As boas notícias sobre os avanços na contenção da Covid-19 no Brasil são animadoras, mas não eliminam as preocupações com outras doenças virais. É o que destaca o último boletim InfoGripe, divulgado pela FioCruz (Fundação Oswaldo Cruz), que alerta para o ressurgimento de síndromes respiratórias em crianças de 0 a 9 anos.
O Bocavírus e as Parainfluenza 3 e 4 se somam aos casos de VSR (Vírus Sincicial Respiratório) e Rinovírus, que reapareceram desde o início de 2021, ressalta a nota da Fundação. Em Santa Catarina, a Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica) detalha casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave).
Doença respiratórias reaparecem em internações em Santa Catarina – Foto: Pixabay/Reprodução/ND“A análise verificou que nessa faixa etária [0 aos 9 anos] houve aumento significativo de registros de VSR, com valores semanais superiores aos observados para Sars-CoV-2 (Covid-19)”, diz a nota da Fiocruz.
SeguirO Vírus Sincicial Respiratório é uma das principais causas de infecções das vias respiratórias e pulmões em recém-nascidos e crianças pequenas.
“O número de casos de SRAG segue abaixo dos picos de março e maio deste ano, porém, mantendo valores superiores aos de 2020. Houve apenas um leve aumento nas últimas semanas em alguns locais, mas se mantendo dentro da média recente. O importante é destacar essa volta de outros vírus respiratórios gerando SRAG”, afirma o pesquisador Marcelo Gomes, coordenador do InfoGripe.
Veja a lista dos vírus que “ressurgiram” e os sintomas
- Vírus Sincicial Respiratório (VSR): nariz entupido, coriza, tosse, dificuldade em respirar, chiado no peito ao inspirar o ar, febre.
- Rinovírus: conhecido como o “resfriado comum”, sintomas são faringite seguida de espirros, rinorréia, obstrução nasal e mal-estar.
- Adenovírus: febre, tosse, coriza, dor de cabeça e garganta e, no quadro intestinal, diarreia, vômitos e dor de barriga.
- Parainfluenza 1, o Parainfluenza 2, o Parainfluenza 3: febre, tosse, coriza, obstrução nasal, dor de garganta, dificuldade para respirar.
- Bocavírus: rinorréia, tosse, febre e chiado.
- Enterovírus: febre, dor de cabeça, doença respiratória e dor de garganta e algumas vezes aftas bucais ou erupção cutânea.
- Metapneumovírus: corrimento nasal, febre, tosse e sibilos e uma infecção grave que pode levar a desconforto respiratório.
Covid-19 ainda predomina entre adultos
Na população adulta, com 20 anos ou mais), o predomínio de detecção do Sars-Cov-2, o vírus da Covid-19, é praticamente absoluto entre os casos de SRAG.
Entre a faixa de crianças e adolescente de 10 a 19 anos, a Covid-19 também prevalece, mas há uma maior presença de casos positivos de Rinovírus.
De acordo com o pesquisador Marcelo Gomes, a análise dos casos entre crianças de 0 a 9 anos por Estado indica que o reaparecimento de outros vírus respiratórios é mais presente na região Centro-Sul do Brasil.
Cerca de 15% dos casos em crianças resultam em internação – Foto: Julio Cavalheiro/SecomNo Rio Grande do Sul e Santa Catarina também se observa um aumento no número de casos positivos para Parainfluenza 3 no mês de setembro entre crianças, que chega até a se aproximar do número de casos semanais positivos para Covid-19.
No Rio Grande do Sul, os casos de VSR continuam sendo mais prevalentes nessa faixa etária.
Preocupação em bebês prematuros
O Vírus Sincicial Respiratório é mais preocupante em bebês prematuros, cardiopatas ou com problemas crônicos no pulmão, conforme destaca a Fiocruz.
Em crianças de até dois anos, o VSR é responsável por 75% das bronquiolites e 40% das pneumonias durante seu período de maior incidência.
