A partir daí a jovem conhecida pela alegria contagiante travou uma árdua batalha pela vida.
SeguirEla foi socorrida por vizinhos e levada de carro ao Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Lá passou por cirurgia e o quadro clínico por algum tempo permaneceu estável, de acordo com a assessoria da unidade.
Marisa tinha dois filhos e morreu aos 25 anos de idade – Foto: Redes sociais/ReproduçãoPorém, mais tarde, a situação piorou e os médicos viram a necessidade de levá-la para uma unidade de terapia intensiva. No hospital em que ela estava existe UTI desde maio deste ano, com 10 leitos.
Um deles estava disponível no momento em que Marisa precisou, mas não pode ser usado por ela. É que são leitos exclusivos para pacientes infectados pelo novo coronavírus.
O hospital então seguiu o protocolo e pediu ao governo do Estado, responsável pela regulação dos leitos públicos de UTI, uma vaga em outra unidade de saúde para receber a mulher.
Marisa aguardou em ambiente com equipamentos para atender casos de urgência e emergência. Passadas cerca de 24h da solicitação, pode ser transferida ao Hospital Santo Antônio, em Blumenau.
Na manhã de sábado (5), poucas horas após a transferência, a mãe de dois filhos não resistiu e morreu. Enlutada, a família de Marisa optou por não comentar a situação.
Mas em meio a dor, o entendimento é de que um leito de UTI mais rápido poderia ter mudado o final da história.
“Teria sido diferente, mas não foi. E agora não vai trazer ela de volta pra nós”, disse um parente que prefere não se identificar.
Marisa e Guilherme viviam juntos há cerca de sete meses, segundo a polícia. Ele é apontado como o autor do crime e está preso em Blumenau – Foto: Redes sociais/Reprodução
Polícia vai investigar
Enquanto Marisa ainda lutava para sobreviver, a Polícia Civil de Gaspar buscava pelo agressor, que foi preso na tarde de segunda-feira (6), em Brusque.
Agora, além do feminicídio, a investigação vai apurar também se a demora em conseguir um leito de UTI contribuiu para o desfecho infeliz do caso.
O delegado Bruno Fernando conta que os profissionais que prestaram atendimento à vítima foram intimados para depoimento e que solicitou o prontuário de Marisa ao hospital de Gaspar.
“Vamos atrás dos documentos médicos que demonstrem a evolução clínica do paciente, bem como relato dos médicos e enfermeiros do hospital. Se necessário requisitaremos um parecer médico no IML”, disse.
>>Confira um raio-x do feminicídio em Santa Catarina
Contraponto
A reportagem do nd+ procurou a Secretaria de Estado da Saúde, responsável pela regulação dos leitos públicos de UTI. As perguntas específicas sobre o caso de Marisa, como, por exemplo, se nenhum outro hospital da região tinha vaga disponível quando a paciente precisou, não foram respondidas.
Confira abaixo nota enviada pelo governo do Estado na íntegra:
As taxas de ocupação de leitos de UTI COVID se encontram bastante elevadas, com poucas vagas disponíveis no Estado. Alguns hospitais estão com lotação máxima. Ainda assim, devem receber os pacientes no setor de emergência e oferecer a assistência necessária.
Nos casos em que o paciente necessitar de internação e o hospital onde ele se encontra não tiver leito disponível, a unidade hospitalar deve solicitar vaga para a Central de Regulação da região que vai verificar vaga em outros hospitais naquela região.
Em não havendo vaga na região toda, a solicitação deve ser remetida à Central Estadual de Regulação que detém a informação de todos os leitos da rede pública do Estado de Santa Catarina. Esta por sua vez identifica a vaga em outra região, a mais próxima que atenda às necessidades do paciente, e informa para a central regional, e esta para o serviço hospitalar.
Os casos graves devem ser transferidos pelo SAMU 192. Independente de vaga, os pacientes graves devem ser encaminhados para os serviços hospitalares que tem complexidade necessária para atender, diagnosticar e iniciar as medidas terapêuticas enquanto aguarda pelo leito.
