Uma mulher de 30 anos apresentou complicações após realizar um preenchimento labial, em Içara, no Sul catarinense. Conforme os especialistas, se a vítima não tivesse recebido atendimento dentro de dois dias, poderia ter perdido o lábio superior.
O caso ganhou repercussão esta semana nas redes sociais, após diversos profissionais da saúde demonstrarem indignação contra a responsável pelo procedimento. Segundo acusações, ela se passava por biomédica e atuava em uma clínica estética irregular na cidade.
O procedimento malsucedido na paciente teria sido feito no final de maio. Após a aplicação de ácido hialurônico no lábio superior, a mulher começou a sentir dormência, dores, formigamento e outros sintomas na região e, então, decidiu buscar ajuda com uma cirurgiã-dentista habilitada na cidade.
Seguir“Ela chegou desesperada no consultório, porque havia feito um preenchimento há mais ou menos uns três dias. Ela me relatou que estava sentindo um formigamento do lábio até o nariz e a sensação era como se ainda estivesse anestesiada”, conta a profissional ao ND+, que preferiu não ser identificada.
Outros pontos que chamaram a atenção da dentista foram a coloração cianótica (azulada) do lábio da paciente, a formação de pequenas bolhas e sintomas de ardência e dor. “Isso já faz a gente ligar um alerta e pensar em uma necrose. Então, fui dando assistência e passei o caso para um especialista em harmonização facial e professor em quem confio”, relata a dentista.
Tratamento para reverter
A paciente, então, foi encaminhada para tratamento no consultório do cirurgião-dentista e especialista em harmonização orofacial Gabriel Sousa de Matos, em Araranguá. No local, aconteceu o procedimento de reversão.
“Com os sinais e sintomas que ela apresentava, levantei a hipótese de ser uma compressão vascular que é quando o excesso de preenchedor próximo às estruturas nobres, no caso a artéria labial, pressionam essa artéria e fazem com que o fluxo sanguíneo diminua, dando essa sensação de dormência, dor e ardência”, explica.
Matos conta ainda que, antes de iniciar uma intervenção na paciente, solicitou uma ultrassonografia com doppler para visualizar o fluxo sanguíneo do lábio superior da mulher. Contudo, após a paciente ter dificuldade para encontrar uma clínica que realizasse o procedimento em Criciúma, o dentista recorreu ao médico radiologista Ruan Matheus Nascimento Toledano, de Praia Grande.
“Ele veio até o consultório para fazermos o exame, e foi comprovado que o material era ácido hialurônico e que estava no plano profundo do lábio, além disso, comprovou a compressão vascular. Então, entrei com a enzima que reverte o procedimento que havia realizado”, diz Matos.
Segundo o especialista, uma nova ultrassonografia mostrou que o tratamento de reversão havia dado certo e não havia mais material preenchedor comprimindo a artéria.
Preenchimento labial é perigoso?
De acordo com Matos, o procedimento de preenchimento labial é extremamente seguro e o índice de complicações é baixíssimo.
“E quando é diagnosticada essa complicação imediatamente, nas primeiras horas ou ainda enquanto o paciente está na cadeira e conseguimos observar, aplicamos a enzima e o procedimento é revertido na hora, não havendo grandes problemas. O problema é quando o profissional negligência os sinais”, explica o dentista.
Conforme o especialista na área, os principais indícios de que o procedimento foi mal-sucedido são dores – até mesmo sem fazer nenhum esforço, sensação de dormência após horas, bolhas de água, lábio esbranquiçado ou de coloração azulada, entre outros.
Situação da paciente
Ao ND+, Matos também informou que a paciente está bem e segue sendo acompanhada. A reportagem tentou contato com a mulher, mas ela não quis gravar entrevista. Conforme apurado, a vítima ficou bastante abalada com a situação e decidiu por não registrar nenhuma denúncia contra a profissional.
Sucesso na internet
Nas redes sociais, a responsável pelo procedimento acumula mais de 20 mil seguidores, compartilha diversos antes e depois bem-sucedidos e vende cursos e produtos na área de estética. Em alguns momentos, também se apresenta como biomédica.
Segundo um dos delegados do CRBM (Conselho Regional de Biomedicina), ela não possui registro e, mesmo se estivesse cursando Biomedicina, só poderia atuar após formada, registrada e habilitada em Estética.
O membro do conselho também informou que recebeu denúncias contra a falsa biomédica. “Porém, não levei até a fiscalização, pois ela não tem formação em Biomedicina. Orientei para que, nesses casos, a denúncia fosse feita na Vigilância Sanitária ou na Polícia Civil”.
Conforme apurado pela reportagem, a Polícia Militar esteve na clínica onde a profissional atua e também é proprietária, para apurar uma denúncia. Em contato com o ND+, o comando de Içara informou apenas que a ocorrência está sendo apurada de forma sigilosa.
Já o delegado da comarca de Içara, Rafael Marin Iasco, revelou que, até o momento, não há nenhum boletim de ocorrência registrado contra a esteticista.
Clínica fechada
A clínica envolvida nas acusações também acabou sendo fechada pela Vigilância Sanitária de Içara na terça-feira (31) por falta de alvará. O órgão de fiscalização municipal não deu mais detalhes da ação.
Procurada pela reportagem, a clínica informou apenas que não tem nada a declarar no momento.
Mais acusações
Ao ND+, uma moradora de Criciúma, cidade vizinha, também fez acusações contra a esteticista. Segundo a mulher, que preferiu não ser identificada, ela enfrentou uma série de problemas, após realizar diversos procedimentos estéticos para remover uma mancha e olheiras com a profissional.
“A primeira vez, eu fui para fazer um tratamento com agulhas que prometia clareamento. Fiz três sessões e nada aconteceu. Depois ela me recomendou outro tratamento bem caro. Fiz e também deu em nada. Minha mancha aumentou e se espalhou. Eu era tipo uma cobaia, fazia tudo”, conta.
Mesmo sem o resultado esperado, a mulher disse que retornava ao local para novos procedimentos. “Fiz um clareamento de olheira que me queimou e deu mais manchas. Eu sempre reclamava que não tinha resultados, que a minha pele estava horrível e que apareciam hematomas”, revela.
Ela ainda comenta que fez mais alguns procedimentos com a profissional, como sessões de microagulhamento e tratamento com melasma.
“Ela tinha uma lábia, falava que ia resolver e só piorava. Hoje eu sei que essa mancha não tem cura, mas ela me enganou muito. Tive que procurar outros profissionais e gasto até hoje, mas a minha pele está bem melhor”.
Segundo a mulher, a profissional dizia que estava estudando e já estava autorizada a fazer os procedimentos. “Ela fazia vários cursos também, passando confiança. Só que os resultados enganavam”, afirma.
A reportagem tenta contato desde terça-feira (31) com a esteticista mencionada, mas até o fechamento da matéria não houve retorno. O espaço está aberto.