Mulheres acreditam que autoexame é a forma mais eficaz de detectar câncer de mama, diz pesquisa

Em coletiva de imprensa realizada nesta quinta (29), em São Paulo, o Coletivo Pink - por um outubro além rosa compartilhou dados de pesquisa inédita sobre a percepção da doença nas 5 regiões do país

Foto de Luciana Barros

Luciana Barros De São Paulo

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A convite do Coletivo Pink, projeto colaborativo idealizado pela Pfizer, a equipe do ND+ esteve em São Paulo nesta quinta-feira (26) para registrar dados inéditos revelados pela pesquisa “Câncer de mama hoje: como o Brasil enxerga a paciente e sua doença?”, realizada pelo Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria) em diversas capitais do país.

Entre as informações apontadas está a de que o autoexame é considerado por muitas mulheres a principal forma de detectar tumores de mama precocemente, percepção que não está de acordo com a recomendação das sociedades médicas brasileiras.

Coletivo Pink dá pontapé na campanha Outubro Rosa apresentando dados de pesquisa inédita sobre o câncer de mama realizada pelo Ipec no Brasil – Foto: Luciana Barros/NDColetivo Pink dá pontapé na campanha Outubro Rosa apresentando dados de pesquisa inédita sobre o câncer de mama realizada pelo Ipec no Brasil – Foto: Luciana Barros/ND

Segundo a SBM (Sociedade Brasileira de Mastologia), o autoexame é indicado como autoconhecimento em relação ao próprio corpo, mas não deve substituir os exames realizados ou prescritos pelo médico, já que muitas lesões, ainda pequenas, não são palpáveis.

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Além da confusão em torno do papel do autoexame, a maioria das mulheres ouvidas pelo Ipec também demonstra desconhecer as recomendações médicas para a realização da mamografia, que pode detectar tumores menores que 1 cm1.

Para 54% das respondentes não está clara a necessidade de passar pelo procedimento caso outros exames, como o ultrassom das mamas, não indiquem alterações: 38 %acreditam que a mamografia deve ser feita apenas mediante achados suspeitos em outros testes, enquanto 16% não sabem opinar.

A recomendação geral das sociedades médicas é a de que, a partir dos40 anos, as mulheres realizem a mamografia anualmente. Mas 51% das respondentes da pesquisa não estão cientes da importância dessa regularidade: 30% das entrevistadas estão convencidas de que, após um primeiro exame com resultado normal, a mulher estaria liberada para realizar apenas o autoexame em casa, enquanto 21% da amostra afirma desconhecer qual seria a orientação correta.

Hereditariedade e fatores de risco

A pesquisa evidencia que o desconhecimento sobre o câncer de mama entre as mulheres ouvidas vai além da falta de informação sobre a conduta adequada para a detecção precoce. A maior parte ignora a relação entre o estilo de vida e a doença: 58% das mulheres não associam o excesso de peso como um fator de risco, enquanto 74% não identificam a relação com o consumo de bebidas alcoólicas.

Por outro lado, a herança genética é o fator mais apontado pelas entrevistadas quando perguntadas sobre as causas do câncer de mama: 82% estão convencidas de que a existência de outros casos do tumor na família seria o principal motivo para o desenvolvimento da doença.

A literatura médica, contudo, aponta que apenas 5% a 10% do total de casos estão associados a esse elemento.

Camila Damato, gerente Patient Advocacy da Pfizer Brasil e Evelin Scarelli Terwak, coordenadora de projetos e voluntariado no Oncoguia analisam os dados – Foto: Luciana Barros/NDCamila Damato, gerente Patient Advocacy da Pfizer Brasil e Evelin Scarelli Terwak, coordenadora de projetos e voluntariado no Oncoguia analisam os dados – Foto: Luciana Barros/ND

“Estamos falando de uma doença multifatorial, em que hábitos de vida e até comportamentos sociais, como a redução no número de filhos, são considerados fatores de risco”, diz a diretora médica da Pfizer Márcia Pinheiro.

As participantes da pesquisa desconhecem, por exemplo, a relação entre comportamentos associados à mulher moderna e o câncer de mama: apenas 17% estão cientes de que não ter filhos biológicos aumenta o risco para a doença e muitas ignoram o efeito protetor da amamentação.

Evelin Scarelli Terwak, 34 anos, coordenadora de projetos e voluntariado no Oncoguia, organização de apoio a pacientes com câncer de alcance nacional, inclusive em Santa Catarina, descobriu o câncer de mama por acaso aos 23 anos e, junto com a doença, uma condição genética rara.

“Um dia eu estava na cama, me espreguicei, encostei a mão no seio e encontrei algo que não era normal. Fui perguntando para mulheres da família, pedia para elas palparem. Todas diziam que aquilo não era normal. Fui ao mastologista, ele me fez algumas perguntas que tinham relação com fatores de risco e eu respondi não para tudo. Ele pediu para que eu retornasse em seis meses e que não parecia ser nada fora do comum”, disse ela.

Apesar da recomendação, Evelin ouviu sua intuição e insistiu para fazer os exames antes dos seis meses recomendados de espera.

“Eu tinha câncer de mama. Faço parte de uma população de 10% que tem câncer de mama em decorrência de uma mutação genética. Os outros 90% dos casos se devem a fatores externos como sedentarismo, consumo de bebida alcoólica, tabagismo, estilo de vida, estresse. Liderei os casos de câncer de mama da família. Dois anos depois a minha mãe foi diagnosticada”, disse ela, que fez radioterapia, quimioterapia e mastectomia.

Câncer e prótese de silicone

Uma das questões levantadas no bate-papo é a presença da prótese de silicone na mama e se isso poderia afetar o exame de mamografia. Débora Gagliato, médica especialista em câncer de mama do Centro de Oncologia e Hematologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo explica que não há qualquer impedimento.

A oncolgista Débora Tagliato explica os fatores de risco para o câncer de mama – Foto: Luciana Barros/NDA oncolgista Débora Tagliato explica os fatores de risco para o câncer de mama – Foto: Luciana Barros/ND

“Muitas mulheres tem prótese de silicone por questão estética. Independente disso a mamografia continua sendo o principal exame. O médico só precisa analisar com muito cuidado e atenção porque a prótese impõe alguns desafios no exame, mas é totalmente possível rastrear qualquer alteração. Além disso, a mamografia nunca deve ser substituída. A ressonância, por exemplo, é indicada em casos muito específicos em que o médico leva em conta muitos fatores para indicá-la”, encerra.