Crianças com menos de cinco anos têm maior risco de desenvolver formas graves. Cerca de 10 a 15% dos casos em bebês menores de dois anos necessitam de internação hospitalar, às vezes, na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).
Casos de SRAG por Estados: como está SC?
Santa Catarina figura entre os Estados que apresentam sinal de queda na tendência de longo prazo. Ao mesmo tempo, é uma das seis Unidades da Federação que sinalizam crescimento apenas na tendência de curto prazo.
A nota da Fiocruz ressalta que esta tendência de crescimento está em “situação compatível com oscilação em torno de valor estável”.
Confira as tendências de crescimento por Estado:
- Sinal de crescimento na tendência de longo prazo: Alagoas, Amapá, Ceará, Espírito Santo, Pará, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima e Sergipe.
- Sinal de queda na tendência de longo prazo: Amazonas, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Paraná, Rio de Janeiro, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins.
- Sinal de crescimento apenas na tendência de curto prazo: Distrito Federal, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco e Santa Catarina.
- Forte sinal de crescimento na tendência de longo prazo: Amapá, Espírito Santo, Pará, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima e Sergipe.
- Indícios de crescimento moderado: Alagoas, Ceará e Piauí
- Crescimento apenas na tendência de curto prazo: Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco e Santa Catarina.
Situação detalhada de internações em SC
O último boletim da Dive/SC, com dados atualizados no dia 26 de outubro, mostra que 53.314 casos de SRAG no Estado foram ocasionados por vírus respiratórios como VSR, o Rinovírus, o Adenovírus, o Adenovírus, Parainfluenza 1, o Parainfluenza 2, o Parainfluenza 3, o Coronavírus 229E, o Coronavírus OC43,o Bocavírus, o Enterovírus e o Metapneumovírus.
O número representa 83% dos casos confirmados desde o dia 3 de janeiro até o sábado, 23 de outubro. Vale ressaltar, porém, que 98,6% desses casos foram provocados pelo Sars-Cov-2, já que uma mesma pessoa pode ser acometida por mais de um vírus, destaca a nota da Dive.
Em comparação ao boletim com dados até 18 de setembro, houve um acréscimo de 2.856 entre os casos de SRAG causados por esses vírus respiratórios.
Além disso, entre 18 de setembro e 23 de outubro, Santa Catarina contabilizou 309 novos casos de SRAG em crianças até nove anos. No mesmo período, houve aumento de 3.312 casos, ou seja, os casos entre crianças representam apenas 9,32% do total registrado em pouco mais de um mês em Santa Catarina.
Veja os casos de SRAG por faixa etária
Entre as suspeitas de SRAG, a maioria, 56,8%, apresentou algum fator de risco para agravamento ressaltando os idosos (71,0%), com doença cardiovascular crônica (47,6%), diabetes mellitus (31,3%) e obesos (20,8%).
Ainda de acordo com o boletim epidemiológico divulgado pela Dive/SC, Santa Catarina registrou 14.652 mortes entre os mais de 64 mil casos de SRAG.
Entre eles, 13.868 foram ocasionados pelo coronavírus, ou seja, 94,7%. Outros 754 foram classificados como SRAG não especificada (resultado negativo para influenza A – H1N1 e H3N2 – influenza B e outros vírus respiratórios), duas mortes como SRAG ocasionada pelo VSR, um por Rinovírus e 11 por outro agente etiológico. Vale ressaltar que 16 óbitos seguem em investigação.
Em contato com a reportagem do ND+, a Dive/SC afirma que os casos que estão ocorrendo por outros vírus respiratórios estão “dentro do esperado”.
Já sobre os casos em crianças, o órgão afirma que um dos principais motivos de circulação é o retorno das atividades escolares nas últimas semanas.
“Além disso, dispomos de Rede Sentinela no Estado em 7 municípios que semanalmente enviam amostras ao Lacen com a finalidade de monitorar os vírus que estão circulando”, declara a Dive/SC, em nota.